O MINISTRO VDM E AS DECLARAÇÕES DO TEMER (E O BEIJA-MÃO DO CHICO ALENCAR)

Luís Fernando Veríssimo volta e meia faz uma crônica sobre o que ele considera ser um personagem imprescindível nas altas esferas do poder: o Ministro Vai Dar Merda. O MVDM seria um personagem obrigatoriamente presente em todas as reuniões e, sua principal virtude, ser dotado de um bom senso comum. Aí começa o problema: ao contrário do que supunha o otimismo dos Iluministas, o senso comum é uma das características mais raras nos seres humanos. O mais comum é mesmo a estupidez.

Pois bem, o MVDM, usando do sentido comum, alertaria seu chefe, o presidente, de que tal ou qual proposta fere o sentido comum, e vai dar merda…

Ah, o quanto um bom MVDM pouparia de problemas! Podem pensar na lista.

Mas o MVDM não seria capaz de influenciar em grandes decisões, aquelas realmente estratégicas.

Imaginem o MVDM comentando com o Lula que a ideia dele de indicar a Dilma como sua sucessora, e na companhia do Temer, certamente iria dar merda…

Lulinha nem iria dar bola, porque outro fator da natureza humana entraria em jogo: a ilusão que têm os ocupantes de cargos eletivos, no executivo, de que, ao indicar seus sucessores, terão nestes um seguidor fiel, quase que eles mesmos reencarnados no indicado(a). Isso jamais aconteceu, e jamais acontecerá. Outro grande autor de aforismos (que nem sempre seguia), o Dr. Ulysses Guimarães, dizia que “o dia da nomeação (ou indicação) é a véspera da ingratidão”. O sujeito puxa o saco do chefe, pinta e borda para merecer sua confiança e conseguir a nomeação, como ministro, aspone, membro do STF ou do TCU, os escambaus. No dia seguinte à nomeação, declara solene: “Foi por meus próprios méritos”.

Pois bem.

Quando ouvi a nossa estimada ex-presidenta discursar em público pela primeira vez, quando da Conferência Nacional de Cultura, ouvi-a dirigir-se à grande plateia em Brasília como “congressistas”. Na terceira vez, Lulinha interrompeu: “Não, Dilminha, os congressistas estão ali do outro lado da esplanada. Esses aqui são delegados”.

Pensei lá com meus botões: vamos carregar uma mala sem alça e sem rodinhas. Mas não achava que chegasse à tragédia que chegou.

Como veem, é fácil provar a importância e a necessidade do MVDM. Difícil é achar um bom de verdade e mais ainda acreditar em suas previsões, nascidas do bom senso.

Pois bem, em relação às recentes declarações machistas e homofóbicas do Espúrio, Antonio Prata voltou a lamentar que não houvesse alguém ao lado da Espúria Excelência para dizer-lhe  que aquele linguajar estava ultrapassado há cem anos, e que ele mexia num vespeiro.

Ledo engano, caro Pratinha.


O Espúrio Temeroso falou não apenas do fundo do coração – e não como um árabe do século XIX (cuidado para não generalizar com meus antepassados) – e sim como alguém que, no fundo pretende, gostaria, tem como objetivo político exatamente isso: fazer as mulheres – e os gays e toda essa cambada de tipos que questionam a moralidade pequeno burguesa – regressar aos seus devidos lugares.

Não vai conseguir.

Mas, para quem tem aplicado com firmeza o plano de esculhambar e jogar o Brasil de volta para os “Anos Dourados”, isso é fichinha. Ele tenta e continuará tentando, com a bonequinha ao seu lado sorrindo, meiga, recatada e do lar. E procurando os aplausos daquilo que o Nixon já chamou de “maioria silenciosa”, que deixou de bater panelas mas continua certamente apostando na agenda regressiva do Temeroso.

Também acho complicado pensar que o aspone VDM do Deputado Chico Alencar tivesse habilidade suficiente para evitar que seu chefe beijasse a mão do Aécio no regabofe em “homenagem” ao Noblat.

Além de bom senso comum, o aspone VDM teria que ter uma agilidade de maratonista olímpico e um senso premonitório de primeira classe, para dar um tapa no Chico antes que ele aproximasse o rosto da mão do Aecinho…

Mas, falando sério (ou não) sobre esse episódio, faço questão de lembrar que bons modos são requisito geralmente necessário no parlamento. Afinal, negociações e discussões não precisam ser feitas com o fígado, e as conversas com pessoas que nos sejam agradáveis são feitas em outros ambientes. Na Câmara e no Senado, trata-se de outra coisa.

Chico Alencar, até agora, tem se revelado um parlamentar consequente e agido de acordo com suas convicções políticas.

Pode ter bebido uma ou duas doses a mais no regabofe do Noblat (e por que ninguém se lembra de perguntar quem pagou? Alguma agência de publicidade? Uma empreiteira? Ou que outro tipo de prestador de serviços ao governo? Ou terá sido mesmo uma modesta recompensa paga pelos Marinho a um escriba que tão bem lhes serve?) e cometido um ato impensado.

A questão é estar atento ao que aquele velho alemão nascido em Trier chamava de “cretinismo parlamentar”, quando as necessárias regras da convivência deixam de sê-lo para se transformar em contubérnio.

Mas que os vários VDM fazem falta, lá isso fazem.

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