“OUTROS CANTOS” E O PASSADO/PRESENTE

Recém terminei a leitura de “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende. É um livro curto, com apenas 152 páginas. Publicado pela Alfaguara, relata uma viagem dupla: Maria, educadora de base, viaja em um ônibus caquético para um encontro de educadores, onde fará uma palestra. Durante a viagem, relembra sua primeira ida ao sertão nordestino, quando foi ao povoado Olho d’Água, com a cobertura precária de ser professora do Mobral, como integrante de uma organização revolucionária, cuja tarefa “tornando-se parte do povo com o peixe na água” e despertar a consciência social daquela população, criando condições para a vinda futura de outro contingente de revolucionários.

     As duas “realidades” vão se intercalando durante a viagem, com a memória fazendo alguns saltos interessantes. Logo no início:
“O ônibus parou arquejando, e eu adivinhei que ele vinha sentar-se ao meu lado, apesar de tantas cadeiras vazias. Ele veio, grande, maciço, cheirando a couro curtido, suor e tabaco. O odor flui da minha memória, decerto, porque este ao meu lado veste-se como um caubói de rodeio e cheira a água-de-colônia barata”.

Na verdade, a memória da narradora parece determinada a fazer este tipo de truques. Os passageiros da viagem no presente remetem a lembranças do passado que fluem com muita autonomia, relatando a experiência da então jovem Maria a caminho de Olho d’Água.

O vilarejo, “as poucas casas brancas, de janelas e portas fechadas, agarradas umas às outras, mortas de medo do imenso e árido espaço à sua volta”, tem seu nome justificado por se constituir nas proximidades de uma fonte perene de água doce. Só que a água tem dono, e é paga pelos moradores que se esfalfam para tingir fios de algodão e tecer redes. O caminhão traz as anilinas e os fios (não são produzidos ali), e leva as redes para fora. Roças esmirradas mal resistem (as macaxeiras e os cactos), à espera de março e das possíveis chuvas.

Maria consegue efetivamente se integrar na vida do vilarejo, guiada pelas mãos de Fátima, cujo marido saiu para conseguir algum dinheiro no Sul e vai mandando, aos pedaços, as madeiras para a construção de um tear que pode melhorar os rendimentos da família.

Começa por participar do trabalho de tingir os fios com as anilinas. Trabalho duro, ao qual se acostuma com dificuldades. Na casinha que lhe tocou (não se sabe se por ser de alguma instituiçao ou simplesmente por estar vazia, instala sua rede e seus pretenções, inclusive uma caixa, escondida no fundo falso na mochila, onde guarda suas recordações, inclusive um livrinho vermelho do presidente Mao, com a capa convenientemente tingida de azul, e um Evangelho. Além dos pequenos souvenirs recolhidos em dois níveis: o de um misteriosos rapaz que se modifica a cada aparição, começando pelo Harley, montado em uma moto que justifica o apelido, e depois em outras situações e países pelas quais a educadora trafega: Argélia, México, até uma aparição como misterioso vaqueiro nas proximidades de Olho d`Água.

As histórias contadas sob a luz das estrelas (para economizar o óleo das lamparinas), as festas religiosas da cidade e o trabalho, muito trabalho, trabalho duro, fazem que Maria se integre na comunidade, descobrindo pouco a pouco as facetas ocultas da vida comunitária.

Mas a promessa de um vereador que havia se comprometido a conseguir o material didático e o contrato miserável como educadora do Mobral (que ainda assim representaria uma renda superior àquela conseguida com o pesado trabalho de tingir os fios e tecer as redes), tarda a ser cumprida. Fátima, sua mentora e amiga na comunidade, a ensina que a paciência é virtude de sobrevivência.

Quando o material didático e o contrato aparecem, a balbúrdia se instala. A tarefa de Maria seria de alfabetizar jovens, e não crianças, e muito menos fazer trabalho de jardim de infância. Mais uma vez Fátima lhe dá o caminho. As mães querem desasnar as crianças para lhes dar uma chance, e quanto mais jovens começarem, melhor. Assim, Maria dedica as manhãs às crianças, que aceita desde que a família se comprometa a enviar um jovem, ou adulto, paras as aulas noturnas.

No entanto, o uso do métodos Paulo Freire, com as palavras chaves, parece não fazer o menor efeito. Para aquela gente, o dado da opressão parece ser o estado natural das coisas, e Maria começa a desanimar.

Em um momento, pouco depois, chegam os rumores de que o Exército já está ali por perto, prendendo esses estranhos que circulam pela região. A própria comunidade, então, obriga Maria a fugir, escondida no meio dos fios, sob uma rede tecida por Fátima, o primeiro resultado do tear finalmente montado com as peças enviadas pelo marido.

Na viagem atual, a educadora Maria vai testemunhando as mudanças e as diferenças entre seu sertão da memória e o que lhe aparece pela frente. Jovens com camisetas de estrelas estrangeiras, tocando músicas que não tem mais nada que ver; adultos que voltam para suas terras, porque haviam conseguido, ainda com o trabalho no Sul, conseguir recursos não apenas para voltar, mas até para “montar seus negocinho”.

Sim, o sertão mudou.

Mas Maria havia ficado com aquele travo de ter que fugir da primeira vez, e fugir com a sensação de que não havia conseguido “despertar a consciência” do povo.

Como boa romancista, Maria Valéria não tira conclusões e nem “fecha” seu romance.

Mas este leitor pensa sobre o que leu.

Será que seu trabalho no Olho d`Água foi realmente em vão? O que fez que aquele povo percebesse que a presença daquela estranha que havia se integrado tão bem na vida da comunidade fosse vista como ameaça pelo Exército, que estava por ali prendendo as pessoas que se enquadravam naquele perfil?

Ultimamente tenho pensado muito em algumas questões da resistência à ditadura. Na mitologia de uma boa parte da esquerda, e alimentada inclusive pelas Comissões da Verdade, e até pela imprensa, temos o desfile dos heróis que foram assassinados e torturados pela ditadura.

Foram heróis sim, no mesmo sentido que os primitivos cristãos foram mártires, morrendo por não renegar sua fé. Uma espécie de heroísmo passivo, onde essa qualificação se dá por sinonímia com vítima. Vítima = herói.

A história de Maria, relatada pela Maria Valéria Resende, reflete, ou expressa, experiências de centenas ou milhares de outros militantes que, no campo ou na cidade, em fábricas, em associações de bairro, em atividades de apoio, como jornais de sindicatos e de bairros, em centros culturais e outras atividades congêneres, faziam esse trabalho miúdo, aparentemente frustrante, tal como o de Maria.

O romance de Maria Valéria Resende, muito bem estruturado e com um tom poético de grande beleza, trata de um exemplo desses esforços anônimos e, repito, aparentemente frustrantes, de tanta gente que queria fazer a revolução, e que contribuiram de fato para a criação de uma mentalidade e sentimento de luta pela democracia, e assim levaram à derrota da ditadura – infelizmente não completa, como vemos hoje..

Essas histórias precisam ser recuperadas, tanto a partir de relatos concretos e levantamentos socio-antropológicos mais consistentes, como também na ficção.

Romances como o da Maria Valéria, e também a coletânea de contos do livro “Felizes Poucos”, da Maria José Silveira, vão aos poucos recuperando isso tudo.

Mas precisamos de muito mais, nestes momentos em que grandes ameaças se vislumbram no horizonte do Brasil.

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CIDADE LINDA?

Somos, eu e a Maria José, apaixonados por São Paulo. Nasci em Manaus e ela é goiana. Nos encontramos em Brasília, na Universidade e começando a trabalhar como jornalistas. Moramos em S. Paulo – quando fui preso pela ditadura e ela viveu clandestina em São Bernardo – e depois passamos quatro anos no Peru. De volta, moramos quase dez anos no Rio de Janeiro. Mas estamos, por decisão própria, morando em S. Paulo desde 1984.

E adoramos a cidade.

Não por sua beleza paisagística. O Rio é imbatível nesse quesito (por mais que os cariocas se esforcem, não conseguem estragar de todo a paisagem).

Amamos São Paulo pela sua dinâmica e por sua diversidade. Pelo povo que luta e pelo povo que se diverte. Pela vida cultural. Pelas livrarias. Pela Biblioteca Mário de Andrade. Pelo Centro Cultural Vergueiro. Pela Avenida Paulista fechada aos domingos e pelas ciclovias. Pela diversidade do povo que encontramos pelas ruas: todas as cores, todos os gêneros.

Sofremos com a cidade e sua população. Os congestionamentos. A poluição. A miséria que se torna visível nas esquinas, a ocupação desordenada de ruas e praças.

Evidentemente, gostaríamos de ter uma cidade mais limpa, mais organizada, mais amistosa para com sua população. Mais ordenada em seu crescimento.

Mas sabemos muito bem que essa balbúrdia, e até essa incontrolável sujeira que resiste a exércitos de varredores, garis e máquinas de varrer; as pichações que extravasam o que os jovens, rebeldes sem causa, talvez, deixam pela cidade; o asfalto deformado por caminhões e ônibus que não deixam espaço nem mesmo para uma manutenção correta; tudo isso faz parte da dinâmica da cidade.

São Paulo não seria o que é, esse grande centro de produção simultânea de riqueza e miséria, de cultura e ignorância, de consciência política e conservadorismo, do chique e do mau-gosto, se não fosse assim diversa, fragmentada. Se não fosse essa fênix em permanente morte e ressurreição, onde se observam extremos de despreendimento e egoísmo, de beleza e feiúra.

Essa Pauliceia desvairada do Mário de Andrade, que a Maria José retraduziu no seu romance “Pauliceia de Mil Dentes” enfrenta, agora, um novo desafio: um alcaide que quer transformá-la em “Cidade Linda”.

O desafio, definitivamente, não é do alcaide. O desafio é da cidade. Resistir a essa maquiagem que pretende esconder o que o novo administrador considera feio; e que começa com a pirotecnia de se vestir de gari (como se fosse um palhaço), para fingir que varre durante dez segundos.

Ora, ora, ora.

O alcaide e a versão paulistana apavorada do Izzy Osbourne brincando de varrer a Paulista.

Que continua suja a vinte metros do espetáculo. Fiscalização da varrição parece que não faz parte do Cidade Linda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas São Paulo resistirá.

Essa história de Cidade Linda sempre me lembra (por quê?) a famosa linha do Hamlet: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”.
CidadeSempre haverá algo – muito – de podre nessa ideia de uma cidade limpinha e cheirosa. Talvez aquela que poderia ser vítima de uma bomba de nêutrons, com todos mortos e o espaço desinfetado.

O Humberto Werneck desafiou seus leitores, no FaceBook, a comentar sobre o assunto. Eu comentei que se tratava de uma política higienista que queria esconder os pobres. Uma senhora respondeu a meu comentário (aliás, sobre a remoção dos moradores de rua nos arredores da Praça 14Bis), perguntando se eu morava por perto por que ela, com duas filhas, não conseguia descer na parada de ônibus ali, supostamente com medo daqueles moradores.

Moro perto dali. Confesso que raramente uso ônibus, mas desci naquele ponto algumas vezes, em particular quando queria comprar alguma coisa no supermercado da praça. E me sinto mais ameaçado quando passo de automóvel por ali. Nessas ocasiões eu viro um alvo de verdade.

Mas a observação da senhora, evidente apoiadora da limpeza do alcaide, me remeteu diretamente a uma crônica recente do Veríssimo, no qual ele comentava sobre a questão da empatia (era a propósito do massacre de Manaus).

A questão é que essas pessoas não tem a menor empatia para com os pobres. Para eles, estar na rua é sinônimo de preguiça, drogadição, alcoolismo. Esquecem simplesmente que vivem em um país com altíssimos índices de desigualdade social, miséria e quebra das estruturas tradicionais que apoiavam a existência de tantas famílias expulsas do campo, e atraídas pelo cintilar da metrópole.
O egoísmo dessa gente supera a presença de uma característica essencial que nos faz humanos: a empatia para com o próximo. Vai ver que são carolas que não perdem a missa dominical, e certamente foram para as passeatas pedir o golpe.

A canção emblemática do Caetano Veloso se faz mais atual que nunca. Nem tanto pela esquina da Ipiranga com a São João, e sim pelo conjunto da letra. Nós que a cantarolamos, principalmente a primeira estrofe, devemos nos lembrar da letra inteira:

Sampa – Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim, Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes
E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

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A MÁRIO DE ANDRADE E SEU NOVO DIRETOR

André Sturm, o novo Secretário Municipal de Cultura, confirmou a indicação do ex-editor e colecionador de arte Charles Cosac como novo diretor da Biblioteca Mário de Andrade.

Quando soube da notícia, pensei logo em escrever sobre o assunto.

Mas o Maurício Meireles, paraense (ou roraimense, nem sei!), importado pela FSP, já falou praticamente tudo que eu queria dizer.

Por isso, remeto à sua coluna de sábado, dia 7 de janeiro.

A partir da própria coluna, sabemos que Charles Cosac não entende bulhufas de mercado editorial. Certamente entende de publicar belos livros, mas de mercado editorial nada de nada. E tenho minha dúvidas – amplas e fundamentadas – de que gostar de livros, “ser humanista” e haver frequentado bibliotecas seja qualificação suficiente para dirigir uma biblioteca do porte da BMA, a segunda maior do país e supostamente cabeça (ou modelo) de um sistema com mais de cem unidades.

Bom, esperemos.

Não tenho lá muitas esperanças. Talvez a BMA se transforme em uma bela galeria de arte, exibindo obras dos artistas que Cosac admira.

Quem sabe, poderá ser comparada à gestão do Pedro Correa do Lago na BN, cargo que Mindlin recusou porque “iria se sentir como a raposa dentro do galinheiro”. Fez bem. E ainda bem que o Cosac não é bibliófilo.

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O NATAL QUE HERDAMOS E SUA HISTÓRIA

Passado o natal cristão, é bom lembrar inúmeras observações que geralmente se repetem ano a ano: festa de família, comercialização – ao lado da celebração religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de católicos praticantes. Os protestantes puritanos chegaram a proibir essa comemoração, como herética, e mesmo depois da suspensão desse tipo de édito, o natal é uma festa menor nos EUA, por exemplo, que a celebração do Dia de Ação de Graças, oura mitologia propriamente estadunidense.

Entretanto, o caráter mitológico do natal é geralmente pouco lembrado. Como disse meu amigo e professor Rodrigo Montoya (em um post no FB sobre essa festa), “Todo mito es una ficción creada a partir de muchos fragmentos dispersos de realidades que van cambiando con el tempo”. E quero aqui lembrar um pouco as informações disponíveis sobre o assunto.

A existência de um personagem histórico, o Jesus do Novo Testamento, é hoje quase consensual. Existe ainda alguma disputa, mas a maioria dos historiadores concorda que Jesus foi um dos tantos profetas judeus que predicavam durante o reino de Herodes, o Grande, em uma palestina já vassala dos romanos (para informações mais amplas sobre os vários tipos de dominação romana, um livro útil é o da historiadora e arqueóloga britânica Mary Beard: “SPQR: A History of Ancient Rome”,  disponível em inglês em ebook Kindle por R$ 27,00 – ótimo livro síntese).

Jesus provavelmente foi discípulo de outro profeta, conhecido como João Batista, e que as autoridades consideravam, na época, muito mais subversivo. Mas a cronologia é bem complicada. É bom lembrar que os chamados evangelhos canônicos (reconhecidos pela Igreja Católica), foram escritos entre os séculos I e III da nossa era, e nenhum de seus autores, na verdade anônimos, chegou a conhecer pessoalmente o personagem central. Eram parte dos chamados epígonos, os herdeiros do profeta, que consolidam e formalizam seus ensinamentos em uma instituição de poder (como foi o caso), e os transformam em seita ou religião.

Mesmo assim, as referências bíblicas são vagas e imprecisas. Mencionam a viagem do casal José e Maria a Belém para um censo, provavelmente durante o reinado de Herodes. Mas qual a data desse censo (uma prática instituída pelos romanos), está longe de ser consensual.

De qualquer maneira, é praticamente certo que não teria sido no inverno, que é extremamente rigoroso na Palestina e dificultaria muito o deslocamento de pessoas.

De qualquer modo, os primeiros cristãos não costumavam celebrar o nascimento de Jesus como tal. Muitas comunidades optaram por celebrar a que ficou conhecida como primeira Epifania (revelação manifestada a partir de algo inesperado). No caso cristão, quando Jesus “se revela” como Deus. No caso, a primeira delas é a adoração dos chamados “Reis Magos”.

O natal, como festa de celebração do nascimento de Jesus, passou a ser considerado só no Século IV da nossa era. A data de 25 de dezembro é o solstício do inverno no hemisfério norte, o dia em que as noites começam a diminuir e o a luz solar se expande pouco a pouco, até o solstício do verão, geralmente 24 de junho, onde se inicia o movimento contrário. Isso no hemisfério norte. No sul, onde estamos, as estações se invertem: o nosso solstício de inverno é em junho e o do verão em dezembro.

O solstício do inverno celebrava, para os romanos, o nascimento do sol, o deus-sol invicto (natalis invicti Solis). Nessa ocasião se davam as celebrações das saturnálias (que incluíam troca de presentes) e o solstício era um festival pagão muito popular e considerado. Dito seja que Constantino, o imperador romano que oficializou o cristianismo como religião do Império, havia sido sagrado exatamente tendo como patrono o tal deus-sol invicto. O inverno, nas sociedades agrárias como as da antiguidade, é o momento de encerramento das colheitas, celebrações, eventualmente dedicação a trabalhos artesanais dentro de casa, etc.

O Cristo como Sol. Mosaico em tumba no Vaticano.

Os primeiros cristãos já haviam desenvolvido o hábito de incorporar datas e celebrações pagãs em suas festividades. A prática, denominada de sincretismo, foi amplamente empregada através dos séculos, para dar uma capa cristã e incorporar crenças pagãs ou de outras religiões no calendário cristão.

A chamada conversão de Constantino aconteceu em 312, depois de sua vitória na batalha da ponte Mílvia, no dia 28 de outubro daquele ano, quando derrotou seu rival Magêncio, supostamente por haver incorporado a cruz cristã ao escudo de seus soldados. Quarenta e oito anos mais tarde, o Papa Júlio I, depois de “investigação pormenorizada” feita por astrônomos, declarou oficialmente a data como a do nascimento de Jesus. Uma “coincidência” fabulosa com a celebração do deus-sol patrono de Constantino. Não foi a primeira nem a última manifestação de oportunismo que a igreja romana praticou. Continue lendo

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NOVO LIVRO DA MARIA JOSÉ SILVEIRA A CAMINHO

Nos próximos dias. Primeiro em e-book, depois impresso.

We few, we happy few, we band of brothers 

(Nós poucos, felizes poucos, bando de irmãos)

W. Shakespeare, Henrique V

Vinte e um anos de ditadura e onze contos. Os poucos “felizes poucos”, desta vez, não foram os que venceram a Batalha de Agincourt. São os militantes que lutaram contra a opressão, em vinhetas do cotidiano, de luta, de reflexão sobre o que aconteceu, sobre as vitórias parciais e a derrota (que fica cada vez mais evidente com essa “ditadura em transição” na qual vivemos agora).

capa-curingaO Curinga

Minha cara leitora, meu caro leitor:
A autora foi me buscar, vozinha de órfã perdida no bosque da literatura, “Por favor, me ajuda”.
Não é de hoje que conheço essa autora, sei o quanto é dissimulada. Precavido, perguntei, “Ajudar em quê? Você é tão boa! Por que precisa de mim?”, “É que desta vez meu tema é mais complicado”, ela respondeu. “Ééé?” ecoei.
“Vou falar explicitamente de política. Ditadura. Luta armada. Esses tempos. Queria que você alegrasse um pouco meu tema, oferecesse aos leitores um respiro de ar fresco, um copo-d’água da fonte.”

Os contos deste livro tratam de vários momentos da luta contra a ditadura civil-militar que, por 21 anos, controlou o país. Passam pelo campo, pela fábrica, pela luta armada, pela clandestinidade, prisão e exílio, e chegam até a Anistia e a continuação do trabalho político. Falam de uma geração que viveu esse tempo, com todas as suas consequências. E o faz com uma forma literária criativa e inovadora como poucas vezes vemos.

É o primeiro livro de contos de Maria José Silveira, premiada romancista, traduzida em vários países. É um livro sobre momentos do passado que, assustadoramente e apesar de todas as diferenças, podem estar voltando.

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UMA EXPERIÊNCIA GRATIFICANTE

hamlet Assisti ontem o DVD que o Kenneth Branagh filmou da versão completa do Hamlet. Foi editada pela Versátil,  e um amigo me emprestou. Já havia assistido a primeira parte, também emprestada, felizmente com as legendas em inglês. Mas enfrentar o bardo assim direto não é fácil…
Foi uma experiência imensamente gratificante.

Geralmente as encenações da peça são feitas com cortes, e raramente é encenada integralmente. Acredito que, filmada, esta seja única. São mais de quatro horas da peça, além de quase uma hora de extras (muito bons), que o segundo DVD trás.

É importante destacar que não se trata da filmagem de uma montagem teatral, e sim de um filme com o texto integral. Em ópera, acho que a versão do Don Giovanni (Mozart), filmada pelo Losey, de 1979 (também editada pela Versátil) seria equivalente em qualidade.

A encenação está magnífica, os atores ótimos. Branagh aproveita atores que já fizeram o papel principal há anos, como Derek Jacobi, que assume o papel de Claudius, Sir John Gielgud, que faz uma ponta como Príamo (junto com Judi Dench – Hécuba). Além disso, não hesita em usar atores hollywoodianos, que se saem muito bem: Jack Lemmon como Marcellus, Julie Christie como Gertrudes, Billy Crystal como um dos coveiros, Charlston Heston, como o rei da troupe ambulante, Robin Williams (Osric) e Kate Winslet, maravilhosa como Ophelia.

Além do estúdio, as cenas no Palácio de Blenheim são suntuosas, e os cenários são muito bem feitos. A ação é transportada para um tempo mais ou menos indefinido entre os séculos XVIII e XIX, que fica muito bem.

Um único senão no DVD é a ausência do crédito da tradução.

Acredito que tenham usado o texto do Millor Fernandes, que é bem fluente, nada pomposo como a de F. Carlos Almeida e Oscar Mendes, da já velhusca edição da Nova Aguilar. Não tenho em mãos a edição do Millor, mas minhas suspeitas derivam do fato do espectro do pai de Hamlet, ao descrever seu envenenamento, usar a palavra ébona, que foi usada por Millor (e que não está no Houaiss, no Aurélio, no Porto nem no Michaellis). A edição da Nova Aguilar usa meimendro, para denominar o veneno.

A ausência do crédito do tradutor é uma falha grave de informação. Felizmente não chega a estragar a beleza da encenação e a importância do DVD.

Recomendo vivamente.

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CAETANICES

CAETANICES

Ele não resiste. Cara inteligente, ótimo cantor (já foi ótimo compositor…), mas de vez em quando fala umas bobagens…

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Comentando o lançamento do belíssimo CD do António Zambujo, com músicas do Chico Buarque, Caetano pespega a declaração (dupla) e errada: “Suponho que este seja o primeiro álbum de um cantor português composto apenas de canções brasileiras. Estou seguro de que ele é o primeiro dedicado a um só autor brasileiro de canções” (OESP, 17/10/2016).

Erra nas duas afirmações.

Eugénia de Melo Castro faz um trabalho de divulgação da música brasileira em Portugal há anos. E já lançou álbuns dedicados exclusivamente ao Vinícius e ao próprio Chico Buarque.

Eugénia é um personagem. Conheci-a quando preparava a edição brasileira (a primeira) do clássico Peregrinações do Fernão Mendes Pinto, pois usei a atualização ortográfica e a divisão em parágrafos da edição portuguesa preparada por sua mãe, Maria Alberta Menéres, escritora, e do poeta E. M. de Melo e Castro, prestigiadíssimo, que inclusive morou em S. Paulo e deu aulas na USP.

Eugénia, aliás, estará em S. Paulo com espetáculo a partir de sexta-feira no Teatro do MUBE:

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Os dois discos (acho que na verdade tem até mais que esses), dedicados exclusivamente a um “autor brasileiro de canções” são os seguintes:

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Os links para o site dela:

http://www.eugeniameloecastro.com/  http://www2.uol.com.br/eugeniameloecastro/old/descontrucao.html

Ela também está no FB: https://www.facebook.com/eugeniamc?ref=name

Às vezes acho que sofro de uma versão mais suave da síndrome de Funes, el Memorioso. Isso ainda vai me dar problemas…

E não percam o CD do Zambujo. É mesmo ótimo…

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ARROGÂNCIA

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Na época da Constituinte, um amigo meu, deputado, me convidou para almoçar, lá em Brasília. Apareceu com o Roberto Freire. Naquela ocasião ficou claro, para mim, que o ódio que ele cultivava ao PT vinha de um simples fato: o então chefão do “Partido do Proletariado”, alcunhado de pecezão, estava desesperado com o surgimento de um partido que, sem se arrogar ser “o” representante exclusivo do proletariado, tinha real apoio dos operários, e muito além disso.

Era a arrogância misturada com o ressentimento e a inveja. E o início da desabalada carreira para a direita que o levou ao colo de Temer, Alkmin e Serra, sem conseguir mais se eleger nem síndico em Pernambuco.

Hoje, nos jornais, o Ivan Valente, vice da Erundina, repetiu o espetáculo da arrogância e do ressentimento, dizendo que a candidatura da Luiza era “a única de esquerda”.

Respeito a decisão dela de se candidatar. Critico-a pela candidatura personalista e por ter buscado o PSOL paulistano para servir de “barriga de aluguel” para um projeto pessoal e divisor, quando não conseguiu registrar mais um partido “para chamar de seu”, o tal Raiz.

Mas não respeito o Ivan Valente, embora espere que ele não siga a trajetória do pernambucano

De passagem: morasse no Rio, nessas alturas, votaria no Freixo. E em Belém, no Edmilson.

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CASTRO ALVES CHORA JANAÍNAS E CUNHAS

Castro_Alves03 Estava eu, sonolento após levar a surra mental do sodalício reunido quando, em um ectoplasma radioso, põe-se diante de mim o Poeta Libertário, chorando.

Diz-me, voz embargada que, do etéreo vira, gente que dizia representar sua alma mater, Uma harpia e um careca de olhar esgarço vomitarem tudo que negava a alma da velha casa.

Pediu-me, tremendo, que abandonasse por um instante meu espírito materialista,

E transcrevesse, ainda impolidas, o que do peito lhe brotava, lembrando sua saga antiescravista.

E tascou o que eu, mão trêmula, copiei:

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado numa Janaína?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

 

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na Cunha penedia

 

Cem mil pastores, dizem

Evangélicos que são

Em contas nos altos Alpes mamam

E do teu filho Jesus.com são

 

— Infinito: galé! …

Por abutre — me deste o sol seco do Planalto,

E o Congresso do Brasil — foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

Da mulher louca e caprichosa,

Insana e cortesã.

Do rosto o esgar mostra;

Dos cabelos medusas assanha,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

 

Idiotas após ela — loucos amantes

Seguem cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

 

Nem veem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu. 

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

 

Jesus.com! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos — alimária do universo,

Eu — pasto universal…

 

Hoje em meu sangue a hipocrisia se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 

Basta, Senhor!  De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

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CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – ESPAÇO ABERTO

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O Centro Cultural São Paulo,também conhecido como Centro Cultural Vergueiro, é um dos espaços públicos mais interessantes da cidade. E por muitas e diversificadas razões.

Recentemente fui até lá para ver a exposição ANTONIO BENETAZZO, PERMANÊNCIAS DO SENSÍVEL e, como sempre, fiquei admirado e de certa forma comovido com o que vi.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Não apenas dezenas de jovens (ou não tão jovens assim) aproveitando o wi-fi grátis da Prefeitura. A Biblioteca Sérgio Milliet lotada. É a segunda maior biblioteca pública da cidade, menor apenas que a Mário de Andrade. E é a única aberta sábados, domingos e feriados (como, aliás, deveriam ser TODAS as bibliotecas públicas), com acervo razoavelmente atualizado, tanto de livros como de revistas.

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Os outros equipamentos permanentes do CCSP também são muito bem frequentados. A Biblioteca Alfredo Volpi, cujo acervo é composto por catálogos de exposições de artes indexados pelo nome do artista, livros sobre artes plásticas, arquitetura, fotografia, moda, recreação e artes performáticas, além de periódicos e CDs-Rom. Destaque para a coleção da revista Cinelândia, publicada entre as décadas de 1950 e 1960, e para os mais de onze mil catálogos de exposições, dos quais 5.247 já estão indexados pelo nome do artista, em um banco de dados que, em breve, será disponibilizado pela internet. Pode ser frequentada de terça a domingo. Considero a coleção de catálogos como um dos aspectos mais importantes da Alfredo Volpi. As exposições passam, a documentação fica, e essa memória é inestimável.

E ainda há também uma biblioteca Braille, a Gibiteca Henfil, uma sala de leitura de títulos infanto-juvenis, um laboratório audiovisual e uma área para Culturas Surdas. As duas categorias de deficientes físicos mais ativos e com necessidades bem específicas de acesso estão, assim, atendidas. Além, é claro, do espaço ser acessível para cadeirantes.

Entre as coleções permanentes do CCSP destaco, em particular, a Discoteca Oneyda Alvarenga e a Coleção de Arte da Cidade. Oneyda Alvarenga foi colaboradora de Mário de Andrade, sobretudo na área das gravações de música popular e folclórica, e iniciou a organização da discoteca, ainda na Biblioteca Mário de Andrade. Uma boa parte do acervo já está digitalizado e disponível no portal da discoteca, facilitando a consulta. O acesso direto ao material original precisa ser agendado e é feito com supervisão, até porque o material é sensível. Além das gravações, a Oneyda Alvarenga disponibiliza partituras. Parte importante é o acervo da Missão de Pesquisas Folclóricas, projeto de levantamento etno-musical desenvolvido por Mário de Andrade ainda na década de 1930. O SESC-SP ditou uma caixa com seus CDs com uma seleção do material gravado. O conjunto está totalmente catalogado e disponível para pesquisas na discoteca.

No entanto, o visitante fica mesmo impressionado é com a diversidade de atividades – organizadas e livres – que acontecem simultaneamente no CCSP. Além dos frequentadores das bibliotecas e acervos permanentes, e dos que usam o wi-fi livre, a quantidade de grupos reunidos ali para estudar, conversar, ensaiar teatro e dança é impressionante. Nota-se que são grupos de jovens que chegam porque o CCSP é simplesmente um espaço aberto e livre para essas atividades. Então, tem gente ensaiando street dance, esquetes de teatro ou partes de peças, fotografando ou simplesmente passando o tempo. IMG_1446 IMG_1447 IMG_1448 IMG_1451 No dia em que fui, além da exposição do Benetazzo (que se encerrou domingo, dia 29 de maio), havia uma grande exposição do British Council, com várias atividades, exposição de fotografias, de cartazes. Tinha até uma horta orgânica no jardim superior (uma parte da área está fechada para reparação e conservação). Programação de cinema, de teatro – inclusive o espaço para teatro experimental, que há pouco foi reinaugurado com melhorias técnicas.

Uma das atividades importantes que correm junto a todas as demais é o serviço de documentação do Centro. Não apenas recolhe o material do que acontece ali, como em várias outras atividades da Prefeitura. Uma das coleções importantes é da Arte da Cidade, que administra obras adquiridas e doadas à Prefeitura. Iniciativa de Sérgio Milliet que, em 1945 instituiu a Seção de Arte na Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), da qual evoluiu a Pinacoteca Municipal e a atual coleção do CCSP, que administra cerca de 2.900 obras de arte em vários suportes, com peças do Século XIX e contemporâneas. Parte da coleção está no CCSP e existem obras em outros prédios municipais de acesso público. Além disso, possui seis coleções de Arte Postal, com dez mil peças no total, e que é uma das maiores coleções do gênero na América Latina.

O serviço de documentação apoia também as atividades da Virada Cultural, cadastrando grupos interessados em participar. Soube que, nas últimas edições, mais de cem saraus literários se inscreveram para participar de atividades.

Fuxicando no site do CCSP descobri que existe uma Associação de Amigos. Mas não há muitas informações. Pretendo visitar novamente o CCSP e perguntar a seu atual diretor, meu amigo Pena Schmidt, sobre o assunto.

Enfim, um mundo diversificado, uma experiência de convivência democrática e aberta bem digna de S. Paulo.

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