MAURICIO SEGALL

Mais um que se foi.

Ontem, dia 31, morreu Maurício Segall, depois de longa enfermidade. Fui ao velório cedo, no Museu Lasar Segall, assinei o livro de condolências e fui embora.  Vou a velórios (esse foi o segundo em quinze dias, depois do Marco Aurelio Garcia), mas não fiqco muito tempo por lá. Presto homenagem ao amigo morto, e não me sinto bem no evento social em que a cerimônia se transforma. Nada contra, é questão pessoal.

Conheci Segall em 1971 quando, depois de preso e torturado na OBAN e de passar pelo DOPS, finalmente fui transferido para o Presídio Tiradentes. Hoje demolido, antigo mercado de escravos, o Tiradentes fora o local de prisão de Monteiro Lobato, Caio Prado Jr. e muitos outros presos. Eram dois pavilhões. O maior guardava ainda presos comuns, muitos dos quais foram dali retirados e assassinados pelo Esquadrão de Morte, do famigerado Fleury. No pavilhão menor, na cela 6, para onde me mandaram, encontrei, além do Maurício, os arquitetos ligados à ALN, Sérgio Ferro, Sérgio Souza Lima, Carlos Henrique Heck, Rodrigo Lefevre e Julio Barone.

Preso político, torturado pela equipe do Fleury, Maurício Segall chegou a ver Joaquim Câmara Ferreira, o “Velho” que substituiu Marighella no comando da ALN, nos seus últimos momentos de vida, arfando prestes a morrer deitado em uma mesa em uma prisão clandestina, como relata Jacob Gorender em seu “Combate nas Trevas”.

Estabelecemos uma convivência amistosa e muito produtiva, naquelas circunstâncias. Aprendi muito com todos, especialmente com Ferro (que produziu quadros excepcionais nesse período, e que, anos depois, participou de um Jogo de Ideias, juntamente comigo e com Alípio Freire, e mediação de Claudiney Ferreira, cujo vídeo pode ser visto aqui e aqui. Infelizmente não achei vídeos com o Maurício Segall, no caso falando sobre a obra do pai, Lasar Segall, e do Museu que foi fundado graças à iniciativa da família, no caso Maurício e seu irmão Oscar, principalmente.

No Tiradentes, Maurício já mantinha conversas com o irmão, que então era presidente da Caixa Econômica de S. Paulo, personagem profundamente conservador, sobre o modo de viabilizar a doação da casa e do acervo familiar do grande Lasar Segall. A preocupação era a de que a forma da doação impedisse a dispersão, a dilapidação da contribuição do Lasar Segall para as artes e a cultura brasileiras.

Maurício era o mais velho da cela. Tinha suas idiossincrasias, que administramos sempre através do diálogo. Por exemplo, circulava pelo pavilhão uma pequena TV, branco e preto, que ficava um dia em cada cela, em rodízio. Maurício detestava TV, e não queria que suas leituras fossem prejudicadas pelo barulho. A solução foi montar uma traquitana que subdividia o fone de ouvido, o “egoísta”, com os fios correndo por toda a cela, até cada um no seu “mocó” (o beliche de cada preso), enquanto Maurício fechava a cortina do seu e continuava lendo. Ninguém era fã da TV, mas encarávamos aquilo como uma diversão na rotina da prisão.

Anos depois, já soltos, visitei Maurício no museu, e de vez em quando nos encontrávamos em vários eventos e atividades do PT.

Com Maurício Segall, no lançamento de seu livro “Poesias ao Acaso”, no Bar Brahma.

Muito generoso, ele comemorou um de seus aniversários com uma bela festa em uma gafieira em Pinheiros (não existe mais), onde reuniu familiares, amigos das artes plásticas, do teatro (foi diretor do Theatro S. Pedro) e da militância. Reunidos, dançando e desfrutando da generosidade do Maurício, todos tiveram uma noite divertida.

Uma vez, em um evento na Cinemateca Brasileira, encontrei o Maurício que estava tão indignado como eu com o que um conhecido cronista d’O Globo havia escrito. Era uma crônica que comentava o fato de um dos filhos, creio que do Sadam Hussein ou do Kadafi, que controlava a Federação de Futebol, haver torturado jogadores que não tiveram o desempenho esperado. O cronista – que diziam ser boa gente – comentava jocosamente que essa solução de torturar incompetentes podia ser aplicada a nem me lembro que jogador de um time de futebol carioca.

Estávamos indignados, e chegamos a pensar em abrir um processo contra o sujeito por apologia à tortura. Nós sabíamos o que era aquilo com que o tal cronista fazia brincadeiras…

Maurício era poeta, e sempre convidava os amigos para os lançamentos, não em livrarias. Geralmente eram bares ou locais de boemia, boa bebida e boa comida… Lembro do que aconteceu em um bar no Largo de Santa Cecília e outro no Brahma, evento que ele mandou fotografar e depois enviou cópia para cada um, e que reproduzo neste post.

Foi um personagem extremamente coerente e combativo, defendia suas ideias com veemência e decisão. Mas era também uma máquina da promoção da cultura brasileira e, em particular, da paulista. A doação memorável da casa e do acervo para constituir o Museu Lasar Segall, numa época em que não havia benefícios fiscais para isso, é um desses raros exemplos de desprendimento e compreensão de que a arte, no caso a feita por seu pai, deveria ter uma apropriação social, e não simplesmente ser objeto de decoração e propriedade apreciada por admiradores e colecionadores ricos. Maurício Segall foi velado na casa da sua infância.

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TRÊS FILMES DE JOHN FORD – E OUTROS COMENTÁRIOS, POR UM EX-CINECLUBISTA

Nos últimos dias assisti a três filmes do grande John Ford.

O cara foi bom demais. Versátil, preciso, grande diretor de atores. E faz algum tempo vi o documentário que ele fez durante a II Guerra Mundial, quando trabalhou para o projeto de Frank Capra de mobilização da população dos EUA contra o nazismo: The Battle of Midway. A história desse documentário, assim como dos filmes dirigidos por cinco grandes diretores dos EUA envolvidos no esforço de guerra foi objeto de uma produção em cinco partes, da Netflix, no qual os diretores Steven Spielberg (Wyler), Francis Ford Coppola (Huston), Guillermo del Toro (Capra), Paul Greengrass (Ford), e Lawrence Kasdan (Stevens) discutem o impacto e o legado dos cinco diretores nesse momento.

Vinhas da Ira, com Henry Fonda

Antes da guerra dirigiu, entre outros, dois magníficos filmes que estão entre suas obras ditas “sociais”. O primeiro (1940) foi Grapes of Wrath – As vinhas da Ira, baseado no romance de John Steinbeck, retrata a saga dos fazendeiros pobres do meio oeste expulsos pelos bancos, que tomaram suas terras; o segundo, How Green was My Valley (1941), defende abertamente o sindicalismo, retratando as lutas dos mineiros de carvão galeses, no começo do século XIX. Este último tem um lado um tanto piegas, com Walter Pidgeon no papel de um pastor que sacrifica sua paixão pela Maureen O’Hara “por não querer submetê-la às vicissitudes de sua vida difícil de pastor”. Fora isso, belo filme, com a reconstrução de uma aldeia galesa lá na Califórnia, já que filmar na Inglaterra se tornava muito difícil por conta dos bombardeios nazistas. Esses dois filmes lhe deram o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme. Aliás, o Oscar de 1942 foi para William Wyler pelo excepcional Mrs. Miniver (também com Walter Pidgeon.

Como era Verde Meu Vale – Walter Pidgeon e Maureen O’Hara

Maureen O’Hara estrelou novamente o belíssimo The Quiet Man – Depois do Vendaval,

Depois do Vendaval, com John Wayne e Maureen O’Hara

o terceiro filme que assisti recentemente, no qual a ruiva contracena com um dos atores essenciais da carreira de Ford, John Wayne. Aliás, em outro filme de Ford, They Were Expendable, de 1945, com Wayne e Robert Montgomery, Ford sutilmente fez uma desfeita a John Wayne, que não serviu na II Guerra Mundial. Wayne e Montgomery são comandantes de um esquadrão de barcos contratorpedeiros (PT Boats), nas Filipinas. Em uma cena, quando os dois se despedem do almirante que comandava a área, Wayne faz continência para o almirante, que respondeu antes a Montgomery mas não responde à continência de Wayne. Sutil, mas mostrava um certo desprezo por Wayne não ter sido combatente (o que não o impediu de fazer outros filmes com o ator, inclusive o clássico The Searchers – Rastros de Ódio).

The Quiet Man – Depois do Vendaval é um file lírico e idealista sobre a vida na Irlanda, e rendeu mais um Oscar a Ford, além de ter sido a maior bilheteria de 1952.

Rever esses filmes é sempre uma experiência interessante, já que são bem representativos de uma época em que Hollywood produzia também filmes para adultos, e não apenas blockbusters para adolescentes.

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REPUBLICANISMO OU O QUÊ?

Notícia do Estadão na edição de 17 de junho dá conta de que foi aprovada no 6º. Congresso Nacional do Partido resolução que diz: “Sem aquele tipo de ‘republicanismo’, a Operação Lava Jato e antes dela a Ação Penal 470 (mensalão) não teriam conseguido instalar a ‘justiça de exceção’ organizada com o objetivo de destruir o PT e Lula”.

Com a ressalva de que as resoluções ainda estão passando por uma redação final (e há muito perigo nisso), cabe discutir um pouco o assunto.

Duas questões iniciais.

A primeira é louvar que a militância finalmente tenha se dado conta de que essa sistemática nomeação dos “vendedores de lista tríplice” provoca distorções enormes.

A segunda é discordar de que essa atitude seja “republicanismo”. Com ou sem aspas.

Porque não é.

É pior: trata-se de C.O.R.P.O.R.A.T.I.V.I.S.M.O.

E isso é desastroso. No caso, para a democracia e para a administração da justiça.

Vamos por partes.

OS PROCURADORES GERAIS DOS GOVERNOS LULA E DILMA

Cláudio Fonteles – 2003/2005

Antonio Fernando de Souza – 2005/2009

Roberto Gurjel – 2009/2013

Rodrigo Janot – 2013 – 2017

 

 

 

Qualquer sociólogo que se dê respeito e tenha uma formação mínima de qualidade, sabe que o tema do corporativismo, tratada sistematicamente por Max Weber, é extremamente complexa. (E essa história de “formação mínima de qualidade” é complicada, já que muitas faculdades se deixam dominar por modismos metodológicos e não ensinam sistematicamente os fundamentos básicos da sociologia, muitas vezes estigmatizando sociólogos fundadores como Durkheim e Max Weber, em nome de um pseudo marxismo dogmático e de fancaria).

O conceito de “corporativismo” é proveniente das famosas “corporações” medievais, as associações de mestres e aprendizes, cada uma defendendo os direitos e regalias das diferentes profissões, regulando a entrada de novos membros. Mas não vou me estender sobre isso aqui.

Basta assinalar que Weber chama atenção para o fato dos estados modernos dependerem de uma burocracia profissional para funcionar de modo relativamente autônomo, exatamente diante dos interesses e pressões estamentais que caracterizavam os estados medievais.

Só que assinala que as diferentes corporações podem continuar existindo dentro do estado moderno, e que o conjunto da burocracia tende a defender seus “interesses corporativos”. Ou seja, em vez de servirem aos mecanismos democráticos, buscam sempre, e incansavelmente, autonomia em suas ações e tendem a agir em defesa dos seus interesses, ainda que os disfarcem de defesa do profissionalismo e da independência diante do aparato político (no caso, democrático ou não).

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“BLACK BLOCKS” E MANIFESTAÇÕES – INGENUIDADE , IMPREVIDÊNCIA OU IGNORÂNCIA DOS ORGANIZADORES?

Provocação. Pura e simples.

Essa história dos “Black Blocks” aparece continuadamente nas manifestações desde 2013. Sempre polêmicos, mascarados e provocando destruição. Na última, em Brasília, parece que os organizadores pediram aos próprios policiais que os prendessem e não reprimissem a manifestação, que era pacífica. Claro que a polícia não fez nada. Ou, melhor dizendo, aproveitou o pretexto dos mascarados para meter o pau na multidão.

Não falta quem apoie os tais mascarados. São talvez os que precisam de um pouco mais de história e política.

Os “Black Blocs”, nas poucas vezes que se manifestaram diretamente ou por apoiadores, declaram-se anarquistas.

Por ocasião do seu aparecimento, em 2013, comentei com um amigo que a polícia logo iria localizá-los e fazer uma varrida. “Que nada” – respondeu meu amigo. “Eles são da polícia”.

É claro que nem todos são. Alguns realmente acreditam no anarquismo, em especial pela prática da “ação direta”.

Há mais de cento e cinquenta anos que essa “ação direta” provoca graves danos ao movimento popular. Por uma razão muito simples. Essas ações não “despertam” as massas nem “fazem avançar a luta”. Simplesmente dão pretexto para que a repressão se acirre. Para os anarquistas, a tragédia é ainda pior: esses grupos acabam massacrados.

No entanto, a polícia também percebeu que infiltrando-os com seus próprios agentes e usando todos para as ações de desorganização, abrem também mais espaço para as ações policiais mais violentas.

É o caso dos atentados terroristas executados na Rússia czarista, na Alemanha e em outros países da Europa, o que provocou um incremento da repressão e todos os grupos anarquistas foram dizimados.

A história da “Bande à Bonot”, na França, também é exemplar. Bonot, mecânico, reuniu companheiros em uma “comunidade livre” e, com o objetivo duplo de assustar a burguesia, em particular os banqueiros e os fabricantes de auto, e assim “motivar” a classe operária, empreenderam uma série de assaltos. Até serem cercados e dizimados pela polícia. Como esse, são inúmeros os exemplos.

No decorrer desse tempo todo, acredito que em apenas um momento as ações dos anarquistas tiveram importância real, e foi na Guerra Civil Espanhola. Sem nenhuma dúvida, as milícias anarco-sindicalistas aturam de forma corajosa e brava contra o exército franco. No entanto, essa coragem, unida ao voluntarismo e à desorganização estratégica, levou as milícias a ações desesperadas e trágicas, criando condições também para que os franquistas ganhassem apoio de parte da população que antes defendia a República. O assassinato de padres e a destruição de igrejas, algo sem nenhum objetivo militar ou dirigido para a tomada do poder, eram justificados pelo fato da hierarquia da igreja católica ter dado apoio a Franco. O ódio ideológico se sobrepôs às considerações militares e políticas exigidas, e viu-se o que foi vivido.

Desse modo, as organizações populares e revolucionárias foram aprendendo a desmobilizar e isolar os anarquistas. Politicamente, com o trabalho nas fábricas e nos bairros populares. Por outro, nas manifestações que deveriam ter um caráter pacífico – ou de envolvimento do conjunto dos manifestantes na ação – isolando-os antes que executassem ações provocadoras ou precipitadas.

Tragicamente, o fascínio anarquista continua atraindo principalmente jovens, entusiasmados com a ideia da “ação direta” e com a possibilidade de “apressar a revolução”. É claro, o estado capitalista é caracterizado como agressor primário e as ações como simples respostas à essas agressões. E continua acontecendo.

Os defensores dos “black blocs” geralmente alegam exatamente isso: o estado é o agressor primário e a violência é uma resposta.

Criam uma brutal confusão entre a violência nas manifestações e aquilo que o filósofo chinês disse: “A Revolução se faz na ponta de um cano de fuzil”.

Infelizmente (explicável por tantas e tantas razões), não vivemos em nosso país uma situação revolucionária. Muito pelo contrário: estamos em plena defensiva, buscando resguardar direitos sociais e outras conquistas democráticas duramente conquistadas. Que as comunidades indígenas se preparem para expulsar à bala grileiros, que haja resistência às desocupações e outras situações do mesmo tipo, é não apenas justificável como necessária.

Mas que não haja preparação e organização para enfrentar provocações em uma manifestação convocada para ser pacífica, para aumentar a pressão contra o governo golpista e defender os direitos dos trabalhadores, revela uma das duas coisas por parte dos organizadores: ingenuidade ou incompetência.

Não há pedra mais cantada que essa: esses grupos sistematicamente entram nas manifestações, mascarados, para provocar mais a repressão. Uma ação de provocação, em suma.

Que uma parte dos componentes desses grupos é de jovens fascinados com a ação direta é verdade. Mas que hoje estão pesadamente infiltrados pelos serviços de segurança é evidente. O vídeo que foi feito nas manifestações no Rio, no dia 24, deixa isso ainda mais claro.

É absolutamente imprescindível que, nas manifestações, os organizadores estejam preparados para essas coisas. Já em 1968, nas passeatas estudantis, havia a preocupação de ter um grupo de segurança pronto para identificar provocadores e ajudar na retirada das lideranças estudantis quando ameaçadas pela polícia.

É preciso levar isso em conta. Estar preparados para isolar o grupo, identificá-los e, detectando os policiais infiltrados, entregar para a polícia, acompanhados pela imprensa e pelos advogados. Nem precisa esculachar, só isolar e impedir que façam as provocações.

Deixar de fazer isso é ingenuidade ou incompetência. E as consequências são péssimas.

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O “BOQUINHA” FICOU TRISTINHO

Carlos Fernando de Lima, de triste atuação nos episódios do Banestado, recebeu enorme espaço no Estadúnculo, já reproduzida por todo o espectro da PIG, para dizer que “ficou triste” com o depoimento de Lula por este afirmar que a decisão de comprar cotas na Bancoop havia sito de D. Marisa Letícia.

Outros internautas acusaram também as declarações de Lula como sendo “machistas”.

Nunca tive relações pessoais com o Presidente Lula. Mas conheço muita gente que já trabalhou em administrações petistas e no movimento sindical, e mais recentemente no Instituto Lula. E algo que todos sempre comentam, como coisa natural, é que D. Marisa cuidava pessoalmente das finanças do casal. O que, para mim, em vez de machismo, denota simplesmente enorme respeito e a autonomia que ela desfrutava.

E mais, colocava ordem na casa. Lembro de uma entrevista há muito tempo, quando o Lula ainda estava no sindicato, na qual ele contava que lavava ele próprio suas cuecas e meias, em casa e em viagens, “Porque a Marisa dizia que não faria isso, e que cada um lavasse sua roupa íntima”.

Infelizmente não sei onde li essa entrevista. Não tenho a síndrome do João Condé, que arquivava tudo, e nem mesmo a do Humberto Werneck, que segue os passos do dono dos “Arquivos Implacáveis”. Oxalá tivesse! Lembro perfeitamente da entrevista, acho que era numa dessas revistas de variedade, mas não guardei.

Outra coisa esquecida com frequência é que as cooperativas habitacionais de sindicatos, especialmente de bancários, sempre foram uma atividade recorrente, e permitiram a aquisição de casa própria para muita gente. Em S. Paulo existem vários conjuntos habitacionais conhecidos como “dos bancários”. Um deles, por exemplo, em Pinheiros.
Adquirir cotas de apartamentos nessas cooperativas, desse modo, sempre foi algo muito apreciado.

Não quero nem entrar aqui nas razões dos problemas que atingiram o Bancoop. Mas rio muito pensando na imagem de D. Marisa chegando para o Presidente (em 2005) e perguntando: “Benhê, posso comprar uma cota no edifício que o Sindicato dos Bancários está construindo no Guarujá?”

Quanto à fama obscura e complicada do “Boquinha”, matéria da IstoÉ, de 2003, (era outra revista, sem parentesco real com o atual pasquim semanal) é ilustrativa. Amaury Ribeiro Jr. e Osmar Freitas Jr foram os autores. Osmar atualmente é o correspondente da Revista Brasileiros em N. York. Amaury Ribeiro Jr. É jornalista investigativo e autor de “A Privataria Tucana”.

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HERÓIS E MILITANTES

Em final de novembro do ano passado faleceu um de meus amigos mais antigos, que conheci em Brasília em 1966, Alvaro Lins Cavalcante Filho. Era meu vizinho de quadra e, para deixar logo algumas coisas claras, também filho de um deputado federal, como eu. Ele estudava no CIEM, o Centro Integrado de Ensino Médio, escola de aplicação da UnB, e eu no Elefante Branco, ambos colégios públicos da Capital. Álvaro queria ser físico; eu, antropólogo.

Ele nunca conseguiu ser físico, embora eu tenha, no final das contas, terminado o curso de Antropologia, já não na UnB, mas na Universidad de San Marcos, em Lima, no Peru. Naquelas alturas Alvrinho, como era conhecido por todos seus amigos de Brasília, já trabalhava como ferramenteiro na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.

O que nos reuniu, entretanto, não foi o fato de sermos vizinhos, nem filhos de políticos. Foi a militância no movimento estudantil. E nos encontramos não por sermos vizinhos, e sim apresentados por um amigo comum, Haroldo Saboia, que conhecia o Antonio Neiva Moreira Filho, maranhense como ele, e colega de classe do Álvaro. Foi uma amizade que durou entre os quatro, até a morte, primeiro do Neiva, há dois anos, e depois do Álvaro.

Eu vinha de Manaus, onde já militara no PCB, participando das discussões do VI Congresso e muito desgostoso com as atitudes e políticas do partidão, desde o golpe de 64. Naquela altura, através de outro amigo, o Márcio Souza, já conhecia as discussões de uma dissidência do PCdoB, que viria a ser a Ala Vermelha, e estava vinculado com a organização.

As conversas entre os quatro amigos conhecidos em Brasília resultaram no ingresso deles na AV do PCdoB, e nessa condição militávamos no movimento estudantil em Brasília.

De todos nós, os Álvaro sempre foi o mais expansivo, e com maior presença pública no ME. Aconteceu que, depois que ingressamos na UnB, em 1967, o Haroldo me apresentou ao Evandro Carlos de Andrade, então diretor da sucursal do Estadão em Brasília, onde comecei a trabalhar como repórter setorista.

Era curioso. De manhã assistíamos aulas, participávamos de discussões políticas, entre nós e com companheiros que já sabíamos (ou pelo menos desconfiávamos) que fossem militantes de outras organizações. Interessante notar que, em grande medida por conta da grande capacidade de liderança do Honestino Guimarães, então presidente do diretório acadêmico, a construção de unidade no ME em Brasília foi, me parece, bem mais fácil que em outras cidades.

Às vezes de manhã, às vezes de tarde, principalmente no final da tarde, o ano de 1968 foi movimentadíssimo com as manifestações que ocorreram, como a passeata dos Cem Mil no Rio, as passeatas em S. Paulo, Goiânia, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e muitas outras cidades. O país vivia um clima de agitação e a resistência ao golpe se fazia cada vez mais evidente.

À tarde, eu trabalhava no jornal e, acreditem, era “setorista” no Itamaraty e nos três ministérios militares. Maria José Silveira, com quem comecei a namorar nessa época, era “setorista” do JB, sob a batuta do Carlos Castello Branco, também cobria os três ministérios militares, e já trabalhou ficcionalmente isso em romances e contos. Era, de certa forma, surrealista. Conversando com os militares, que evidentemente aproveitavam para mandar os mais variados recados através dos jornalistas, antes ou depois de participar de passeatas, reuniões clandestinas, assembleias e agitações na UnB, voltar para as redações, escrever o que conseguíamos apurar – e que era fruto de muita atenção por parte dos respectivos chefes de sucursais… Depois de tudo isso, eventualmente um chope, ou sessões de cinema, inclusive no Clube de Cinema da UnB, que funcionava no auditório da Escola Parque, onde vimos muitos e muitos clássicos (o romance “O Fantasma de Luis Buñuel”, da Maria José, descreve bem esse cenário no primeiro capítulo do livro).

Mas, para encurtar. Não quero falar aqui da militância em Brasília, e sim do que aconteceu depois. Dá-se voltas, e a militância me levou à prisão e ao exílio, e só voltei a encontrar Álvaro em 1977, quando voltamos para o Brasil (eu e Maria José), e fomos morar no Rio de Janeiro. Retomados os contatos com a Ala Vermelha, uma surpresa. O Álvaro estava na Baixada Fluminense, com identidade falsa, trabalhando como ferramenteiro em uma grande empresa, e já havia recrutados vários operários. Neiva, conhecido como Sossonho, também estava no Rio, envolvido com as articulações e setores profissionais (era economista).

A identidade funcional do Álvaro na TRW, com nome falso.

De fato, era a aplicação do chamado Documento dos 16 Pontos, de 1969, no qual a AV iniciava um profundo processo de autocrítica das concepções militaristas. Dizia o documento:

 “Ao invés de nos preocuparmos em modificar nossa fisionomia política, ligando-nos às massas, combatendo a burocracia, formando quadros politica e ideologicamentre capacitados, profundamente enraizados na massa, capazes de enfrentar as vastas e complexas tarefas que a revolução brasileira nos impõe, simplificamos tudo, adotando uma posição que se revelou objetivamente oportunista, pois fora das possibilidades de realização prática, que se desligava ainda mais das massas básicas, dos problemas por elas enfrentado. Demos uma solução altamente simplista: ‘os melhores quadros do Partido iriam para o foco’. Que partido? Que quadros? Quadros de origem pequeno-burguesa, parcos de conhecimento científico, formados em sua maioria fora do trabalho político entre as massas”.

De fato, ainda que de modo acidentado desde 1971, a AV havia reorientado o trabalho de seus militantes para frentes de massa. Houve os que ingressaram em fábricas e a partir dali tiveram atuação sindical; os que desenvolveram trabalho em favelas e conjuntos populares. Os jornalistas e outros profissionais, os quadros de origem pequeno-burguesa, passaram a fazer o que sabiam: montar frentes para construção de jornais que apoiassem o trabalho sindical e o trabalho nos bairros, ou de apoio operacional e logístico para esses trabalhos.

Álvaro fazia um trabalho muito interessante na Baixada Fluminense. Por um lado, na fábrica e nas articulações sindicais. Já havia recrutado um grupo expressivo de operários, alguns de grandes empresas da área. Chegou a organizar um encontro de sindicalistas que trabalhavam na Brown-Bovery no Rio e em S. Paulo. Por outro lado, morando na Vila Kennedy com Vilma Costa, cearense com quem havia casado e com quem já tinha três filhos. O casal desenvolvia também um trabalho de bairro, organizando os moradores em torno dos problemas locais: transporte, escola, custo de vida, etc.

Trabalhando juntos com o Alvrinho, desenvolvemos dois projetos significativos. O primeiro foi o CECUT – Centro Cultural dos Trabalhadores. Era um local de integração entre trabalho operário e trabalho de bairro, com palestras, reuniões, festas e outras atividades relacionadas com as duas frentes.

Antonio Neiva, o Sossonho.

O segundo foi a articulação, com pessoas vinculadas à Igreja Católica, do “Jornal da Baixada”. A publicação, que tirou seis números, procurava reforçar essa ligação entre o trabalho operário e sindical. Sossonho, nessas alturas, além de organizar grupos de apoio entre economistas e outros profissionais, já estava envolvido na construção do PT.

Esses vários tipos de trabalho, que se repetiam às centenas por todo o país, foi construindo paulatinamente um movimento de repúdio à ditadura, com crescentes mobilizações.

É bom lembrar que, em 1974, praticamente todas as organizações de esquerda defenderam o voto nulo nas eleições. O resultado foi uma vitória acachapante da Arena (“O maior partido político do Ocidente”, nas palavras do Francelino Pereira). Em 1977, sentindo o cheiro da derrota nas eleições gerais do ano seguinte, Geisel editou o chamado “Pacote de Abril”, com a instituição dos senadores “biônicos”, das sublegendas e de outras medidas que dificultaram o desempenho da oposição. Ainda assim, no ano seguinte, apesar do governo ainda manter maioria no Congresso, o avanço das oposições foi substancial.

Isso foi decorrente de um processo duplo de acúmulo de forças. Por um lado, do ponto de vista institucional, os “autênticos” do MDB (depois PMDB) aumentavam sua importância. Por outro lado, esse trabalho nas bases foi criando pressão, obrigando a ditadura a admitir a reforma partidária (a criação do PDT e do PT, que elegeram seus primeiros parlamentares em 1982), e a eleição direta para governadores. Apesar das grandes restrições, o aumento da oposição era cada vez mais importante, e 1982 foi um momento de virada no processo que terminaria com o final (negociado) da Ditadura.

Cito aqui esses fatos, sem querer entrar em maiores detalhes, por uma simples razão.

Depois da derrocada das tentativas de luta armada, o desenvolvimento desses trabalhos de base – a partir dos remanescentes das organizações que haviam feito autocrítica da chamada luta armada, entre as quais a Ala Vermelha –  passou a ser um constituinte das movimentações políticas no país.

As greves sindicais, especialmente as do ABC paulista, a partir de 1978, as greves dos canavieiros da Zona da Mata de Pernambuco (da qual participei ativamente), os movimentos contra o custo de vida, pela moradia e tantos outros tiveram seu papel. Em São Paulo, o “ABCD Jornal”, também uma iniciativa de frente de jornalistas dirigida pela Ala Vermelha, teve um papel fundamental na condução das greves depois da intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos de S. Bernardo e da prisão do Lula. E o mesmo se repetiu em outras cidades, com menor repercussão.

A história das mobilizações e trabalhos desenvolvidos por esse número crescente de militantes – oriundos, como assinalei, tanto das organizações de esquerda como das chamadas organizações de base da Igreja Católica – foram criando esse pano de fundo que favorecia as articulações no âmbito institucional.

No entanto, na “história oficial” da derrubada da ditadura, o que recebeu grande ênfase não foi isso. As movimentações no âmbito institucional, a partir do PMDB, o “racha” da sustentação política da ditadura, com a criação (e depois volta ao PMDB) do PP de Tancredo Neves, e as greves sindicais do ABC, apresentadas como fruto espontâneo do “novo sindicalismo” é que receberam todo o foco e atenção.

O Álvaro foi um exemplo dos militantes que estavam lá na base, construindo as condições para a derrocada da ditadura. Sempre foi um tipo multifacetado, com inúmeros interesses e sempre atento a novas possibilidades de ação. O resultado disso é o grande prestígio que até hoje desfruta entre todos os que militaram com ele no Rio de Janeiro, seja no movimento sindical, seja no trabalho de bairro, ainda que sua trajetória posterior não tenha tido a linearidade que muitos esperavam.

Sossonho, por sua vez, ativíssimo nas articulações para a construção do PT, trabalhando junto com camaradas como Jorge Bittar, então presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, e de sua companheira Sandra Neiva, economista do BNDE, e outros.

De qualquer modo, a recuperação desse tipo de militante e de seu papel na construção de nossa frágil democracia é importante. Até para entendermos algumas das raízes dessas fragilidades de hoje, a oscilação entre a perspectiva da luta armada e a das mobilizações dentro da legalidade institucional são trajetórias que precisam ser mais bem avaliadas, compreendidas e respeitadas.

Criou-se, nos últimos anos, um culto às vítimas da ditadura. Os companheiros assassinados e brutalizados pela repressão aparecem como os heróis da resistência, enquanto a avaliação e valorização dos militantes sobreviventes e pertinazes trabalhadores, que contribuíram para a construção do movimento operário, do movimento popular e das grandes manifestações de massa dos anos 80, ficaram obscurecidas.

A mitologia dos heróis precisa ser revisada e a nossa história política recente deve, mais que nunca, incluir essas trajetórias de militância, perseverança e trabalho árduo. Até para que não se repitam vários dos erros cometidos, como o desmantelamento de muito do que foi feito nesse esforço de construção do movimento de massas em nosso país.

E é nesse sentido que presto minhas homenagens aos camaradas Álvaro Lins e Antonio Neiva (falecido há dois anos), como dois representantes dessa massa de militantes que teve papel significativo na derrota da ditadura e retomada da democracia em nosso país.

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O MINISTRO VDM E AS DECLARAÇÕES DO TEMER (E O BEIJA-MÃO DO CHICO ALENCAR)

Luís Fernando Veríssimo volta e meia faz uma crônica sobre o que ele considera ser um personagem imprescindível nas altas esferas do poder: o Ministro Vai Dar Merda. O MVDM seria um personagem obrigatoriamente presente em todas as reuniões e, sua principal virtude, ser dotado de um bom senso comum. Aí começa o problema: ao contrário do que supunha o otimismo dos Iluministas, o senso comum é uma das características mais raras nos seres humanos. O mais comum é mesmo a estupidez.

Pois bem, o MVDM, usando do sentido comum, alertaria seu chefe, o presidente, de que tal ou qual proposta fere o sentido comum, e vai dar merda…

Ah, o quanto um bom MVDM pouparia de problemas! Podem pensar na lista.

Mas o MVDM não seria capaz de influenciar em grandes decisões, aquelas realmente estratégicas.

Imaginem o MVDM comentando com o Lula que a ideia dele de indicar a Dilma como sua sucessora, e na companhia do Temer, certamente iria dar merda…

Lulinha nem iria dar bola, porque outro fator da natureza humana entraria em jogo: a ilusão que têm os ocupantes de cargos eletivos, no executivo, de que, ao indicar seus sucessores, terão nestes um seguidor fiel, quase que eles mesmos reencarnados no indicado(a). Isso jamais aconteceu, e jamais acontecerá. Outro grande autor de aforismos (que nem sempre seguia), o Dr. Ulysses Guimarães, dizia que “o dia da nomeação (ou indicação) é a véspera da ingratidão”. O sujeito puxa o saco do chefe, pinta e borda para merecer sua confiança e conseguir a nomeação, como ministro, aspone, membro do STF ou do TCU, os escambaus. No dia seguinte à nomeação, declara solene: “Foi por meus próprios méritos”.

Pois bem.

Quando ouvi a nossa estimada ex-presidenta discursar em público pela primeira vez, quando da Conferência Nacional de Cultura, ouvi-a dirigir-se à grande plateia em Brasília como “congressistas”. Na terceira vez, Lulinha interrompeu: “Não, Dilminha, os congressistas estão ali do outro lado da esplanada. Esses aqui são delegados”.

Pensei lá com meus botões: vamos carregar uma mala sem alça e sem rodinhas. Mas não achava que chegasse à tragédia que chegou.

Como veem, é fácil provar a importância e a necessidade do MVDM. Difícil é achar um bom de verdade e mais ainda acreditar em suas previsões, nascidas do bom senso.

Pois bem, em relação às recentes declarações machistas e homofóbicas do Espúrio, Antonio Prata voltou a lamentar que não houvesse alguém ao lado da Espúria Excelência para dizer-lhe  que aquele linguajar estava ultrapassado há cem anos, e que ele mexia num vespeiro.

Ledo engano, caro Pratinha.


O Espúrio Temeroso falou não apenas do fundo do coração – e não como um árabe do século XIX (cuidado para não generalizar com meus antepassados) – e sim como alguém que, no fundo pretende, gostaria, tem como objetivo político exatamente isso: fazer as mulheres – e os gays e toda essa cambada de tipos que questionam a moralidade pequeno burguesa – regressar aos seus devidos lugares.

Não vai conseguir.

Mas, para quem tem aplicado com firmeza o plano de esculhambar e jogar o Brasil de volta para os “Anos Dourados”, isso é fichinha. Ele tenta e continuará tentando, com a bonequinha ao seu lado sorrindo, meiga, recatada e do lar. E procurando os aplausos daquilo que o Nixon já chamou de “maioria silenciosa”, que deixou de bater panelas mas continua certamente apostando na agenda regressiva do Temeroso.

Também acho complicado pensar que o aspone VDM do Deputado Chico Alencar tivesse habilidade suficiente para evitar que seu chefe beijasse a mão do Aécio no regabofe em “homenagem” ao Noblat.

Além de bom senso comum, o aspone VDM teria que ter uma agilidade de maratonista olímpico e um senso premonitório de primeira classe, para dar um tapa no Chico antes que ele aproximasse o rosto da mão do Aecinho…

Mas, falando sério (ou não) sobre esse episódio, faço questão de lembrar que bons modos são requisito geralmente necessário no parlamento. Afinal, negociações e discussões não precisam ser feitas com o fígado, e as conversas com pessoas que nos sejam agradáveis são feitas em outros ambientes. Na Câmara e no Senado, trata-se de outra coisa.

Chico Alencar, até agora, tem se revelado um parlamentar consequente e agido de acordo com suas convicções políticas.

Pode ter bebido uma ou duas doses a mais no regabofe do Noblat (e por que ninguém se lembra de perguntar quem pagou? Alguma agência de publicidade? Uma empreiteira? Ou que outro tipo de prestador de serviços ao governo? Ou terá sido mesmo uma modesta recompensa paga pelos Marinho a um escriba que tão bem lhes serve?) e cometido um ato impensado.

A questão é estar atento ao que aquele velho alemão nascido em Trier chamava de “cretinismo parlamentar”, quando as necessárias regras da convivência deixam de sê-lo para se transformar em contubérnio.

Mas que os vários VDM fazem falta, lá isso fazem.

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LATERNA MÁGIKA – BELO, MAS NÃO EMPOLGOU

O Laterna Magika é um grupo lendário de Praga, com cerca de cinquenta anos de história. É conhecido pela combinação da encenação com atores e recursos multimeios, incluindo filmes, produções sonoras. Hoje inclui programação eletrônica, projeção digital. Enfim, um display de tecnologia pensado para dar uma nova dimensão à experiencia teatral.

Desde a primeira vez que estivemos em Praga, lá por 1995-96, tentamos ver um espetáculo do grupo. Sempre lotado. O grupo, em 1995, estava em um teatro que, por fora, parecia acanhado, embaixo de uma ponte sobre o Moldava. Hoje faz parte do Teatro Nacional e se abriga em um belo edifício, o “Novo Palco”, em uma das principais avenidas da cidade.

Tentei comprar ingressos pela Internet. Lotado. Amigos nos aconselharam: podem ir antes do espetáculo, que sempre há desistências. Dito e feito. Um casal que havia comprado ingressos extras para amigos que desistiram, nos venderam os dois que sobraram, sem acréscimo.

O espetáculo era uma encenação do “Pequeno Príncipe”, do Saint-Éxupéry.

Muito bonito.

Tecnologicamente perfeito, com encenações multimeios, música, decoração muito inventiva, atores com fantasias criativas (a serpente, a rosa, a raposa), e atores bem expressivos, inclusive dois meninos que revezavam no papel do Príncipe.

Mas, no final, não ficamos tão entusiasmados como queríamos.

A encenação tinha repetições que nos pareciam exageradas, e uma visão do livro muito sombria.

Valeu a pena, sim. Tiramos uma vontade do caminho. Mas esperávamos mais. Ou algo diferente. Não sei.

Os atores evidentemente falavam em checo, mas haviam traduções nos palcos laterais para o inglês e para o alemão. Como estamos acostumados com legendas na frente da tela, ter que olhar para o lado talvez tivesse provocado um ruído na nossa percepção da encenação. A história, todos conhecemos, mas o que estava em jogo ali era a adaptação. Ou seja, a visão que o encanador tinha do texto do Saint-Éxupéry. Daí que acompanhar a leganda seria importante. Talvez, se tivéssemos oportunidade, ver o espetáculo uma segunda vez melhorasse nossa percepção. Mas isso não era possível.

Enfim, valeu a pena, apesar de tudo.

É, de fato, uma experiencia teatral inovadora até hoje, e tiramos esse desejo do caminho.
Até nossa próxima vez em Praga.

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O ÚLTIMO HOMEM NA TORRE

Recém terminei a leitura do romance “O Último Homem na Torre” (li em inglês, mas há edição brasileira da Nova Fronteira), de Aravind Adiga. É o autor de “Tigre Branco”, que ganhou o Booker Prize em 2008.

O romance mostra a reação dos moradores da Torre A, da Sociedade Habitacional Vishram, em Mumbai. O edifício é velho, a manutenção ruim, o fornecimento de água intermitente, o elevador nem sempre funciona e está na rota de pouso do aeroporto de Mumbai. Mas seus habitantes se orgulham de ser uma comunidade bem integrada, com moradores vindos de várias regiões da Índia e praticantes de várias das muitas religiões do país. Em volta, favelas e também algumas novas construções de espigões, em uma cidade que cresce vertiginosamente.
Um belo dia os moradores são surpreendidos pela proposta de um magnata da incorporação imobiliária, Dharmen Sha, que oferece um preço muito acima do valor de mercado para a compra de todo o edifício. Sha acredita que essa oferta generosa abrirá facilmente o caminho para derrubar o velho prédio e construir um complexo de apartamentos de luxo, seu projeto “Shanghai”. E isso efetivamente é o que acontece com o prédio vizinho, a Torre B, que rapidamente aceita a proposta.

O edifício é uma espécie de sociedade cooperativa. Cada um de seus moradores é “proprietário” do apartamento, mas as decisões sobre o edifício são coletivas e, principalmente, a venda dos apartamentos deve ser uma decisão unânime dos moradores.

Na Torre A, entretanto, quatro moradores resistem à ideia, por diferentes razões. Um casal cuja mulher é cega e já se acostumou com a geografia do prédio e teme mudar-se para um lugar desconhecido; uma senhora, conhecida como “Encouraçado”, espécie de assistente social e acusada de comunista pelos vizinhos, que teme a especulação capitalista e acha que a promessa é falsa, e Sha não irá pagar todo o prometido. Mas a resistência acaba se concentrando em Masterji, professor aposentado de física, estimado e respeitado por todos, viúvo. Masterji dá aulas gratuitas de reforço para os jovens do prédio, é muito amigo do casal e, inicialmente, se opõe à venda em solidariedade a eles.

Uma trama que lembra, de imediato, a do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Que os críticos aclamam como um dos melhores filmes de 2016.

A resistência de Masterji seria igual à da personagem da Sonia Braga nesse filme.

Só que…

Aravind Adiga é um romancista fantástico. A radiografia da Índia em seus livros é dilacerante, e a arquitetura, pelo menos dos dois que li (este e “O Tigre Branco”), é magistral.

O autor vai tecendo a história de “O Último Homem na Torre” a partir das características e da vida dos moradores, e também a do especulador e de sua “mão esquerda” (o encarregado do trabalho sujo), revelando um complexo de relações sociais, pessoais e econômicas que justificam, ou explicam, as decisões de cada um desses moradores. E de como Dharmen Sha consegue vencer, um a um, a resistência dos que não querem vender.
Menos de Masterji.

A recusa do velho professor – que no caminho vai descobrindo algumas verdades sobre si mesmo e sobre a percepção que dele tinham seus vizinhos e os ex-alunos – é aparentemente a mais frágil. Ele simplesmente não quer nada. Só quer continuar no edifício e sonha em continuar a “vida comunitária” que, aparentemente, levava os moradores, juntos, a navegar pelas turbulências da vida indiana.

As aparências enganam e o romancista constrói as razões pessoais e psicológicas que levam os moradores a aceitar, recusar e mudar de ideia acerca da proposta de venda.

A dinâmica mais interessante é a que confronta Masterji com seus vizinhos. É uma relação que parte de uma visão semi-idílica da vida no edifício para a construção dos conflitos que, latentes, se expressam na posição de cada um em relação à venda. Não se trata tão somente de uma contraposição entre os gananciosos que cedem à tentação da oferta do especulador e os que simplesmente se aferram sentimentalmente ao edifício onde viveram décadas. Essa relação entre os vizinhos – que está completamente ausente do filme de Kleber Mendonça – é que constrói a trama.

Evidentemente, os meios são distintos. Aravind Adiga escreve um romance, forma na qual o espaço e o tempo para a construção psicológica dos personagens é constituinte da história, e Aquarius é um filme, no qual a ação tem que resolver a trama.

No entanto, o que me chamou atenção no filme foi precisamente essa ausência da relação entre todos os moradores. A ação se concentra na recusa da personagem da Sonia Braga, e não aparecem praticamente em momento algum os possíveis conflitos dela com seus ex-vizinhos, nesse processo de compra dos demais apartamentos, salvo em um breve diálogo no qual o filho de um dos ex-moradores diz que ela está sendo egoísta e impedindo que todos recebam a parcela final da venda. É muita simplificação para o meu gosto.

Aquarius acabou tendo uma repercussão muito maior, mais em função do momento e da atitude de atores e diretores em um contexto extrafilme do que por suas qualidades intrínsecas, que se expressam em um discurso cuja forma, na minha opinião, não está bem resolvida. A crítica e a simpatia pela ação política do elenco e equipe técnica é que explicitaram o filme como um manifesto contra a especulação imobiliária, e extrapolaram essa interpretação para a situação política que resultou no golpe. Mas o filme, enquanto tal, não consegue expressar satisfatoriamente isso. Jogar o cupim na mesa do especulador não resolve o conflito. É mais a expressão de uma vingança – merecida, aliás – que um desfecho.

“O Último Home na Torre”, ao contrário, é construído por esse conjunto de relações entre os moradores, e são elas que conduzem a trama e definem o desfecho trágico do romance.

Quem viu o filme certamente merece ler o livro do indiano. E Kleber Mendonça, se o houvesse lido (foi lançado em 2011), poderia ter melhorado muito seu roteiro.

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GREVE DA POLÍCIA E ANOMIA

LIMA, 6 DE FEBRERO DE 1975. O centro de Lima em chamas

A primeira observação sobre o episódio da greve da polícia do Espírito Santos, que ameaça se estender por outros estados, é a de que já enfrentamos, em tempos recentes, uma situação parecida, com greves nas PMs da Bahia e do Rio de Janeiro, em 2012. O caso foi complicado e as greves só terminaram quando o governo concedeu reajustes salariais aos policiais.

Naquela ocasião, o número de assassinatos, roubos e saques cresceu exponencialmente durante a greve, diminuindo apenas quando o Exército assumiu o policiamento, que foi mais extenso e com um efetivo maior do que o que está sendo usado atualmente no Espírito Santos.

O mesmo tipo de situação se configura agora: polícia em greve, apoio das mulheres e familiares para disfarçar a mobilização (já que, em tese, a polícia não pode fazer greve…), aumento dos crimes.

A propósito, quero lembrar uma experiência que vivemos em Lima, no Peru, em fevereiro de 1975.

Morávamos em Lima, como exilados. Lá pelos dias 3 e 4 de fevereiro daquele ano, já havíamos notado que o caótico trânsito de Lima havia piorado muito, com a que nos pareceu, então, uma diminuição do policiamento.

No dia cinco, tínhamos um encontro com um de nossos professores de San Marcos, para revisar alguns pontos de interesse comum na matéria. Pelo meio da tarde começamos a notar colunas de fumaça no centro, e o rádio anunciou que a polícia estava aquartelada e a cidade sem policiamento.

Conseguimos voltar para casa, tomando um dos táxis limenhos (eram todos piratas, na ocasião), e ficamos ouvindo o rádio atrás de notícias.

Logo chegaram informações de que multidões estavam circulando pelo centro, invadindo e saqueando lojas. Uma multidão também estava cercando o jornal Expreso, que havia sido expropriado e estava controlado pelos jornalistas.

O exército cerca manifestantes no centro de Lima

O presidente, Velasco Alvarado, estava enfermo há algum tempo. O poder de fato já era exercido pelo primeiro ministro, Morales Bermúdez, que meses depois cometeu um golpe dentro do golpe (ou dentro de “la revolución”, como queiram), e assumiu a presidência. Para controlar a situação, Morales não havia dado ordens para mobilização do exército, revelando cisões dentro da cúpula governamental e do próprio exército.

Ao longe as colunas de fumo mostravam que, no centro, a situação era muito complicada.

No final da tarde, o exército saiu dos quarteis. Ocupou o quartel da polícia e partiu para reprimir os saqueadores.

No dia seguinte, com Estado de Emergência decretado e toque de queda, começaram a aparecer alguns detalhes.

– A multidão invadiu enfurecida as lojas do centro da cidade, grandes e pequenas. No Jirón de la Unión, uma das ruas comerciais próximas à Plaza de Armas, a violência foi enorme. Não só ali, como também nas grandes lojas. O saque foi generalizado, não apenas de alimentos e roupas, como também de eletrodomésticos. Repartições públicas atacadas viram todas suas máquinas de escrever levadas pelos saqueadores.

As máquinas de escrever das repartições públicas, especialmente do SINAMOS, o órgãos de mobilização do governo militar peruano.

– A redação do Expreso esteve cercada por várias horas, com os jornalistas se defendendo, armados, contra a multidão.

– Uma das fotos mais chocantes publicadas depois mostrava uma pequena joalheria no Jirón de la Unión com sete cadáveres: o dono da loja, armado com um revólver, abateu os seis primeiros invasores. O sétimo o matou.

– Os relatos e as notícias mostravam uma situação que parecia estar muito próxima da anomia. A multidão mostrava ter muita raiva do governo, mas era constituída basicamente dos moradores das barriadas (favelas) da área do Rímac, e de Pueblos Jóvenes (favelas montadas em terrenos invadidos) da periferia da cidade.

O ataque ao Expreso e a outros jornais controlados pelos jornalistas, favoráveis à chamada “Revolución de las Fuerzas Armadas”, e o fato de jornais conservadores, como El Comércio, terem sido poupados, levantou a gritaA suspeita era de que, se não provocada diretamente, foi pelo menos instrumentalizada, a partir de algum momento, pelos militantes do APRA.

O APRA é uma história peculiar do Perú. Nasceu como um partido populista “de esquerda” nos anos 30, fundado e dirigido por Haya de La Torre, um intelectual que passou vários anos presos e depois foi exilado. O presidente derrubado pelos militares, Belaúnde Terry, era do APRA (Belaúnde voltou mais tarde à presidência, eleito novamente, assim como outro “discípulo jovem” de Haya de La Torre, Alan García, que terminou o mandato acusado de corrupção pesada).

O APRA, portanto, teria todas as razões para estimular a revolta.

Uma análise posterior mostrou que o APRA efetivamente se infiltrou na manifestação e conduziu principalmente os ataques aos jornais e repartições.

Mas o impressionante foi o fato de que a população marginalizada, provavelmente estimulada não pelo APRA, mas pela marginalidade, percebeu a ausência do policiamento e promoveu os saques.

Quando o exército saiu dos quarteis, ocupou sem maiores problemas o quartel da polícia, mas reprimiu selvagemente a população nas ruas. Nada de tiros para o alto: as metralhadoras dos tanques disparavam direto na multidão, ceifando um número até hoje indeterminado de vítimas. Foi um banho de sangue.

Consideramos que aquele momento, embora incentivada pelo APRA, foi uma amostra do mais próximo que poderíamos pensar de uma situação anômica. A multidão se revoltara para saquear e simplesmente isso. Não havia, de fato, nenhuma direção política aparente (salvo nos já mencionados grupos que atacaram os jornais). Era uma massa descontrolada que invadia, quebrava e saqueava o que foi vendo pela frente.

Uma experiência que, sinceramente, não gostaria de reviver.

Especialmente pelo caráter anárquico e descontrolado daquilo tudo. Não era uma multidão em busca de derrubar o poder, conquista-lo para si ou para quem quer que seja. Era simplesmente a expressão do ódio e da raiva… e da ganância. A extensão dos saques mostrou que realmente não haviam objetivos políticos, e sim a mais visceral manifestação de ódio e raiva, com o fundo das carências materiais da população.

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