GREVE DA POLÍCIA E ANOMIA

LIMA, 6 DE FEBRERO DE 1975. O centro de Lima em chamas

A primeira observação sobre o episódio da greve da polícia do Espírito Santos, que ameaça se estender por outros estados, é a de que já enfrentamos, em tempos recentes, uma situação parecida, com greves nas PMs da Bahia e do Rio de Janeiro, em 2012. O caso foi complicado e as greves só terminaram quando o governo concedeu reajustes salariais aos policiais.

Naquela ocasião, o número de assassinatos, roubos e saques cresceu exponencialmente durante a greve, diminuindo apenas quando o Exército assumiu o policiamento, que foi mais extenso e com um efetivo maior do que o que está sendo usado atualmente no Espírito Santos.

O mesmo tipo de situação se configura agora: polícia em greve, apoio das mulheres e familiares para disfarçar a mobilização (já que, em tese, a polícia não pode fazer greve…), aumento dos crimes.

A propósito, quero lembrar uma experiência que vivemos em Lima, no Peru, em fevereiro de 1975.

Morávamos em Lima, como exilados. Lá pelos dias 3 e 4 de fevereiro daquele ano, já havíamos notado que o caótico trânsito de Lima havia piorado muito, com a que nos pareceu, então, uma diminuição do policiamento.

No dia cinco, tínhamos um encontro com um de nossos professores de San Marcos, para revisar alguns pontos de interesse comum na matéria. Pelo meio da tarde começamos a notar colunas de fumaça no centro, e o rádio anunciou que a polícia estava aquartelada e a cidade sem policiamento.

Conseguimos voltar para casa, tomando um dos táxis limenhos (eram todos piratas, na ocasião), e ficamos ouvindo o rádio atrás de notícias.

Logo chegaram informações de que multidões estavam circulando pelo centro, invadindo e saqueando lojas. Uma multidão também estava cercando o jornal Expreso, que havia sido expropriado e estava controlado pelos jornalistas.

O exército cerca manifestantes no centro de Lima

O presidente, Velasco Alvarado, estava enfermo há algum tempo. O poder de fato já era exercido pelo primeiro ministro, Morales Bermúdez, que meses depois cometeu um golpe dentro do golpe (ou dentro de “la revolución”, como queiram), e assumiu a presidência. Para controlar a situação, Morales não havia dado ordens para mobilização do exército, revelando cisões dentro da cúpula governamental e do próprio exército.

Ao longe as colunas de fumo mostravam que, no centro, a situação era muito complicada.

No final da tarde, o exército saiu dos quarteis. Ocupou o quartel da polícia e partiu para reprimir os saqueadores.

No dia seguinte, com Estado de Emergência decretado e toque de queda, começaram a aparecer alguns detalhes.

– A multidão invadiu enfurecida as lojas do centro da cidade, grandes e pequenas. No Jirón de la Unión, uma das ruas comerciais próximas à Plaza de Armas, a violência foi enorme. Não só ali, como também nas grandes lojas. O saque foi generalizado, não apenas de alimentos e roupas, como também de eletrodomésticos. Repartições públicas atacadas viram todas suas máquinas de escrever levadas pelos saqueadores.

As máquinas de escrever das repartições públicas, especialmente do SINAMOS, o órgãos de mobilização do governo militar peruano.

– A redação do Expreso esteve cercada por várias horas, com os jornalistas se defendendo, armados, contra a multidão.

– Uma das fotos mais chocantes publicadas depois mostrava uma pequena joalheria no Jirón de la Unión com sete cadáveres: o dono da loja, armado com um revólver, abateu os seis primeiros invasores. O sétimo o matou.

– Os relatos e as notícias mostravam uma situação que parecia estar muito próxima da anomia. A multidão mostrava ter muita raiva do governo, mas era constituída basicamente dos moradores das barriadas (favelas) da área do Rímac, e de Pueblos Jóvenes (favelas montadas em terrenos invadidos) da periferia da cidade.

O ataque ao Expreso e a outros jornais controlados pelos jornalistas, favoráveis à chamada “Revolución de las Fuerzas Armadas”, e o fato de jornais conservadores, como El Comércio, terem sido poupados, levantou a gritaA suspeita era de que, se não provocada diretamente, foi pelo menos instrumentalizada, a partir de algum momento, pelos militantes do APRA.

O APRA é uma história peculiar do Perú. Nasceu como um partido populista “de esquerda” nos anos 30, fundado e dirigido por Haya de La Torre, um intelectual que passou vários anos presos e depois foi exilado. O presidente derrubado pelos militares, Belaúnde Terry, era do APRA (Belaúnde voltou mais tarde à presidência, eleito novamente, assim como outro “discípulo jovem” de Haya de La Torre, Alan García, que terminou o mandato acusado de corrupção pesada).

O APRA, portanto, teria todas as razões para estimular a revolta.

Uma análise posterior mostrou que o APRA efetivamente se infiltrou na manifestação e conduziu principalmente os ataques aos jornais e repartições.

Mas o impressionante foi o fato de que a população marginalizada, provavelmente estimulada não pelo APRA, mas pela marginalidade, percebeu a ausência do policiamento e promoveu os saques.

Quando o exército saiu dos quarteis, ocupou sem maiores problemas o quartel da polícia, mas reprimiu selvagemente a população nas ruas. Nada de tiros para o alto: as metralhadoras dos tanques disparavam direto na multidão, ceifando um número até hoje indeterminado de vítimas. Foi um banho de sangue.

Consideramos que aquele momento, embora incentivada pelo APRA, foi uma amostra do mais próximo que poderíamos pensar de uma situação anômica. A multidão se revoltara para saquear e simplesmente isso. Não havia, de fato, nenhuma direção política aparente (salvo nos já mencionados grupos que atacaram os jornais). Era uma massa descontrolada que invadia, quebrava e saqueava o que foi vendo pela frente.

Uma experiência que, sinceramente, não gostaria de reviver.

Especialmente pelo caráter anárquico e descontrolado daquilo tudo. Não era uma multidão em busca de derrubar o poder, conquista-lo para si ou para quem quer que seja. Era simplesmente a expressão do ódio e da raiva… e da ganância. A extensão dos saques mostrou que realmente não haviam objetivos políticos, e sim a mais visceral manifestação de ódio e raiva, com o fundo das carências materiais da população.

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