A MÁRIO DE ANDRADE E SEU NOVO DIRETOR

André Sturm, o novo Secretário Municipal de Cultura, confirmou a indicação do ex-editor e colecionador de arte Charles Cosac como novo diretor da Biblioteca Mário de Andrade.

Quando soube da notícia, pensei logo em escrever sobre o assunto.

Mas o Maurício Meireles, paraense (ou roraimense, nem sei!), importado pela FSP, já falou praticamente tudo que eu queria dizer.

Por isso, remeto à sua coluna de sábado, dia 7 de janeiro.

A partir da própria coluna, sabemos que Charles Cosac não entende bulhufas de mercado editorial. Certamente entende de publicar belos livros, mas de mercado editorial nada de nada. E tenho minha dúvidas – amplas e fundamentadas – de que gostar de livros, “ser humanista” e haver frequentado bibliotecas seja qualificação suficiente para dirigir uma biblioteca do porte da BMA, a segunda maior do país e supostamente cabeça (ou modelo) de um sistema com mais de cem unidades.

Bom, esperemos.

Não tenho lá muitas esperanças. Talvez a BMA se transforme em uma bela galeria de arte, exibindo obras dos artistas que Cosac admira.

Quem sabe, poderá ser comparada à gestão do Pedro Correa do Lago na BN, cargo que Mindlin recusou porque “iria se sentir como a raposa dentro do galinheiro”. Fez bem. E ainda bem que o Cosac não é bibliófilo.

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O NATAL QUE HERDAMOS E SUA HISTÓRIA

Passado o natal cristão, é bom lembrar inúmeras observações que geralmente se repetem ano a ano: festa de família, comercialização – ao lado da celebração religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de católicos praticantes. Os protestantes puritanos chegaram a proibir essa comemoração, como herética, e mesmo depois da suspensão desse tipo de édito, o natal é uma festa menor nos EUA, por exemplo, que a celebração do Dia de Ação de Graças, oura mitologia propriamente estadunidense.

Entretanto, o caráter mitológico do natal é geralmente pouco lembrado. Como disse meu amigo e professor Rodrigo Montoya (em um post no FB sobre essa festa), “Todo mito es una ficción creada a partir de muchos fragmentos dispersos de realidades que van cambiando con el tempo”. E quero aqui lembrar um pouco as informações disponíveis sobre o assunto.

A existência de um personagem histórico, o Jesus do Novo Testamento, é hoje quase consensual. Existe ainda alguma disputa, mas a maioria dos historiadores concorda que Jesus foi um dos tantos profetas judeus que predicavam durante o reino de Herodes, o Grande, em uma palestina já vassala dos romanos (para informações mais amplas sobre os vários tipos de dominação romana, um livro útil é o da historiadora e arqueóloga britânica Mary Beard: “SPQR: A History of Ancient Rome”,  disponível em inglês em ebook Kindle por R$ 27,00 – ótimo livro síntese).

Jesus provavelmente foi discípulo de outro profeta, conhecido como João Batista, e que as autoridades consideravam, na época, muito mais subversivo. Mas a cronologia é bem complicada. É bom lembrar que os chamados evangelhos canônicos (reconhecidos pela Igreja Católica), foram escritos entre os séculos I e III da nossa era, e nenhum de seus autores, na verdade anônimos, chegou a conhecer pessoalmente o personagem central. Eram parte dos chamados epígonos, os herdeiros do profeta, que consolidam e formalizam seus ensinamentos em uma instituição de poder (como foi o caso), e os transformam em seita ou religião.

Mesmo assim, as referências bíblicas são vagas e imprecisas. Mencionam a viagem do casal José e Maria a Belém para um censo, provavelmente durante o reinado de Herodes. Mas qual a data desse censo (uma prática instituída pelos romanos), está longe de ser consensual.

De qualquer maneira, é praticamente certo que não teria sido no inverno, que é extremamente rigoroso na Palestina e dificultaria muito o deslocamento de pessoas.

De qualquer modo, os primeiros cristãos não costumavam celebrar o nascimento de Jesus como tal. Muitas comunidades optaram por celebrar a que ficou conhecida como primeira Epifania (revelação manifestada a partir de algo inesperado). No caso cristão, quando Jesus “se revela” como Deus. No caso, a primeira delas é a adoração dos chamados “Reis Magos”.

O natal, como festa de celebração do nascimento de Jesus, passou a ser considerado só no Século IV da nossa era. A data de 25 de dezembro é o solstício do inverno no hemisfério norte, o dia em que as noites começam a diminuir e o a luz solar se expande pouco a pouco, até o solstício do verão, geralmente 24 de junho, onde se inicia o movimento contrário. Isso no hemisfério norte. No sul, onde estamos, as estações se invertem: o nosso solstício de inverno é em junho e o do verão em dezembro.

O solstício do inverno celebrava, para os romanos, o nascimento do sol, o deus-sol invicto (natalis invicti Solis). Nessa ocasião se davam as celebrações das saturnálias (que incluíam troca de presentes) e o solstício era um festival pagão muito popular e considerado. Dito seja que Constantino, o imperador romano que oficializou o cristianismo como religião do Império, havia sido sagrado exatamente tendo como patrono o tal deus-sol invicto. O inverno, nas sociedades agrárias como as da antiguidade, é o momento de encerramento das colheitas, celebrações, eventualmente dedicação a trabalhos artesanais dentro de casa, etc.

O Cristo como Sol. Mosaico em tumba no Vaticano.

Os primeiros cristãos já haviam desenvolvido o hábito de incorporar datas e celebrações pagãs em suas festividades. A prática, denominada de sincretismo, foi amplamente empregada através dos séculos, para dar uma capa cristã e incorporar crenças pagãs ou de outras religiões no calendário cristão.

A chamada conversão de Constantino aconteceu em 312, depois de sua vitória na batalha da ponte Mílvia, no dia 28 de outubro daquele ano, quando derrotou seu rival Magêncio, supostamente por haver incorporado a cruz cristã ao escudo de seus soldados. Quarenta e oito anos mais tarde, o Papa Júlio I, depois de “investigação pormenorizada” feita por astrônomos, declarou oficialmente a data como a do nascimento de Jesus. Uma “coincidência” fabulosa com a celebração do deus-sol patrono de Constantino. Não foi a primeira nem a última manifestação de oportunismo que a igreja romana praticou. Continue lendo

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NOVO LIVRO DA MARIA JOSÉ SILVEIRA A CAMINHO

Nos próximos dias. Primeiro em e-book, depois impresso.

We few, we happy few, we band of brothers 

(Nós poucos, felizes poucos, bando de irmãos)

W. Shakespeare, Henrique V

Vinte e um anos de ditadura e onze contos. Os poucos “felizes poucos”, desta vez, não foram os que venceram a Batalha de Agincourt. São os militantes que lutaram contra a opressão, em vinhetas do cotidiano, de luta, de reflexão sobre o que aconteceu, sobre as vitórias parciais e a derrota (que fica cada vez mais evidente com essa “ditadura em transição” na qual vivemos agora).

capa-curingaO Curinga

Minha cara leitora, meu caro leitor:
A autora foi me buscar, vozinha de órfã perdida no bosque da literatura, “Por favor, me ajuda”.
Não é de hoje que conheço essa autora, sei o quanto é dissimulada. Precavido, perguntei, “Ajudar em quê? Você é tão boa! Por que precisa de mim?”, “É que desta vez meu tema é mais complicado”, ela respondeu. “Ééé?” ecoei.
“Vou falar explicitamente de política. Ditadura. Luta armada. Esses tempos. Queria que você alegrasse um pouco meu tema, oferecesse aos leitores um respiro de ar fresco, um copo-d’água da fonte.”

Os contos deste livro tratam de vários momentos da luta contra a ditadura civil-militar que, por 21 anos, controlou o país. Passam pelo campo, pela fábrica, pela luta armada, pela clandestinidade, prisão e exílio, e chegam até a Anistia e a continuação do trabalho político. Falam de uma geração que viveu esse tempo, com todas as suas consequências. E o faz com uma forma literária criativa e inovadora como poucas vezes vemos.

É o primeiro livro de contos de Maria José Silveira, premiada romancista, traduzida em vários países. É um livro sobre momentos do passado que, assustadoramente e apesar de todas as diferenças, podem estar voltando.

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UMA EXPERIÊNCIA GRATIFICANTE

hamlet Assisti ontem o DVD que o Kenneth Branagh filmou da versão completa do Hamlet. Foi editada pela Versátil,  e um amigo me emprestou. Já havia assistido a primeira parte, também emprestada, felizmente com as legendas em inglês. Mas enfrentar o bardo assim direto não é fácil…
Foi uma experiência imensamente gratificante.

Geralmente as encenações da peça são feitas com cortes, e raramente é encenada integralmente. Acredito que, filmada, esta seja única. São mais de quatro horas da peça, além de quase uma hora de extras (muito bons), que o segundo DVD trás.

É importante destacar que não se trata da filmagem de uma montagem teatral, e sim de um filme com o texto integral. Em ópera, acho que a versão do Don Giovanni (Mozart), filmada pelo Losey, de 1979 (também editada pela Versátil) seria equivalente em qualidade.

A encenação está magnífica, os atores ótimos. Branagh aproveita atores que já fizeram o papel principal há anos, como Derek Jacobi, que assume o papel de Claudius, Sir John Gielgud, que faz uma ponta como Príamo (junto com Judi Dench – Hécuba). Além disso, não hesita em usar atores hollywoodianos, que se saem muito bem: Jack Lemmon como Marcellus, Julie Christie como Gertrudes, Billy Crystal como um dos coveiros, Charlston Heston, como o rei da troupe ambulante, Robin Williams (Osric) e Kate Winslet, maravilhosa como Ophelia.

Além do estúdio, as cenas no Palácio de Blenheim são suntuosas, e os cenários são muito bem feitos. A ação é transportada para um tempo mais ou menos indefinido entre os séculos XVIII e XIX, que fica muito bem.

Um único senão no DVD é a ausência do crédito da tradução.

Acredito que tenham usado o texto do Millor Fernandes, que é bem fluente, nada pomposo como a de F. Carlos Almeida e Oscar Mendes, da já velhusca edição da Nova Aguilar. Não tenho em mãos a edição do Millor, mas minhas suspeitas derivam do fato do espectro do pai de Hamlet, ao descrever seu envenenamento, usar a palavra ébona, que foi usada por Millor (e que não está no Houaiss, no Aurélio, no Porto nem no Michaellis). A edição da Nova Aguilar usa meimendro, para denominar o veneno.

A ausência do crédito do tradutor é uma falha grave de informação. Felizmente não chega a estragar a beleza da encenação e a importância do DVD.

Recomendo vivamente.

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CAETANICES

CAETANICES

Ele não resiste. Cara inteligente, ótimo cantor (já foi ótimo compositor…), mas de vez em quando fala umas bobagens…

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Comentando o lançamento do belíssimo CD do António Zambujo, com músicas do Chico Buarque, Caetano pespega a declaração (dupla) e errada: “Suponho que este seja o primeiro álbum de um cantor português composto apenas de canções brasileiras. Estou seguro de que ele é o primeiro dedicado a um só autor brasileiro de canções” (OESP, 17/10/2016).

Erra nas duas afirmações.

Eugénia de Melo Castro faz um trabalho de divulgação da música brasileira em Portugal há anos. E já lançou álbuns dedicados exclusivamente ao Vinícius e ao próprio Chico Buarque.

Eugénia é um personagem. Conheci-a quando preparava a edição brasileira (a primeira) do clássico Peregrinações do Fernão Mendes Pinto, pois usei a atualização ortográfica e a divisão em parágrafos da edição portuguesa preparada por sua mãe, Maria Alberta Menéres, escritora, e do poeta E. M. de Melo e Castro, prestigiadíssimo, que inclusive morou em S. Paulo e deu aulas na USP.

Eugénia, aliás, estará em S. Paulo com espetáculo a partir de sexta-feira no Teatro do MUBE:

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Os dois discos (acho que na verdade tem até mais que esses), dedicados exclusivamente a um “autor brasileiro de canções” são os seguintes:

descontrucao eugeni-mc-vinicius

Os links para o site dela:

http://www.eugeniameloecastro.com/  http://www2.uol.com.br/eugeniameloecastro/old/descontrucao.html

Ela também está no FB: https://www.facebook.com/eugeniamc?ref=name

Às vezes acho que sofro de uma versão mais suave da síndrome de Funes, el Memorioso. Isso ainda vai me dar problemas…

E não percam o CD do Zambujo. É mesmo ótimo…

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ARROGÂNCIA

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Na época da Constituinte, um amigo meu, deputado, me convidou para almoçar, lá em Brasília. Apareceu com o Roberto Freire. Naquela ocasião ficou claro, para mim, que o ódio que ele cultivava ao PT vinha de um simples fato: o então chefão do “Partido do Proletariado”, alcunhado de pecezão, estava desesperado com o surgimento de um partido que, sem se arrogar ser “o” representante exclusivo do proletariado, tinha real apoio dos operários, e muito além disso.

Era a arrogância misturada com o ressentimento e a inveja. E o início da desabalada carreira para a direita que o levou ao colo de Temer, Alkmin e Serra, sem conseguir mais se eleger nem síndico em Pernambuco.

Hoje, nos jornais, o Ivan Valente, vice da Erundina, repetiu o espetáculo da arrogância e do ressentimento, dizendo que a candidatura da Luiza era “a única de esquerda”.

Respeito a decisão dela de se candidatar. Critico-a pela candidatura personalista e por ter buscado o PSOL paulistano para servir de “barriga de aluguel” para um projeto pessoal e divisor, quando não conseguiu registrar mais um partido “para chamar de seu”, o tal Raiz.

Mas não respeito o Ivan Valente, embora espere que ele não siga a trajetória do pernambucano

De passagem: morasse no Rio, nessas alturas, votaria no Freixo. E em Belém, no Edmilson.

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CASTRO ALVES CHORA JANAÍNAS E CUNHAS

Castro_Alves03 Estava eu, sonolento após levar a surra mental do sodalício reunido quando, em um ectoplasma radioso, põe-se diante de mim o Poeta Libertário, chorando.

Diz-me, voz embargada que, do etéreo vira, gente que dizia representar sua alma mater, Uma harpia e um careca de olhar esgarço vomitarem tudo que negava a alma da velha casa.

Pediu-me, tremendo, que abandonasse por um instante meu espírito materialista,

E transcrevesse, ainda impolidas, o que do peito lhe brotava, lembrando sua saga antiescravista.

E tascou o que eu, mão trêmula, copiei:

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado numa Janaína?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

 

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na Cunha penedia

 

Cem mil pastores, dizem

Evangélicos que são

Em contas nos altos Alpes mamam

E do teu filho Jesus.com são

 

— Infinito: galé! …

Por abutre — me deste o sol seco do Planalto,

E o Congresso do Brasil — foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

Da mulher louca e caprichosa,

Insana e cortesã.

Do rosto o esgar mostra;

Dos cabelos medusas assanha,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

 

Idiotas após ela — loucos amantes

Seguem cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

 

Nem veem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu. 

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

 

Jesus.com! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos — alimária do universo,

Eu — pasto universal…

 

Hoje em meu sangue a hipocrisia se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 

Basta, Senhor!  De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

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CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – ESPAÇO ABERTO

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O Centro Cultural São Paulo,também conhecido como Centro Cultural Vergueiro, é um dos espaços públicos mais interessantes da cidade. E por muitas e diversificadas razões.

Recentemente fui até lá para ver a exposição ANTONIO BENETAZZO, PERMANÊNCIAS DO SENSÍVEL e, como sempre, fiquei admirado e de certa forma comovido com o que vi.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Não apenas dezenas de jovens (ou não tão jovens assim) aproveitando o wi-fi grátis da Prefeitura. A Biblioteca Sérgio Milliet lotada. É a segunda maior biblioteca pública da cidade, menor apenas que a Mário de Andrade. E é a única aberta sábados, domingos e feriados (como, aliás, deveriam ser TODAS as bibliotecas públicas), com acervo razoavelmente atualizado, tanto de livros como de revistas.

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Os outros equipamentos permanentes do CCSP também são muito bem frequentados. A Biblioteca Alfredo Volpi, cujo acervo é composto por catálogos de exposições de artes indexados pelo nome do artista, livros sobre artes plásticas, arquitetura, fotografia, moda, recreação e artes performáticas, além de periódicos e CDs-Rom. Destaque para a coleção da revista Cinelândia, publicada entre as décadas de 1950 e 1960, e para os mais de onze mil catálogos de exposições, dos quais 5.247 já estão indexados pelo nome do artista, em um banco de dados que, em breve, será disponibilizado pela internet. Pode ser frequentada de terça a domingo. Considero a coleção de catálogos como um dos aspectos mais importantes da Alfredo Volpi. As exposições passam, a documentação fica, e essa memória é inestimável.

E ainda há também uma biblioteca Braille, a Gibiteca Henfil, uma sala de leitura de títulos infanto-juvenis, um laboratório audiovisual e uma área para Culturas Surdas. As duas categorias de deficientes físicos mais ativos e com necessidades bem específicas de acesso estão, assim, atendidas. Além, é claro, do espaço ser acessível para cadeirantes.

Entre as coleções permanentes do CCSP destaco, em particular, a Discoteca Oneyda Alvarenga e a Coleção de Arte da Cidade. Oneyda Alvarenga foi colaboradora de Mário de Andrade, sobretudo na área das gravações de música popular e folclórica, e iniciou a organização da discoteca, ainda na Biblioteca Mário de Andrade. Uma boa parte do acervo já está digitalizado e disponível no portal da discoteca, facilitando a consulta. O acesso direto ao material original precisa ser agendado e é feito com supervisão, até porque o material é sensível. Além das gravações, a Oneyda Alvarenga disponibiliza partituras. Parte importante é o acervo da Missão de Pesquisas Folclóricas, projeto de levantamento etno-musical desenvolvido por Mário de Andrade ainda na década de 1930. O SESC-SP ditou uma caixa com seus CDs com uma seleção do material gravado. O conjunto está totalmente catalogado e disponível para pesquisas na discoteca.

No entanto, o visitante fica mesmo impressionado é com a diversidade de atividades – organizadas e livres – que acontecem simultaneamente no CCSP. Além dos frequentadores das bibliotecas e acervos permanentes, e dos que usam o wi-fi livre, a quantidade de grupos reunidos ali para estudar, conversar, ensaiar teatro e dança é impressionante. Nota-se que são grupos de jovens que chegam porque o CCSP é simplesmente um espaço aberto e livre para essas atividades. Então, tem gente ensaiando street dance, esquetes de teatro ou partes de peças, fotografando ou simplesmente passando o tempo. IMG_1446 IMG_1447 IMG_1448 IMG_1451 No dia em que fui, além da exposição do Benetazzo (que se encerrou domingo, dia 29 de maio), havia uma grande exposição do British Council, com várias atividades, exposição de fotografias, de cartazes. Tinha até uma horta orgânica no jardim superior (uma parte da área está fechada para reparação e conservação). Programação de cinema, de teatro – inclusive o espaço para teatro experimental, que há pouco foi reinaugurado com melhorias técnicas.

Uma das atividades importantes que correm junto a todas as demais é o serviço de documentação do Centro. Não apenas recolhe o material do que acontece ali, como em várias outras atividades da Prefeitura. Uma das coleções importantes é da Arte da Cidade, que administra obras adquiridas e doadas à Prefeitura. Iniciativa de Sérgio Milliet que, em 1945 instituiu a Seção de Arte na Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), da qual evoluiu a Pinacoteca Municipal e a atual coleção do CCSP, que administra cerca de 2.900 obras de arte em vários suportes, com peças do Século XIX e contemporâneas. Parte da coleção está no CCSP e existem obras em outros prédios municipais de acesso público. Além disso, possui seis coleções de Arte Postal, com dez mil peças no total, e que é uma das maiores coleções do gênero na América Latina.

O serviço de documentação apoia também as atividades da Virada Cultural, cadastrando grupos interessados em participar. Soube que, nas últimas edições, mais de cem saraus literários se inscreveram para participar de atividades.

Fuxicando no site do CCSP descobri que existe uma Associação de Amigos. Mas não há muitas informações. Pretendo visitar novamente o CCSP e perguntar a seu atual diretor, meu amigo Pena Schmidt, sobre o assunto.

Enfim, um mundo diversificado, uma experiência de convivência democrática e aberta bem digna de S. Paulo.

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ANTONIO BENETAZZO, PERMANÊNCIAS DO SENSÍVEL

Autoretrato quando já na clandestinidade. A identidade preservada.

Autoretrato quando já na clandestinidade. A identidade preservada.

No dia 26, feriado, fui até o Centro Cultural São Paulo para ver a exposição das obras de Antonio Benetazzo, que ali fariam até o domingo 29 de maio.
Uma exposição excepcional, e por várias razões.

Benetazzo foi assassinado em 1972, na Casa da Vovó, o sítio do Fleury usado para torturas e execuções que ultrapassavam até mesmo os limites do que acontecia nas dependências do DOPS.

Benetazzo, nascido em 1941, tinha 31 anos quando morreu. Era, ainda, um artista em formação – se é que em algum momento a formação de um artista se encerra… – envolvido na luta armada contra a ditadura.
Ainda que em formação, e com obras em quase sua totalidade executadas sobre papel, o que sobrou nas mãos de parentes e amigos mostra um pintor com um domínio sólido não apenas da técnica usada, como também com uma visão abrangente e crítica da história das artes plásticas.

A exposição foi promovida pela Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Cidadania, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, da qual o CCSP é um dos principais equipamentos. A SMDHC, através da Coordenação de Direito à Memória e à Verdade, parte para recuperar também a memória perdida pela repressão. Como lembra Reinaldo Cardenuto, curador da exposição, “à ditadura não bastava torturar, assassinar ou desaparecer com seus opositores, mas também difundir na imprensa farsas e encenações ou para transmitir recados de força contra aqueles que lhe ofereciam resistência. […] O regime militar não foi somente um sumidouro de pessoas, mas também um perverso sumidouro da memória” (Catálogo da exposição, p. 11).

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Tenho refletido um tanto sobre alguns aspectos da Comissão Nacional da Verdade, e à enorme ênfase que foi dada ao fenômeno da repressão: fomos vítimas da tortura, as prisões eram arbitrárias, os assassinatos se sucederam. É verdade que também foram levantadas as ações da ditadura contra o movimento indígena, as manifestações de luta antirracista e, é claro, as ações contra as greves de trabalhadores já nos seus estertores. Entretanto, considero pouca a ênfase se dá, no plano mais concreto, às razões pelas quais a violência se abateu sobre os militantes. O que fazíamos para que a ditadura tivesse essas sanhas.

A exposição do Benetazzo faz parte dessa resposta, muitas vezes também “oculta”. A repressão se abatia sobre organizações, inclusive quando estas já tinham pouca capacidade operacional para apresentar uma resistência “militar”. A razão pode ser resumida assim: é porque tínhamos capacidade de pensar um Brasil diferente daquele do “milagre”, e tudo que fazíamos contribuiu para que fosse sendo construída essa frágil retomada democrática, agora mais uma fez posta em perigo.

Sérgio Ferro – que foi professor de Benetazzo na FAU/USP, e que também esteve preso, chama atenção precisamente para isso.

“Não é o caso de desenvolver nesta nota a tese sugerida aqui: o silêncio que envolve a produção plástica de Benetazzo (e que atinge também muitos outros artistas plásticos resistentes em graus diversos contra a ditadura) faz parte de um movimento (inconsciente espero) de apagamento de nossa memória histórica para evitar acordar a culpabilidade pela passividade passada diante dos crimes nojentos dessa ditadura. […] O grande pecado da resistência foi, como se sabe, enfrentá-la – e tentar, se fosse possível, alterar a triste situação do povo brasileiro inaugurando uma situação de real e efetiva liberdade igualitária”. (Catálogo, Sérgio Ferro – p 34).

Não sou crítico de artes plásticas. Apenas procuro desenvolver a sensibilidade para entender essas correntezas do pensamento – e da luta (ou de sua negação) – que transparecem nas formas de expressão artística.

Alípio Freire, que também é artista plástico, sintetiza melhor que eu:

Benetazzo - Brasil68 - A criação dos monstros

Benetazzo – Brasil68 – A criação dos monstros

“Um jornalista que se impressionou positivamente com a obra de Benetazzo, referindo-se à série Brasil 68 (páginas 84 a 92 do catálogo), teceu paralelos entre estes trabalhos do nosso artista e aqueles de Francisco José de Goya y Lucientes, concluindo que estes últimos eram “bem mais bizarros”. Certamente o “bizarro”, naquele contexto, pretendeu significar “assustador”, “aterrorizante”.

O problema é que ao pensamento subjacente de Benetazzo subjazia a moral brechtiana desenvolvida fundamentalmente para o teatro e que ele estendia a todas as artes e fazeres – o chamado “distanciamento crítico”. Ou seja, aos artistas não cabe levar o público a emoções que redundem em catarses.

Resumindo: se é verdade que os monstros de Benetazzo não são tão “bizarros” quanto aqueles de Goya, isso se deve certamente a uma escolha do artista. Enfim, como falar do terror e do medo sem aterrorizar ou meter medo no espectador? Como, ao invés disso, levá-lo a uma reflexão sobre o terror? Esse é um dilema moral que se coloca para todo artista sério que se proponha a lidar com o tema. O efeito fácil (catártico e demagógico) das torturas insistentes, intermitentes e ultrarrealistas que lotam alguns filmes brasileiros sobre o mais recente período ditatorial deixam bem claro o que aqui pretendemos significar.

Nos seus monstros, Benetazzo foi grande e certeiro: finíssimas linhas em nanquim preto sobre o papel de seda branco”. (Catálogo – Alípio Freire, p. 43).

Afinal, todos os fascistas repetem o grito do Milán-Astray, o general franquista: “Viva la Muerte!” Quem está pela vida é sempre alvo.

Marcelo Godoy, no livro A casa da vovó: uma biografia do DOI-Codi revela que Benetazzo, depois de torturado, foi finalmente apedrejado por Fleury e comparsas no sítio clandestino, e depois levado ao Brás e jogado diante de um caminhão em velocidade para forjar a mentira do suicídio.

A última obra - inacabada

A última obra – inacabada

O Catálogo, com reproduções de boa parte das obras expostas, está disponível em algum lugar da Prefeitura. Poderia ter uma difusão mais ampla.

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IVAN LESSA E O NOSSO BANANÃO

Quem diria: carioca, mas nascido em S. Paulo. Um Bananão pro bairrismo...

Quem diria: carioca, mas nascido em S. Paulo. Um Bananão pro bairrismo…

Nos últimos dias andei lembrando muito do Ivan Lessa. Principalmente do modo como ele se referia ao Brasil: Bananão.

O Bananão é uma república de bananas superlativa. Tudo é mais exagerado no Bananão. Os defeitos e as virtudes – quase nunca explicitadas, mas implicitamente reconhecidas, talvez em uma imagem nostálgica do Brasil dos anos 50/60, mais especificamente do Rio de Janeiro nessa época.

O Bananão é complicado. Até porque, quando descascado e com a casca ao chão, alguém sempre corre o risco de pisar na dita e desabar. Pois, como dizia seu conterrâneo e contemporâneo, Tom Jobim, o “Brasil (Bananão) não é para principiantes” (A frase é do Tom, plagiada por um metido a sabe-tudo no título de um livro).

Pois bem, a quadra em que vivemos é uma reiteração das frases do Ivan, que as produzia por puro e simples desfastio dadaísta. Quando se constroem frases como as dele, não é preciso ter nenhuma intenção política: a frase é a política. Como agora, contraditória, irônica – mais bem, sarcástica – e às vezes até compungida, como quem lembra da piada na qual a Divindade, cobrada pelos anjos por criar uma terra sem furacões, vulcões, terremotos, maremotos e outros quetais, responde: “Vocês vão ver o povinho que vou jogar lá!”

Só para entrar na Horta da Luzia – essa expressão anárquica de memória – “erudição de abobrinhas”, como disse uma vez o Sérgio Augusto, vão lá algumas frases do Ivan:

Sig, criação do Jaguar e batizado pelo Lessa.

Sig, criação do Jaguar e batizado pelo Lessa.

Se você juntar miséria e catolicismo, só pode dar besteira.Bingo

O passado, ao menos, fica lá no canto dele, envolto em sombras, rindo seu riso velhaco, debochando de nós, dos nossos sonhos e das nossas aspirações, da nossa quebração geral de caras.
Uma profecia é uma borboleta voando adoidada pelo ar. Um fato é uma bala zunindo em nossa direção.

Toda notícia é, por definição, falsa. Ou farsa. Por aí.

As pessoas que se acham por cima da carne-seca correm o risco de ser confundidas com abóboras.

Nosso jornalismo? Piorou muito. Como quase tudo o mais. Até o xarope de groselha já não é o mesmo. Ergo: o jornalismo por aqui anda pior que xarope de groselha.

A cada quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos.

Nada do que é irrazoavelmente desumano nos é estranho. Pegamos intimidade com o inusitado.

Banana: fruta empregada para demonstrar às crianças do colégio primário como colocar no membro uma camisinha.

OU
Como tudo mais, o futuro é uma incógnita. E só ao demônio pertence.

FINALMENTE

Não há motivo para nos sentirmos à vontade no mundo. Os alienígenas somos nós.

Agora, eu vou levantar, vou sair por aquela porta e não vou olhar para trás.

Finis

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