O NATAL QUE HERDAMOS E SUA HISTÓRIA

Passado o natal cristão, é bom lembrar inúmeras observações que geralmente se repetem ano a ano: festa de família, comercialização – ao lado da celebração religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de católicos praticantes. Os protestantes puritanos chegaram a proibir essa comemoração, como herética, e mesmo depois da suspensão desse tipo de édito, o natal é uma festa menor nos EUA, por exemplo, que a celebração do Dia de Ação de Graças, oura mitologia propriamente estadunidense.

Entretanto, o caráter mitológico do natal é geralmente pouco lembrado. Como disse meu amigo e professor Rodrigo Montoya (em um post no FB sobre essa festa), “Todo mito es una ficción creada a partir de muchos fragmentos dispersos de realidades que van cambiando con el tempo”. E quero aqui lembrar um pouco as informações disponíveis sobre o assunto.

A existência de um personagem histórico, o Jesus do Novo Testamento, é hoje quase consensual. Existe ainda alguma disputa, mas a maioria dos historiadores concorda que Jesus foi um dos tantos profetas judeus que predicavam durante o reino de Herodes, o Grande, em uma palestina já vassala dos romanos (para informações mais amplas sobre os vários tipos de dominação romana, um livro útil é o da historiadora e arqueóloga britânica Mary Beard: “SPQR: A History of Ancient Rome”,  disponível em inglês em ebook Kindle por R$ 27,00 – ótimo livro síntese).

Jesus provavelmente foi discípulo de outro profeta, conhecido como João Batista, e que as autoridades consideravam, na época, muito mais subversivo. Mas a cronologia é bem complicada. É bom lembrar que os chamados evangelhos canônicos (reconhecidos pela Igreja Católica), foram escritos entre os séculos I e III da nossa era, e nenhum de seus autores, na verdade anônimos, chegou a conhecer pessoalmente o personagem central. Eram parte dos chamados epígonos, os herdeiros do profeta, que consolidam e formalizam seus ensinamentos em uma instituição de poder (como foi o caso), e os transformam em seita ou religião.

Mesmo assim, as referências bíblicas são vagas e imprecisas. Mencionam a viagem do casal José e Maria a Belém para um censo, provavelmente durante o reinado de Herodes. Mas qual a data desse censo (uma prática instituída pelos romanos), está longe de ser consensual.

De qualquer maneira, é praticamente certo que não teria sido no inverno, que é extremamente rigoroso na Palestina e dificultaria muito o deslocamento de pessoas.

De qualquer modo, os primeiros cristãos não costumavam celebrar o nascimento de Jesus como tal. Muitas comunidades optaram por celebrar a que ficou conhecida como primeira Epifania (revelação manifestada a partir de algo inesperado). No caso cristão, quando Jesus “se revela” como Deus. No caso, a primeira delas é a adoração dos chamados “Reis Magos”.

O natal, como festa de celebração do nascimento de Jesus, passou a ser considerado só no Século IV da nossa era. A data de 25 de dezembro é o solstício do inverno no hemisfério norte, o dia em que as noites começam a diminuir e o a luz solar se expande pouco a pouco, até o solstício do verão, geralmente 24 de junho, onde se inicia o movimento contrário. Isso no hemisfério norte. No sul, onde estamos, as estações se invertem: o nosso solstício de inverno é em junho e o do verão em dezembro.

O solstício do inverno celebrava, para os romanos, o nascimento do sol, o deus-sol invicto (natalis invicti Solis). Nessa ocasião se davam as celebrações das saturnálias (que incluíam troca de presentes) e o solstício era um festival pagão muito popular e considerado. Dito seja que Constantino, o imperador romano que oficializou o cristianismo como religião do Império, havia sido sagrado exatamente tendo como patrono o tal deus-sol invicto. O inverno, nas sociedades agrárias como as da antiguidade, é o momento de encerramento das colheitas, celebrações, eventualmente dedicação a trabalhos artesanais dentro de casa, etc.

O Cristo como Sol. Mosaico em tumba no Vaticano.

Os primeiros cristãos já haviam desenvolvido o hábito de incorporar datas e celebrações pagãs em suas festividades. A prática, denominada de sincretismo, foi amplamente empregada através dos séculos, para dar uma capa cristã e incorporar crenças pagãs ou de outras religiões no calendário cristão.

A chamada conversão de Constantino aconteceu em 312, depois de sua vitória na batalha da ponte Mílvia, no dia 28 de outubro daquele ano, quando derrotou seu rival Magêncio, supostamente por haver incorporado a cruz cristã ao escudo de seus soldados. Quarenta e oito anos mais tarde, o Papa Júlio I, depois de “investigação pormenorizada” feita por astrônomos, declarou oficialmente a data como a do nascimento de Jesus. Uma “coincidência” fabulosa com a celebração do deus-sol patrono de Constantino. Não foi a primeira nem a última manifestação de oportunismo que a igreja romana praticou.

É de ser notado, particularmente, que a Páscoa cristã coincide com o Pessach judaico (a última ceia seria a celebração do seder – a refeição ritual judaica que abre as comemorações do Pessach, que celebra justamente o final do exílio judeu). Com as diferenças entre os calendários romano e judaico – o primeiro solar e o segundo lunar – as datas foram se distanciando.

É curioso também que a data celebratória de João Batista – o profeta que teria sido o precursor de Jesus ou, se quiserem, de quem Jesus foi discípulo – passou a ser celebrada exatamente no outro solstício (o de verão no hemisfério norte), dia 24 de junho.

Assim, como diz o professor Montoya, de fragmentos dispersos de realidades (e mitos anteriores), forma-se uma nova mitologia.

São Nicolau, o Bispo. Ícone medieval.

CELEBRAÇÕES E O “PAPAI NOEL”.
Alguns dos ritos natalinos também estão ligados a celebrações pagãs. E de várias origens, já que o solstício era amplamente comemorado por todo mundo antigo. E nas Américas também. O Inti Raimi, a celebração do deus-sol dos Incas, é um exemplo. É celebrado precisamente no nosso solstício de inverno, e com o mesmo significado das celebrações do hemisfério norte: o “renascimento do sol” – invicto e eterno – que inicia novamente seu ciclo de dominação.
A árvore de natal, por exemplo, já fazia parte das celebrações das saturnálias, além de manifestações dos países nórdicos. Consta que Lutero incorporou o pinheiro decorado no natal cristão, inspirado pela paisagem invernal do céu estrelado coroando um pinheiral. As refeições natalinas, as celebrações litúrgicas da véspera e da manhã natalina também têm origem pagã, e de várias fontes.

As saturnálias incluíam rituais de divertimento e inversão dos valores sociais, parecidos com os que posteriormente iriam caracterizar o carnaval. Luciano de Samosata traduz de forma bem clara e concisa as características desse festival:

Que ninguém tenha atividades públicas nem privadas durante as festas, salvo no que se refere aos jogos, as diversões e ao prazer. Apenas os cozinheiros e pasteleiros podem trabalhar. Que todos tenham igualdade de direitos, os escravos e os livres, os pobres e os ricos. Não se permite a ninguém enfadar-se, estar de mal humor ou fazer ameaças. Não se permitem as auditorias de contas. A ninguém se permite inspecionar ou registrar a roupa durante os dias de festas, nem depor, nem preparar discursos, nem fazer leituras públicas, exceto se são jocosas e graciosas, que produzam zombarias e entretenimentos”.

Durante boa parte da Idade Média as comemorações natalinas transcorriam também com esse espírito, misturando rezas e atos litúrgicos com situações praticamente orgiásticas, mais tarde transferidas para o carnaval.

E uma transformação relativamente recente se tornou muito marcante no Ocidente. É a do personagem que aqui chamamos de “Papai Noel”, e em inglês chamado de “Santa Claus”.

Ilustração natalina do século XIX, mostrando o trenó e as renas.

O tal bom velhinho é inspirado na figura do bispo Nicolau de Mira, uma cidade bizantina, que dava condições aos filhos de prostitutas de receberem educação, afastando-os da “má influência” materna. A partir daí se expandiu a ideia de que ele deixava pequenos regalos para as crianças, em sapatos colocados nos beirais das casas, ou dentro de meias penduradas na janela. E também a lenda de que às vezes entrava nas casas pelas chaminés.

As histórias geradas a partir do bispo, principalmente no Norte da Europa, foram incorporando diferentes tradições locais, como deixar comida e bebida para o bom velhinho, a insinuação dos pais que apenas os que tivessem bom comportamento receberiam os presentes, e daí por diante. Mais tarde, instituições de caridade assumiram a distribuição de chocolate quente paras as crianças pobres.

Ilustração do “Merry Old Santa”, do Século XIX, onde o personagem já exibe várias de suas características iconográficos atuais.

A versão em holandês de São Nicolau é conhecida como Sinterklaas, mais tarde americanizada como Santa Claus. A versão latinizada acabou como Papai Noel em português, Pére Noël em francês, Papá Navidad em espanhol, todas derivadas do latim natalis, nascimento. Já em alemão perdeu a referência ao bispo e passou a ser Weihnachtsmann, e por aí seguem as variedades.

As ilustrações do personagem também variaram muito no decorrer dos tempos. São Nicolau era inicialmente retratado com as vestes de seu cargo, e a mitra. Às vezes a roupa era vermelha. Mas o personagem já apareceu como um duende, magro, com barbas como o deus nórdico Wotan (que também é celebrado no natal).

A sua transformação final, como personagem que contribuiu para uma das mais fortes caracterizações modernas do natal, a do consumismo desbragado, teve uma grande contribuição da Coca Cola. As roupas vermelhas e a barba branca vieram de outras tradições. Mas a versão atualmente mais conhecida foi definida pela Coca Cola, nos anos 30, a partir de ilustração concebida por Haddon Sundblom. O personagem foi inicialmente vinculado à “pausa que refresca” para incrementar as vendas de refrigerantes no inverno, e progressivamente adotada em campanhas comerciais cada vez mais amplas.

Assim, as festas pagãs do solstício acabaram virando o natal, primeiro cristão, hoje novamente pagão: é o momento do consumismo. Restam as camadas subjacentes de festa religiosa e festa familiar, mas a percepção do natal como grande momento do consumo é, em nossos dias, mais forte que nunca. O que ainda une cristãos e não cristãos também é o lado de festa familiar.

E o pobre bispo que ajudava as crianças pobres foi progressivamente se transformando no ícone desse momento pagão, acompanhado às vezes dos presépios cristãos e de outros símbolos remanescentes do paganismo: o pinheiro adornado, a comilança, a troca de presentes.

De pedaços de realidade transformadas por inúmeras e às vezes divergentes fontes e formas de pressão, eis o mito do natal e a bonomia do “bom velhinho” presentes, hoje, em boa parte do mundo.

Ho, ho, ho!

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