GREVE DA POLÍCIA E ANOMIA

LIMA, 6 DE FEBRERO DE 1975. O centro de Lima em chamas

A primeira observação sobre o episódio da greve da polícia do Espírito Santos, que ameaça se estender por outros estados, é a de que já enfrentamos, em tempos recentes, uma situação parecida, com greves nas PMs da Bahia e do Rio de Janeiro, em 2012. O caso foi complicado e as greves só terminaram quando o governo concedeu reajustes salariais aos policiais.

Naquela ocasião, o número de assassinatos, roubos e saques cresceu exponencialmente durante a greve, diminuindo apenas quando o Exército assumiu o policiamento, que foi mais extenso e com um efetivo maior do que o que está sendo usado atualmente no Espírito Santos.

O mesmo tipo de situação se configura agora: polícia em greve, apoio das mulheres e familiares para disfarçar a mobilização (já que, em tese, a polícia não pode fazer greve…), aumento dos crimes.

A propósito, quero lembrar uma experiência que vivemos em Lima, no Peru, em fevereiro de 1975.

Morávamos em Lima, como exilados. Lá pelos dias 3 e 4 de fevereiro daquele ano, já havíamos notado que o caótico trânsito de Lima havia piorado muito, com a que nos pareceu, então, uma diminuição do policiamento.

No dia cinco, tínhamos um encontro com um de nossos professores de San Marcos, para revisar alguns pontos de interesse comum na matéria. Pelo meio da tarde começamos a notar colunas de fumaça no centro, e o rádio anunciou que a polícia estava aquartelada e a cidade sem policiamento.

Conseguimos voltar para casa, tomando um dos táxis limenhos (eram todos piratas, na ocasião), e ficamos ouvindo o rádio atrás de notícias.

Logo chegaram informações de que multidões estavam circulando pelo centro, invadindo e saqueando lojas. Uma multidão também estava cercando o jornal Expreso, que havia sido expropriado e estava controlado pelos jornalistas.

O exército cerca manifestantes no centro de Lima

O presidente, Velasco Alvarado, estava enfermo há algum tempo. O poder de fato já era exercido pelo primeiro ministro, Morales Bermúdez, que meses depois cometeu um golpe dentro do golpe (ou dentro de “la revolución”, como queiram), e assumiu a presidência. Para controlar a situação, Morales não havia dado ordens para mobilização do exército, revelando cisões dentro da cúpula governamental e do próprio exército.

Ao longe as colunas de fumo mostravam que, no centro, a situação era muito complicada.

No final da tarde, o exército saiu dos quarteis. Ocupou o quartel da polícia e partiu para reprimir os saqueadores.

No dia seguinte, com Estado de Emergência decretado e toque de queda, começaram a aparecer alguns detalhes.

– A multidão invadiu enfurecida as lojas do centro da cidade, grandes e pequenas. No Jirón de la Unión, uma das ruas comerciais próximas à Plaza de Armas, a violência foi enorme. Não só ali, como também nas grandes lojas. O saque foi generalizado, não apenas de alimentos e roupas, como também de eletrodomésticos. Repartições públicas atacadas viram todas suas máquinas de escrever levadas pelos saqueadores.

As máquinas de escrever das repartições públicas, especialmente do SINAMOS, o órgãos de mobilização do governo militar peruano.

– A redação do Expreso esteve cercada por várias horas, com os jornalistas se defendendo, armados, contra a multidão.

– Uma das fotos mais chocantes publicadas depois mostrava uma pequena joalheria no Jirón de la Unión com sete cadáveres: o dono da loja, armado com um revólver, abateu os seis primeiros invasores. O sétimo o matou.

– Os relatos e as notícias mostravam uma situação que parecia estar muito próxima da anomia. A multidão mostrava ter muita raiva do governo, mas era constituída basicamente dos moradores das barriadas (favelas) da área do Rímac, e de Pueblos Jóvenes (favelas montadas em terrenos invadidos) da periferia da cidade.

O ataque ao Expreso e a outros jornais controlados pelos jornalistas, favoráveis à chamada “Revolución de las Fuerzas Armadas”, e o fato de jornais conservadores, como El Comércio, terem sido poupados, levantou a gritaA suspeita era de que, se não provocada diretamente, foi pelo menos instrumentalizada, a partir de algum momento, pelos militantes do APRA.

O APRA é uma história peculiar do Perú. Nasceu como um partido populista “de esquerda” nos anos 30, fundado e dirigido por Haya de La Torre, um intelectual que passou vários anos presos e depois foi exilado. O presidente derrubado pelos militares, Belaúnde Terry, era do APRA (Belaúnde voltou mais tarde à presidência, eleito novamente, assim como outro “discípulo jovem” de Haya de La Torre, Alan García, que terminou o mandato acusado de corrupção pesada).

O APRA, portanto, teria todas as razões para estimular a revolta.

Uma análise posterior mostrou que o APRA efetivamente se infiltrou na manifestação e conduziu principalmente os ataques aos jornais e repartições.

Mas o impressionante foi o fato de que a população marginalizada, provavelmente estimulada não pelo APRA, mas pela marginalidade, percebeu a ausência do policiamento e promoveu os saques.

Quando o exército saiu dos quarteis, ocupou sem maiores problemas o quartel da polícia, mas reprimiu selvagemente a população nas ruas. Nada de tiros para o alto: as metralhadoras dos tanques disparavam direto na multidão, ceifando um número até hoje indeterminado de vítimas. Foi um banho de sangue.

Consideramos que aquele momento, embora incentivada pelo APRA, foi uma amostra do mais próximo que poderíamos pensar de uma situação anômica. A multidão se revoltara para saquear e simplesmente isso. Não havia, de fato, nenhuma direção política aparente (salvo nos já mencionados grupos que atacaram os jornais). Era uma massa descontrolada que invadia, quebrava e saqueava o que foi vendo pela frente.

Uma experiência que, sinceramente, não gostaria de reviver.

Especialmente pelo caráter anárquico e descontrolado daquilo tudo. Não era uma multidão em busca de derrubar o poder, conquista-lo para si ou para quem quer que seja. Era simplesmente a expressão do ódio e da raiva… e da ganância. A extensão dos saques mostrou que realmente não haviam objetivos políticos, e sim a mais visceral manifestação de ódio e raiva, com o fundo das carências materiais da população.

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ANÚNCIOS “ESPECIAIS” EM REVISTAS LITERÁRIAS

A The New York Review of Books e a London Review of Books são as duas revistas literárias não acadêmicas mais importantes, em inglês. E são realmente muito boas.

As resenhas nem se comparam com essas de pobreza intelectual que ainda aparecem nos jornais da Pindorama (exceção para as do João Cézar de Castro e Rocha). Quem resenha nas duas revistas em inglês realmente conhece literatura ou a área científica do livro em questão. Por isso mesmo, as resenhas  – e os ensaios – são preciosos.

Na edição de 19 de fevereiro da The New York Review of Books, por exemplo, temos uma resenha excelente de Lewis Lockwood, que é Emeritus Professor of Music em Harvard e Co-Diretor do Boston University Center for Beethoven Research. Ele faz a resenha do livro “Beethoven for a Later Age: Living with the String Quartets”, de Edward Dusinberre, que é o atual primeiro violino do Tákaks Quartet. É uma resenha que aborda desde os vários gêneros e subgêneros de livros sobre músicos para fazer uma análise detalhada da obra de Dusinberre, sobre a importância dos quartetos de corda na obra de Beethoven.

Steven Weinberg, que é Prêmio Nobel de Física e ensina na Texas University em Austin, publica um ensaio intitulado “The Trouble with Quantun Mechanics” que eu realmente não li, porque com certeza não iria entender necas de pitibiricas. A lista dos articulistas inclui J. M. Coetzee, Amartya Sem (que, junto com Eric Maskin, publica um ensaio sobre o sistema eleitoral da gringolândia e a necessidade urgente de modifica-lo). Timothy Garton Ash e mais outros, em um timaço de articulistas.

Pois bem, fui lendo os artigos e resenhas que me interessavam e, no final, estava dando uma olhada na seção de cartas (os debates entre articulistas/resenhistas e leitores às vezes são ferrenhos e igualmente interessantes – não há espaço para palpiteiros), quando meu olhar se desvia ao notar um anúncio colorido sobre… Feronomos.

Isso mesmo, essa suposta droga que aumenta a atração das pessoas do sexo oposto por quem aplica o tal “perfume”. Isso aqui?, me perguntei.

Bom, pode ser que algum professor vetusto estivesse interessado em alguma orientanda que não lhe dava mais bola que a atenção intelectual, ou vice-versa. (O negócio parece que funciona para os dois sexos, mas não há menção se funciona para os que são atraídos – e eventualmente frustrados – por pessoas do mesmo sexo).

Diante do anúncio, resolvi dar uma olhada nos menorzinhos, tipo daqueles que aparecem nos classificados dos jornais.

Olhem só os pequenos anúncios:

“A Coisa Certa” – encontros com colegas e professores das faculdades de elite, de Stanford e de outras excelentes faculdades”; “Deixe que eu exploda sua mente, sua zona erógena final. Conversas provocadoras com uma beleza culta. Sem limites”; “Erótica Sagrada… com Zeus”; “Sexy Italian. Permita que uma italiana sensual e ardente leve-o para seu mundo de massagens sensuais”; “Boa aparência, bons livros. Mulher bonita quer compartilhar suas pilhas de livros com homem educado (supõe-se que mais que alfabetizado…) e amoroso. Com mais de 70 anos”; “Mulher ativa e fisicamente disposta, de 73 anos, da Carolina do Norte. Escritora, educadora, com sentido de humor e estilo procura mulher do mesmo tipo”.

E mais: clube de encontros, bela e atraente mulher de origem chinesa e malaia procura cavalheiro que a faça desistir de sua lista irreal de exigências para marido – e mora em Singapura… Afinal, o mercado é internacional e global.

O caso é que o mundo literário e acadêmico parece estar carente de algumas coisas, e sempre há quem ofereça seus préstimos (pagos, é claro).

Deve ser o que chamam por aí de livre mercado. Detalhe: a revista se encarrega de encaminhar as respostas para quem prefere não publicar o e-mail. É tudo muito discreto mesmo (embora quem faça a distribuição das respostas possa se divertir bastante).

Caraca!

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PÉROLAS DE UM INDICADO POR TRUMP

Trump e seu indicado, Neil Gorsuch

Todo mundo sabe que o indicado pelo Trump para ocupar a vaga na Corte Suprema da gringolândia seria necessariamente um conservador.

Mas, que tipo de conservador?

Matéria de hoje no NY Times dá pistas (e a matéria tem até um tom simpático ao cara)…

Neil M. Gorsuch já era juiz federal, e tem uma carreira… brilhante e técnica, claro. Esse é o mote usado aqui e alhures para disfarçar o caráter inevitavelmente político das escolhas.

A mamãe de Gorsuch foi diretora da Agência de Proteção Ambiental dos EUA durante parte do governo Reagan. E acabou defenestrada por que recusou entregar ao Congresso relatórios sobre o armazenamento de lixo tóxico. Foi indiciada por desrespeito e teve que renunciar. Gorsurch, na época ainda adolescente, recriminou mamãe por ter renunciado. “Você não fez nada de errado. Só fez o que o presidente mandou. Por que está desistindo? Você me criou para nunca desistir. Por que está desistindo?”

Fez o que o presidente mandou… E quem pode, manda, como sabemos. Aliás, esse é um dos padrões de certa tradição jurídica alemã, na qual a prevalência da lei escrita (seja de que origem for), cria “legalidades” que vão além da ética, dos direitos humanos e os escambaus. Foi o raciocínio usado pelos juristas nazistas.

Gorsurch estudou em duas escolas de direito consideradas liberais nos EUA – Columbia e Harvard. Lá, não apenas liderou os estudantes conservadores, como criou publicações para defender suas teses.

O anuário de Columbia o descreve, “fazendo piada” como fundador do clube “Fascismo para Sempre”. Quem acha que isso é brincadeira é que não pode ser levado a sério. Mas, descontemos, era coisa de estudantes. No entanto, diz que ele “fustigava alegremente” as crescentes tendências “esquerdistas” dos professores, conhecidos liberais. No jargão dos EUA, os “liberais” são companheiros de viagem dos comunistas. Não comem criancinhas, mas ajudam a preparar o jantar…

As piadinhas no anuário não terminam aí. A foto do rapaz vai com citações preferidas dele. Olhem só:

“O ilegal fazemos imediatamente, o inconstitucional demora um pouco mais” – Henry Kissinger.

E o cara está para ser nomeado “guardião da constituição”.

A revista que ele ajudou a fundar – “The Federalist Paper” – recebia anúncios da cerveja Coors, do Colorado, de propriedade de um, digamos, antecessor dos irmãos Koch no financiamento da direita.

Os estudantes de Columbia resolveram fazer um boicote à Coors e um dos alvos foi a revista de Gorsuch, por conta de suas ligações com o magnata reacionário.

A matéria do NY Times ressalta que ele sempre defendeu suas posições com cortesia e mantem relações pessoais amistosas com juristas e personagens liberais.

Digamos, um Gilmar Mendes polido e cortês.

Técnico – como o que o impostor daqui diz que vai indicar para o STF.

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AMBIGUIDADES – OU SIGNIFICADOS TRANSFORMADOS

O Ídolo, dirigido por Hany Abu-Assad, de quem vimos o belo Paradise Now, é realização de um diretor que não teme temas polêmicos. Paradise Now tratava do recrutamento de dois jovens palestinos como homens-bomba, em um retrato brilhante do que leva aqueles jovens desesperados a sacrificar suas vidas por uma causa.

O Ídolo é outra coisa. Fui ver o filme por conta do diretor, apesar da sinopse não me atrair nem um pouco. Conta a história de Mohammed Assaf, jovem palestino, que vence a segunda temporada da versão árabe do programa de “descoberta de talentos”, o Ídolo. O programa, gerado no Líbano, é uma franquia que tem a mesma origem desses que passam por aqui, nos quais jovens cantores passam por seleções sucessivas até a final. Coisa detestável e brega, para meu gosto. O programa joga com as ambições dos jovens (às vezes nem tão jovens assim) de ficarem famosos e ricos com suas vozes.

O filme conta a história de Assaf, e termina por ser uma interessante mostra de ambiguidade de formas de luta, e de como até coisas como esse tipo de programas de televisão podem ter múltiplas camadas de significado.

A história de Assaf é bem representativa dos sofrimentos pelos quais passaram os palestinos desde a Naqba, a “catástrofe” que foi, para eles, o êxodo forçado pelo avanço do exército israelense na guerra de 1948 (não vou discutir isso aqui). Assaf nasceu em Misrata, na Líbia, filho de pais palestinos, onde viveu até os quatro anos de idade. Seus parentes voltaram para Gaza, onde ele cresceu no campo de refugiados de Khan Younis, em uma família de classe média (sua mãe era professora de matemática). A família materna era originalmente da aldeia de Bayt Daras, que foi tomada e despopulada pelo exército israelense em 1948. A do pai era originária de Beersheba, conhecida como “capital do Negev”, hoje também ocupada por Israel. Todos, portanto, desterrados e expulsos de seus lares. Segundo a mãe, Assaf cantava desde criança, com voz muito bonita e forte, como a de um adulto.

O filme narra basicamente a história de como Assaf começa a cantar, acompanhado de irmãos e amigos em uma banda improvisada, até seu sucesso na TV. Destaca-se no trecho inicial o desempenho da jovem atriz Hiba Attahllah, como Nour (Luz, em árabe), irmã de Assaf e um verdadeiro dínamo que impulsiona sua vocação, e morre de insuficiência renal ao não conseguir um rim para transplante nas difíceis condições de Gaza. Uma pequena atriz que já gostaria de rever em outro filme.

Essa etapa do filme mostra uma Gaza que já sofria com o bloqueio, e onde as condições de vida eram difíceis. Achei interessante que, ao contrário do que a propaganda deixa entender, os muçulmanos de Gaza desfrutam de muita liberdade pessoal, embora condicionadas pelo machismo árabe (mais árabe que muçulmano). Aparecem mulheres com e sem hijab circulando, embora se note a tensão que já existe entre os grupos mais religiosos em relação à música. Assaf é elogiado (e remunerado), quando atua como cantor na mesquita, interpretando passagens do Alcorão durante as cerimônias. Mas um de seus amigos, Omar, que se torna religioso, abandona a banda alegando que a música em geral é obra do diabo… Durante sua carreira, inclusive como cantor em casamentos, Assaf enfrentou problemas com as forças paramilitares palestinas de Gaza, tendo sido detido várias vezes, ainda que brevemente (isso não aparece no filme).

Depois da morte de Nour, o filme dá um salto de doze anos, e o que se vê é uma Gaza pesadamente destruída, isolada e cercada. Ainda assim, Assaf estuda na Universidade da Cidade de Gaza, ao mesmo tempo que trabalha como taxista.

O filme conta como ele, estimulado por Amal, uma jovem que também tinha problemas renais, decide concorrer no “Arab Idol”. Amal o convence, no filme, ao lhe dizer que se sentia feliz ao ouvi-lo cantar, e que era preciso “dar-nos algo de que possamos nos orgulhar no meio de tantos problemas”.

Vemos as dificuldades que ele enfrenta para sair de Gaza, usando um visto falsificado (com ajuda de um contrabandista que anteriormente os havia roubado ao não entregar os instrumentos musicais encomendados) e a história rocambolesca (mas real), de como ele conseguiu participar do programa.

Ao chegar no Cairo, para a primeira etapa de seleção, os passes para participar já estavam esgotados. Ele pula o muro do teatro, e lá dentro acaba conhecendo outro palestino que lhe cede o passe, alegando que não tinha chances de ser selecionado mas sabia que ele poderia prosseguir. E é o que, previsivelmente, acontece.

Assaf vai passando pelas sucessivas seleções e chega à final, quando canta uma música de caráter nacionalista palestino, Aali al-keffiyeh (“Levante o Kafié” – o lenço palestino que Arafat tornou famoso). Aqui a interpretação de Assaf, no YouTube. Palestina,

Sua apresentação final, que aparece no filme de forma semidocumental, provocou uma enorme comoção não apenas na Palestina como em todo mundo árabe e na diáspora palestina. O extraordinário foi que, em vista da tensão entre o governo da Faixa de Gaza, controlado pelo Hamas, e a Autoridade Palestina, chefiada pela Fatah, a apresentação de Assaf foi assistida e comemorada por todas as facções palestinas. Logo ele passou a ser conhecido como Assaf Hilm Falastine (Assaf é o sonho da Palestina) e foi nomeado Embaixador da Boa Vontade, pela Agência da ONU que ajuda os refugiados. Mais tarde recebeu um passaporte diplomático da Autoridade Palestina (o que não impede que seja submetido a todas as restrições e dificuldades impostas por Israel para que entre em Gaza).

O sucesso de Assaf gerou algumas consequências políticas importantes, e é uma contribuição para a construção da unidade entre as diferentes forças palestinas. A própria direção do Hamas, que o deteve várias vezes tentando dissuadi-lo de cantar fora das mesquitas, acabou por reconhecer seu trabalho como “embaixador da arte palestina”.

O filme, e a história de Assaf, me transmitiram uma enorme sensação de ambiguidade. Um programa de televisão desse tipo, desenhado para estimular a mais básica e vulgar ambição pelo sucesso, acaba – pelo menos momentaneamente – se transformando em poderoso veículo de construção de orgulho e unidade entre o sofrido povo palestino.

Vale a pena ver O Ídolo, por tudo isso, e também pela qualidade da direção de Hany Abu-Assad e de seus atores.

Um filme belo e emocionante.

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A LESEIRA BARÉ (1) E O CRIME (DES)ORGANIZADO

Notícias de Manaus.

Os comentários são de que os fugitivos lá da penitenciária do massacre foram em quantidade muito maior que a reconhecida pelo governo Melo Merenda (ou Merda, como preferirem). A população anda em pânico, é claro, e os truculentos aproveitando a onda.

Para além da tal Ummanizare (que nome conveniente para um conduite de propina e violência) pagar – consta – uma “mensalidade” para as “otoridades” correspondentes, vai aqui uma historinha que seria deliciosa se não fosse proveniente daquela tragédia.

Um grupo de fugitivos, aparentemente não vinculados a alguma facção, acabaram se embrenhando 2 pelas matas que ficam perto do campus da UFAM. Subitamente, encontram uma bela jaqueira carregada. Famintos, derrubam jacas e começam a se empanturrar.

Aí é que entra a leseira baré. Além de comer, os lesos tiram selfies com seus celulares e tascam pelas redes sociais. Ó nóis aqui, maninho…

E caem na modorra pós-prandial, como exemplares devotos da “santa” Etelvina, a padroeira dos lesos.

Acordam com os meganhas apontando as metralhas nas fuças deles. E são levados sabe-se lá para que nova prisão.

Túmulo da “santa” Etelvina, a padroeira dos lesos,  no Cemitério S. João Batista, em Manaus.

1 – A leseira é um estado de idiotice que, segundo alguns, decorre da intensa exposição ao sol tropical. A leseira baré, típica dos manauaras desprevenidos, tem até uma padroeira. É a “santa” Etelvina, padroeira dos lesos. A razão dessa consagração é simples. Etelvina era uma jovem cearense emigrada ao Amazonas, lá pelo começo do Século XX. Tinha um namorado que a convidou para dar um passeio pelo Aleixo, então um lugar que era plena mata. Lá, o mancebo quis ir às vias de fato com a manceba que, católica e lesa emérita (vai pro mato com o namorado), recusou. Este a estuprou e assassinou, rumorosíssimo caso na época em que a Igreja Católica ultramontana fabricava santas aos montes das mocinhas que “defendiam sua pureza”. Etelvina não foi canonizada,mas seu túmulo é lugar de romaria no dia de finados, e os lesos com os mais variados problemas rezam por sua intercessão…

A leseira geralmente tem manifestações específicas em cada lugar (a última dos paulistanos, por exemplo, foi colocar o limpinho e cheiroso na prefeitura).

Existe uma explicação altamente científica do professor Galvão, eminente psicanalista baré (não leso), nas páginas finais do romance “A Resistível Ascensão do Boto Tucuxi”, do Márcio Souza, ilustrado pelo Paulo Caruso, e com direito a um infográfico da “Pirâmide da Estagnação Crítica na Personalidade Extrativista”. Edição da falecida Marco Zero, só em sebos.

O infográfico do Psicanalista Dr. Galvão, explicando a leseira baré.

Agora me digam, a “Santa” Etelvina não merece ser a padroeira e os fugitivos legítimos representantes da leseira baré?

2 – Essa história de embrenhar na mata (pleonasmo, of course), me lembra outro velho político amazonense, cujo nome não citarei, que era admirador do Dr. Adhemar de Barros (o político amazonense era leso leso, o Dr. Adhemar de leso não tinha nada).

Em uma das tantas campanhas presidenciais nas quais no, final das contas, o Dr. Adhemar negociava seus apoios, o candidato montou uma trupe de paraquedistas que saíam pulando de um DC-3 pelo país afora. Lá em Manaus, os paraquedistas do Adhemar caíram na floresta, e o leso comentou: “Os paraquedistas do Adhemar se emprenharam na mata”.

Não é outro exemplo luminoso de leseira?

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“OUTROS CANTOS” E O PASSADO/PRESENTE

Recém terminei a leitura de “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende. É um livro curto, com apenas 152 páginas. Publicado pela Alfaguara, relata uma viagem dupla: Maria, educadora de base, viaja em um ônibus caquético para um encontro de educadores, onde fará uma palestra. Durante a viagem, relembra sua primeira ida ao sertão nordestino, quando foi ao povoado Olho d’Água, com a cobertura precária de ser professora do Mobral, como integrante de uma organização revolucionária, cuja tarefa “tornando-se parte do povo com o peixe na água” e despertar a consciência social daquela população, criando condições para a vinda futura de outro contingente de revolucionários.

     As duas “realidades” vão se intercalando durante a viagem, com a memória fazendo alguns saltos interessantes. Logo no início:
“O ônibus parou arquejando, e eu adivinhei que ele vinha sentar-se ao meu lado, apesar de tantas cadeiras vazias. Ele veio, grande, maciço, cheirando a couro curtido, suor e tabaco. O odor flui da minha memória, decerto, porque este ao meu lado veste-se como um caubói de rodeio e cheira a água-de-colônia barata”.

Na verdade, a memória da narradora parece determinada a fazer este tipo de truques. Os passageiros da viagem no presente remetem a lembranças do passado que fluem com muita autonomia, relatando a experiência da então jovem Maria a caminho de Olho d’Água.

O vilarejo, “as poucas casas brancas, de janelas e portas fechadas, agarradas umas às outras, mortas de medo do imenso e árido espaço à sua volta”, tem seu nome justificado por se constituir nas proximidades de uma fonte perene de água doce. Só que a água tem dono, e é paga pelos moradores que se esfalfam para tingir fios de algodão e tecer redes. O caminhão traz as anilinas e os fios (não são produzidos ali), e leva as redes para fora. Roças esmirradas mal resistem (as macaxeiras e os cactos), à espera de março e das possíveis chuvas.

Maria consegue efetivamente se integrar na vida do vilarejo, guiada pelas mãos de Fátima, cujo marido saiu para conseguir algum dinheiro no Sul e vai mandando, aos pedaços, as madeiras para a construção de um tear que pode melhorar os rendimentos da família.

Começa por participar do trabalho de tingir os fios com as anilinas. Trabalho duro, ao qual se acostuma com dificuldades. Na casinha que lhe tocou (não se sabe se por ser de alguma instituiçao ou simplesmente por estar vazia, instala sua rede e seus pretenções, inclusive uma caixa, escondida no fundo falso na mochila, onde guarda suas recordações, inclusive um livrinho vermelho do presidente Mao, com a capa convenientemente tingida de azul, e um Evangelho. Além dos pequenos souvenirs recolhidos em dois níveis: o de um misteriosos rapaz que se modifica a cada aparição, começando pelo Harley, montado em uma moto que justifica o apelido, e depois em outras situações e países pelas quais a educadora trafega: Argélia, México, até uma aparição como misterioso vaqueiro nas proximidades de Olho d`Água.

As histórias contadas sob a luz das estrelas (para economizar o óleo das lamparinas), as festas religiosas da cidade e o trabalho, muito trabalho, trabalho duro, fazem que Maria se integre na comunidade, descobrindo pouco a pouco as facetas ocultas da vida comunitária.

Mas a promessa de um vereador que havia se comprometido a conseguir o material didático e o contrato miserável como educadora do Mobral (que ainda assim representaria uma renda superior àquela conseguida com o pesado trabalho de tingir os fios e tecer as redes), tarda a ser cumprida. Fátima, sua mentora e amiga na comunidade, a ensina que a paciência é virtude de sobrevivência.

Quando o material didático e o contrato aparecem, a balbúrdia se instala. A tarefa de Maria seria de alfabetizar jovens, e não crianças, e muito menos fazer trabalho de jardim de infância. Mais uma vez Fátima lhe dá o caminho. As mães querem desasnar as crianças para lhes dar uma chance, e quanto mais jovens começarem, melhor. Assim, Maria dedica as manhãs às crianças, que aceita desde que a família se comprometa a enviar um jovem, ou adulto, paras as aulas noturnas.

No entanto, o uso do métodos Paulo Freire, com as palavras chaves, parece não fazer o menor efeito. Para aquela gente, o dado da opressão parece ser o estado natural das coisas, e Maria começa a desanimar.

Em um momento, pouco depois, chegam os rumores de que o Exército já está ali por perto, prendendo esses estranhos que circulam pela região. A própria comunidade, então, obriga Maria a fugir, escondida no meio dos fios, sob uma rede tecida por Fátima, o primeiro resultado do tear finalmente montado com as peças enviadas pelo marido.

Na viagem atual, a educadora Maria vai testemunhando as mudanças e as diferenças entre seu sertão da memória e o que lhe aparece pela frente. Jovens com camisetas de estrelas estrangeiras, tocando músicas que não tem mais nada que ver; adultos que voltam para suas terras, porque haviam conseguido, ainda com o trabalho no Sul, conseguir recursos não apenas para voltar, mas até para “montar seus negocinho”.

Sim, o sertão mudou.

Mas Maria havia ficado com aquele travo de ter que fugir da primeira vez, e fugir com a sensação de que não havia conseguido “despertar a consciência” do povo.

Como boa romancista, Maria Valéria não tira conclusões e nem “fecha” seu romance.

Mas este leitor pensa sobre o que leu.

Será que seu trabalho no Olho d`Água foi realmente em vão? O que fez que aquele povo percebesse que a presença daquela estranha que havia se integrado tão bem na vida da comunidade fosse vista como ameaça pelo Exército, que estava por ali prendendo as pessoas que se enquadravam naquele perfil?

Ultimamente tenho pensado muito em algumas questões da resistência à ditadura. Na mitologia de uma boa parte da esquerda, e alimentada inclusive pelas Comissões da Verdade, e até pela imprensa, temos o desfile dos heróis que foram assassinados e torturados pela ditadura.

Foram heróis sim, no mesmo sentido que os primitivos cristãos foram mártires, morrendo por não renegar sua fé. Uma espécie de heroísmo passivo, onde essa qualificação se dá por sinonímia com vítima. Vítima = herói.

A história de Maria, relatada pela Maria Valéria Resende, reflete, ou expressa, experiências de centenas ou milhares de outros militantes que, no campo ou na cidade, em fábricas, em associações de bairro, em atividades de apoio, como jornais de sindicatos e de bairros, em centros culturais e outras atividades congêneres, faziam esse trabalho miúdo, aparentemente frustrante, tal como o de Maria.

O romance de Maria Valéria Resende, muito bem estruturado e com um tom poético de grande beleza, trata de um exemplo desses esforços anônimos e, repito, aparentemente frustrantes, de tanta gente que queria fazer a revolução, e que contribuiram de fato para a criação de uma mentalidade e sentimento de luta pela democracia, e assim levaram à derrota da ditadura – infelizmente não completa, como vemos hoje..

Essas histórias precisam ser recuperadas, tanto a partir de relatos concretos e levantamentos socio-antropológicos mais consistentes, como também na ficção.

Romances como o da Maria Valéria, e também a coletânea de contos do livro “Felizes Poucos”, da Maria José Silveira, vão aos poucos recuperando isso tudo.

Mas precisamos de muito mais, nestes momentos em que grandes ameaças se vislumbram no horizonte do Brasil.

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CIDADE LINDA?

Somos, eu e a Maria José, apaixonados por São Paulo. Nasci em Manaus e ela é goiana. Nos encontramos em Brasília, na Universidade e começando a trabalhar como jornalistas. Moramos em S. Paulo – quando fui preso pela ditadura e ela viveu clandestina em São Bernardo – e depois passamos quatro anos no Peru. De volta, moramos quase dez anos no Rio de Janeiro. Mas estamos, por decisão própria, morando em S. Paulo desde 1984.

E adoramos a cidade.

Não por sua beleza paisagística. O Rio é imbatível nesse quesito (por mais que os cariocas se esforcem, não conseguem estragar de todo a paisagem).

Amamos São Paulo pela sua dinâmica e por sua diversidade. Pelo povo que luta e pelo povo que se diverte. Pela vida cultural. Pelas livrarias. Pela Biblioteca Mário de Andrade. Pelo Centro Cultural Vergueiro. Pela Avenida Paulista fechada aos domingos e pelas ciclovias. Pela diversidade do povo que encontramos pelas ruas: todas as cores, todos os gêneros.

Sofremos com a cidade e sua população. Os congestionamentos. A poluição. A miséria que se torna visível nas esquinas, a ocupação desordenada de ruas e praças.

Evidentemente, gostaríamos de ter uma cidade mais limpa, mais organizada, mais amistosa para com sua população. Mais ordenada em seu crescimento.

Mas sabemos muito bem que essa balbúrdia, e até essa incontrolável sujeira que resiste a exércitos de varredores, garis e máquinas de varrer; as pichações que extravasam o que os jovens, rebeldes sem causa, talvez, deixam pela cidade; o asfalto deformado por caminhões e ônibus que não deixam espaço nem mesmo para uma manutenção correta; tudo isso faz parte da dinâmica da cidade.

São Paulo não seria o que é, esse grande centro de produção simultânea de riqueza e miséria, de cultura e ignorância, de consciência política e conservadorismo, do chique e do mau-gosto, se não fosse assim diversa, fragmentada. Se não fosse essa fênix em permanente morte e ressurreição, onde se observam extremos de despreendimento e egoísmo, de beleza e feiúra.

Essa Pauliceia desvairada do Mário de Andrade, que a Maria José retraduziu no seu romance “Pauliceia de Mil Dentes” enfrenta, agora, um novo desafio: um alcaide que quer transformá-la em “Cidade Linda”.

O desafio, definitivamente, não é do alcaide. O desafio é da cidade. Resistir a essa maquiagem que pretende esconder o que o novo administrador considera feio; e que começa com a pirotecnia de se vestir de gari (como se fosse um palhaço), para fingir que varre durante dez segundos.

Ora, ora, ora.

O alcaide e a versão paulistana apavorada do Izzy Osbourne brincando de varrer a Paulista.

Que continua suja a vinte metros do espetáculo. Fiscalização da varrição parece que não faz parte do Cidade Linda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas São Paulo resistirá.

Essa história de Cidade Linda sempre me lembra (por quê?) a famosa linha do Hamlet: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”.
CidadeSempre haverá algo – muito – de podre nessa ideia de uma cidade limpinha e cheirosa. Talvez aquela que poderia ser vítima de uma bomba de nêutrons, com todos mortos e o espaço desinfetado.

O Humberto Werneck desafiou seus leitores, no FaceBook, a comentar sobre o assunto. Eu comentei que se tratava de uma política higienista que queria esconder os pobres. Uma senhora respondeu a meu comentário (aliás, sobre a remoção dos moradores de rua nos arredores da Praça 14Bis), perguntando se eu morava por perto por que ela, com duas filhas, não conseguia descer na parada de ônibus ali, supostamente com medo daqueles moradores.

Moro perto dali. Confesso que raramente uso ônibus, mas desci naquele ponto algumas vezes, em particular quando queria comprar alguma coisa no supermercado da praça. E me sinto mais ameaçado quando passo de automóvel por ali. Nessas ocasiões eu viro um alvo de verdade.

Mas a observação da senhora, evidente apoiadora da limpeza do alcaide, me remeteu diretamente a uma crônica recente do Veríssimo, no qual ele comentava sobre a questão da empatia (era a propósito do massacre de Manaus).

A questão é que essas pessoas não tem a menor empatia para com os pobres. Para eles, estar na rua é sinônimo de preguiça, drogadição, alcoolismo. Esquecem simplesmente que vivem em um país com altíssimos índices de desigualdade social, miséria e quebra das estruturas tradicionais que apoiavam a existência de tantas famílias expulsas do campo, e atraídas pelo cintilar da metrópole.
O egoísmo dessa gente supera a presença de uma característica essencial que nos faz humanos: a empatia para com o próximo. Vai ver que são carolas que não perdem a missa dominical, e certamente foram para as passeatas pedir o golpe.

A canção emblemática do Caetano Veloso se faz mais atual que nunca. Nem tanto pela esquina da Ipiranga com a São João, e sim pelo conjunto da letra. Nós que a cantarolamos, principalmente a primeira estrofe, devemos nos lembrar da letra inteira:

Sampa – Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim, Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes
E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

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A MÁRIO DE ANDRADE E SEU NOVO DIRETOR

André Sturm, o novo Secretário Municipal de Cultura, confirmou a indicação do ex-editor e colecionador de arte Charles Cosac como novo diretor da Biblioteca Mário de Andrade.

Quando soube da notícia, pensei logo em escrever sobre o assunto.

Mas o Maurício Meireles, paraense (ou roraimense, nem sei!), importado pela FSP, já falou praticamente tudo que eu queria dizer.

Por isso, remeto à sua coluna de sábado, dia 7 de janeiro.

A partir da própria coluna, sabemos que Charles Cosac não entende bulhufas de mercado editorial. Certamente entende de publicar belos livros, mas de mercado editorial nada de nada. E tenho minha dúvidas – amplas e fundamentadas – de que gostar de livros, “ser humanista” e haver frequentado bibliotecas seja qualificação suficiente para dirigir uma biblioteca do porte da BMA, a segunda maior do país e supostamente cabeça (ou modelo) de um sistema com mais de cem unidades.

Bom, esperemos.

Não tenho lá muitas esperanças. Talvez a BMA se transforme em uma bela galeria de arte, exibindo obras dos artistas que Cosac admira.

Quem sabe, poderá ser comparada à gestão do Pedro Correa do Lago na BN, cargo que Mindlin recusou porque “iria se sentir como a raposa dentro do galinheiro”. Fez bem. E ainda bem que o Cosac não é bibliófilo.

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O NATAL QUE HERDAMOS E SUA HISTÓRIA

Passado o natal cristão, é bom lembrar inúmeras observações que geralmente se repetem ano a ano: festa de família, comercialização – ao lado da celebração religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de católicos praticantes. Os protestantes puritanos chegaram a proibir essa comemoração, como herética, e mesmo depois da suspensão desse tipo de édito, o natal é uma festa menor nos EUA, por exemplo, que a celebração do Dia de Ação de Graças, oura mitologia propriamente estadunidense.

Entretanto, o caráter mitológico do natal é geralmente pouco lembrado. Como disse meu amigo e professor Rodrigo Montoya (em um post no FB sobre essa festa), “Todo mito es una ficción creada a partir de muchos fragmentos dispersos de realidades que van cambiando con el tempo”. E quero aqui lembrar um pouco as informações disponíveis sobre o assunto.

A existência de um personagem histórico, o Jesus do Novo Testamento, é hoje quase consensual. Existe ainda alguma disputa, mas a maioria dos historiadores concorda que Jesus foi um dos tantos profetas judeus que predicavam durante o reino de Herodes, o Grande, em uma palestina já vassala dos romanos (para informações mais amplas sobre os vários tipos de dominação romana, um livro útil é o da historiadora e arqueóloga britânica Mary Beard: “SPQR: A History of Ancient Rome”,  disponível em inglês em ebook Kindle por R$ 27,00 – ótimo livro síntese).

Jesus provavelmente foi discípulo de outro profeta, conhecido como João Batista, e que as autoridades consideravam, na época, muito mais subversivo. Mas a cronologia é bem complicada. É bom lembrar que os chamados evangelhos canônicos (reconhecidos pela Igreja Católica), foram escritos entre os séculos I e III da nossa era, e nenhum de seus autores, na verdade anônimos, chegou a conhecer pessoalmente o personagem central. Eram parte dos chamados epígonos, os herdeiros do profeta, que consolidam e formalizam seus ensinamentos em uma instituição de poder (como foi o caso), e os transformam em seita ou religião.

Mesmo assim, as referências bíblicas são vagas e imprecisas. Mencionam a viagem do casal José e Maria a Belém para um censo, provavelmente durante o reinado de Herodes. Mas qual a data desse censo (uma prática instituída pelos romanos), está longe de ser consensual.

De qualquer maneira, é praticamente certo que não teria sido no inverno, que é extremamente rigoroso na Palestina e dificultaria muito o deslocamento de pessoas.

De qualquer modo, os primeiros cristãos não costumavam celebrar o nascimento de Jesus como tal. Muitas comunidades optaram por celebrar a que ficou conhecida como primeira Epifania (revelação manifestada a partir de algo inesperado). No caso cristão, quando Jesus “se revela” como Deus. No caso, a primeira delas é a adoração dos chamados “Reis Magos”.

O natal, como festa de celebração do nascimento de Jesus, passou a ser considerado só no Século IV da nossa era. A data de 25 de dezembro é o solstício do inverno no hemisfério norte, o dia em que as noites começam a diminuir e o a luz solar se expande pouco a pouco, até o solstício do verão, geralmente 24 de junho, onde se inicia o movimento contrário. Isso no hemisfério norte. No sul, onde estamos, as estações se invertem: o nosso solstício de inverno é em junho e o do verão em dezembro.

O solstício do inverno celebrava, para os romanos, o nascimento do sol, o deus-sol invicto (natalis invicti Solis). Nessa ocasião se davam as celebrações das saturnálias (que incluíam troca de presentes) e o solstício era um festival pagão muito popular e considerado. Dito seja que Constantino, o imperador romano que oficializou o cristianismo como religião do Império, havia sido sagrado exatamente tendo como patrono o tal deus-sol invicto. O inverno, nas sociedades agrárias como as da antiguidade, é o momento de encerramento das colheitas, celebrações, eventualmente dedicação a trabalhos artesanais dentro de casa, etc.

O Cristo como Sol. Mosaico em tumba no Vaticano.

Os primeiros cristãos já haviam desenvolvido o hábito de incorporar datas e celebrações pagãs em suas festividades. A prática, denominada de sincretismo, foi amplamente empregada através dos séculos, para dar uma capa cristã e incorporar crenças pagãs ou de outras religiões no calendário cristão.

A chamada conversão de Constantino aconteceu em 312, depois de sua vitória na batalha da ponte Mílvia, no dia 28 de outubro daquele ano, quando derrotou seu rival Magêncio, supostamente por haver incorporado a cruz cristã ao escudo de seus soldados. Quarenta e oito anos mais tarde, o Papa Júlio I, depois de “investigação pormenorizada” feita por astrônomos, declarou oficialmente a data como a do nascimento de Jesus. Uma “coincidência” fabulosa com a celebração do deus-sol patrono de Constantino. Não foi a primeira nem a última manifestação de oportunismo que a igreja romana praticou. Continue lendo

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NOVO LIVRO DA MARIA JOSÉ SILVEIRA A CAMINHO

Nos próximos dias. Primeiro em e-book, depois impresso.

We few, we happy few, we band of brothers 

(Nós poucos, felizes poucos, bando de irmãos)

W. Shakespeare, Henrique V

Vinte e um anos de ditadura e onze contos. Os poucos “felizes poucos”, desta vez, não foram os que venceram a Batalha de Agincourt. São os militantes que lutaram contra a opressão, em vinhetas do cotidiano, de luta, de reflexão sobre o que aconteceu, sobre as vitórias parciais e a derrota (que fica cada vez mais evidente com essa “ditadura em transição” na qual vivemos agora).

capa-curingaO Curinga

Minha cara leitora, meu caro leitor:
A autora foi me buscar, vozinha de órfã perdida no bosque da literatura, “Por favor, me ajuda”.
Não é de hoje que conheço essa autora, sei o quanto é dissimulada. Precavido, perguntei, “Ajudar em quê? Você é tão boa! Por que precisa de mim?”, “É que desta vez meu tema é mais complicado”, ela respondeu. “Ééé?” ecoei.
“Vou falar explicitamente de política. Ditadura. Luta armada. Esses tempos. Queria que você alegrasse um pouco meu tema, oferecesse aos leitores um respiro de ar fresco, um copo-d’água da fonte.”

Os contos deste livro tratam de vários momentos da luta contra a ditadura civil-militar que, por 21 anos, controlou o país. Passam pelo campo, pela fábrica, pela luta armada, pela clandestinidade, prisão e exílio, e chegam até a Anistia e a continuação do trabalho político. Falam de uma geração que viveu esse tempo, com todas as suas consequências. E o faz com uma forma literária criativa e inovadora como poucas vezes vemos.

É o primeiro livro de contos de Maria José Silveira, premiada romancista, traduzida em vários países. É um livro sobre momentos do passado que, assustadoramente e apesar de todas as diferenças, podem estar voltando.

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