DESINFORMAÇÃO, FAKE NEWS E DIFAMAÇÃO – DESDE ANTES DA INTERNET

De repente, todo mundo constatou que a tal de “Fake News” era realidade. Ufa! Com a revelação das presepadas da Cambridge Analytic  e seus sucedâneos, assim como o uso e abuso do FB pelo candidato que ganhou a eleição e agora finge que governa.

O caso mais recente, do ataque bolsonarista contra a jornalista Constança Rezende pela apuração que ela fez das movimentações queirozistas detectadas pelo COAF, me fez lembrar um livro que editamos em 1992, pela falecida Marco Zero. O livro “A Culpa é da Imprensa! – Ensaio sobre a fabricação da informação”, de autoria de Yves Mamou, jornalista francês que foi editor do Le Monde e trabalhou em vários outros meios de comunicação.

O livro parte do reconhecimento de que eventualmente a imprensa engana e manipula, e muitas vezes chega a reconhecer que foi manipulada, quando só receberam informações distorcidas e parciais (mas às vezes são também cúmplices na publicação dessas notícias, fingindo inocente). E o autor descreve várias instâncias disso.

O que lembrei, entretanto, foi de um caso específico que Mamou relata. É o de uma briga entre Edmond Safra, o banqueiro que morreu assassinado em um incêndio em Monte Carlo, e Jim Robinson, então presidente do banco American Express. Coisa de dinheiro grosso, como sói acontecer entre banqueiros. A briga entre os dois se cristaliza em 1984, e continua até 1987, azedando cada vez mais e levando a uma disputa entre o American Express e Safra nos tribunais suíços, que não aceitou as queixas.

Duas semanas depois que Safra inaugurou seu novo banco, um jornal de Mônaco publicou uma denúncia que o ligava à máfia, traficantes de drogas peruanos, a CIA e o escândalo do Irangate. O jornal era La Depêche du Midi, importante na região, e citava matéria do jornal peruano Hoy. Semanas mais tarde, o jornal francês publica uma série de quatro artigos com acusações ainda mais pesadas contra Safra.

Safra dependia de boa reputação para a condução de seus negócios, e tinha dinheiro mais que suficiente para pagar advogados e detetives para desenredar o troço. Acabou mostrando que o Banco American Express contratou uma firma de “relações públicas” para montar secretamente uma campanha de difamação contra ele, que começava no eixo Peru – Bolívia e seguia pela América Central e México até ser reproduzida e legitimada pelas frequentes reproduções de jornais, pelo La Depêche du Midi e outros jornais não apenas da França, de onde se espalhou para os EUA.

Safra então levou aos tribunais Jim Robinson, o banco, os operadores da campanha e outros executivos, ganhou uma bela indenização, prosseguiu nos seus negócios, mas volta e meia tinha que desmentir notícias difamatórias que pipocavam por ali e acolá, ainda a partir das primeiras notícias.

No caso brasileiro, aparentemente a reação foi iniciada pelo belga-marroquino Jawad Rhaib, que publicou a notícia de que a Constança Rezende  e o Estadão estavam em campanha para destruir o governo do Bozo. O blog era insignificante, tinha apenas uns vinte seguidores, mas a notícia “repercutiu” em um jornal da extrema direita dos EUA e depois passou a circular pelos blogs bolsonaristas aqui no Brasil, a partir de uma “entrevista” que a jornalista havia dado a um estudante e pesquisador de uma universidade dos EUA. Essa filiação universitária do sujeito nunca foi comprovada.

Como se pode ver, a técnica é a mesma. Primeiro se usa um meio sem nenhuma expressão, como é o caso do blog do Rhalib, e a partir daí os interessado manipuladores vão provocando as “repercussões” e reproduções, eventualmente enfeitadas com mais detalhes, como é o caso da “entrevista” com um falso pesquisador gringo.

A novidade de agora é que a Internet aumenta a velocidade de propagação da desinformação. Mas também facilita seu desmascaramento, exceto para os crentes da bolha, que continuam acreditando e reproduzindo a falsificação que lhes interessa.

E aí restam duas lições. A primeira é que essa técnica das Fake News como instrumento difamatório antecede – e muito – o uso disso por Trump, pelos bolsominions e quejandos. A segunda é que os jornalistas brasileiros e todos nós temos que ser mais espertos: uma fonte desconhecida deve ser tratada com desconfiança, e falar inglês não é credencial nenhuma.

O livro de Yves Mamou só se encontra hoje em sebos. A História está nas páginas 171 a 176 do livro.

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