“OUTROS CANTOS” E O PASSADO/PRESENTE

Recém terminei a leitura de “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende. É um livro curto, com apenas 152 páginas. Publicado pela Alfaguara, relata uma viagem dupla: Maria, educadora de base, viaja em um ônibus caquético para um encontro de educadores, onde fará uma palestra. Durante a viagem, relembra sua primeira ida ao sertão nordestino, quando foi ao povoado Olho d’Água, com a cobertura precária de ser professora do Mobral, como integrante de uma organização revolucionária, cuja tarefa “tornando-se parte do povo com o peixe na água” e despertar a consciência social daquela população, criando condições para a vinda futura de outro contingente de revolucionários.

     As duas “realidades” vão se intercalando durante a viagem, com a memória fazendo alguns saltos interessantes. Logo no início:
“O ônibus parou arquejando, e eu adivinhei que ele vinha sentar-se ao meu lado, apesar de tantas cadeiras vazias. Ele veio, grande, maciço, cheirando a couro curtido, suor e tabaco. O odor flui da minha memória, decerto, porque este ao meu lado veste-se como um caubói de rodeio e cheira a água-de-colônia barata”.

Na verdade, a memória da narradora parece determinada a fazer este tipo de truques. Os passageiros da viagem no presente remetem a lembranças do passado que fluem com muita autonomia, relatando a experiência da então jovem Maria a caminho de Olho d’Água.

O vilarejo, “as poucas casas brancas, de janelas e portas fechadas, agarradas umas às outras, mortas de medo do imenso e árido espaço à sua volta”, tem seu nome justificado por se constituir nas proximidades de uma fonte perene de água doce. Só que a água tem dono, e é paga pelos moradores que se esfalfam para tingir fios de algodão e tecer redes. O caminhão traz as anilinas e os fios (não são produzidos ali), e leva as redes para fora. Roças esmirradas mal resistem (as macaxeiras e os cactos), à espera de março e das possíveis chuvas.

Maria consegue efetivamente se integrar na vida do vilarejo, guiada pelas mãos de Fátima, cujo marido saiu para conseguir algum dinheiro no Sul e vai mandando, aos pedaços, as madeiras para a construção de um tear que pode melhorar os rendimentos da família.

Começa por participar do trabalho de tingir os fios com as anilinas. Trabalho duro, ao qual se acostuma com dificuldades. Na casinha que lhe tocou (não se sabe se por ser de alguma instituiçao ou simplesmente por estar vazia, instala sua rede e seus pretenções, inclusive uma caixa, escondida no fundo falso na mochila, onde guarda suas recordações, inclusive um livrinho vermelho do presidente Mao, com a capa convenientemente tingida de azul, e um Evangelho. Além dos pequenos souvenirs recolhidos em dois níveis: o de um misteriosos rapaz que se modifica a cada aparição, começando pelo Harley, montado em uma moto que justifica o apelido, e depois em outras situações e países pelas quais a educadora trafega: Argélia, México, até uma aparição como misterioso vaqueiro nas proximidades de Olho d`Água.

As histórias contadas sob a luz das estrelas (para economizar o óleo das lamparinas), as festas religiosas da cidade e o trabalho, muito trabalho, trabalho duro, fazem que Maria se integre na comunidade, descobrindo pouco a pouco as facetas ocultas da vida comunitária.

Mas a promessa de um vereador que havia se comprometido a conseguir o material didático e o contrato miserável como educadora do Mobral (que ainda assim representaria uma renda superior àquela conseguida com o pesado trabalho de tingir os fios e tecer as redes), tarda a ser cumprida. Fátima, sua mentora e amiga na comunidade, a ensina que a paciência é virtude de sobrevivência.

Quando o material didático e o contrato aparecem, a balbúrdia se instala. A tarefa de Maria seria de alfabetizar jovens, e não crianças, e muito menos fazer trabalho de jardim de infância. Mais uma vez Fátima lhe dá o caminho. As mães querem desasnar as crianças para lhes dar uma chance, e quanto mais jovens começarem, melhor. Assim, Maria dedica as manhãs às crianças, que aceita desde que a família se comprometa a enviar um jovem, ou adulto, paras as aulas noturnas.

No entanto, o uso do métodos Paulo Freire, com as palavras chaves, parece não fazer o menor efeito. Para aquela gente, o dado da opressão parece ser o estado natural das coisas, e Maria começa a desanimar.

Em um momento, pouco depois, chegam os rumores de que o Exército já está ali por perto, prendendo esses estranhos que circulam pela região. A própria comunidade, então, obriga Maria a fugir, escondida no meio dos fios, sob uma rede tecida por Fátima, o primeiro resultado do tear finalmente montado com as peças enviadas pelo marido.

Na viagem atual, a educadora Maria vai testemunhando as mudanças e as diferenças entre seu sertão da memória e o que lhe aparece pela frente. Jovens com camisetas de estrelas estrangeiras, tocando músicas que não tem mais nada que ver; adultos que voltam para suas terras, porque haviam conseguido, ainda com o trabalho no Sul, conseguir recursos não apenas para voltar, mas até para “montar seus negocinho”.

Sim, o sertão mudou.

Mas Maria havia ficado com aquele travo de ter que fugir da primeira vez, e fugir com a sensação de que não havia conseguido “despertar a consciência” do povo.

Como boa romancista, Maria Valéria não tira conclusões e nem “fecha” seu romance.

Mas este leitor pensa sobre o que leu.

Será que seu trabalho no Olho d`Água foi realmente em vão? O que fez que aquele povo percebesse que a presença daquela estranha que havia se integrado tão bem na vida da comunidade fosse vista como ameaça pelo Exército, que estava por ali prendendo as pessoas que se enquadravam naquele perfil?

Ultimamente tenho pensado muito em algumas questões da resistência à ditadura. Na mitologia de uma boa parte da esquerda, e alimentada inclusive pelas Comissões da Verdade, e até pela imprensa, temos o desfile dos heróis que foram assassinados e torturados pela ditadura.

Foram heróis sim, no mesmo sentido que os primitivos cristãos foram mártires, morrendo por não renegar sua fé. Uma espécie de heroísmo passivo, onde essa qualificação se dá por sinonímia com vítima. Vítima = herói.

A história de Maria, relatada pela Maria Valéria Resende, reflete, ou expressa, experiências de centenas ou milhares de outros militantes que, no campo ou na cidade, em fábricas, em associações de bairro, em atividades de apoio, como jornais de sindicatos e de bairros, em centros culturais e outras atividades congêneres, faziam esse trabalho miúdo, aparentemente frustrante, tal como o de Maria.

O romance de Maria Valéria Resende, muito bem estruturado e com um tom poético de grande beleza, trata de um exemplo desses esforços anônimos e, repito, aparentemente frustrantes, de tanta gente que queria fazer a revolução, e que contribuiram de fato para a criação de uma mentalidade e sentimento de luta pela democracia, e assim levaram à derrota da ditadura – infelizmente não completa, como vemos hoje..

Essas histórias precisam ser recuperadas, tanto a partir de relatos concretos e levantamentos socio-antropológicos mais consistentes, como também na ficção.

Romances como o da Maria Valéria, e também a coletânea de contos do livro “Felizes Poucos”, da Maria José Silveira, vão aos poucos recuperando isso tudo.

Mas precisamos de muito mais, nestes momentos em que grandes ameaças se vislumbram no horizonte do Brasil.

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