CASTRO ALVES CHORA JANAÍNAS E CUNHAS

Castro_Alves03 Estava eu, sonolento após levar a surra mental do sodalício reunido quando, em um ectoplasma radioso, põe-se diante de mim o Poeta Libertário, chorando.

Diz-me, voz embargada que, do etéreo vira, gente que dizia representar sua alma mater, Uma harpia e um careca de olhar esgarço vomitarem tudo que negava a alma da velha casa.

Pediu-me, tremendo, que abandonasse por um instante meu espírito materialista,

E transcrevesse, ainda impolidas, o que do peito lhe brotava, lembrando sua saga antiescravista.

E tascou o que eu, mão trêmula, copiei:

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado numa Janaína?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

 

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na Cunha penedia

 

Cem mil pastores, dizem

Evangélicos que são

Em contas nos altos Alpes mamam

E do teu filho Jesus.com são

 

— Infinito: galé! …

Por abutre — me deste o sol seco do Planalto,

E o Congresso do Brasil — foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

Da mulher louca e caprichosa,

Insana e cortesã.

Do rosto o esgar mostra;

Dos cabelos medusas assanha,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

 

Idiotas após ela — loucos amantes

Seguem cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

 

Nem veem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu. 

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

 

Jesus.com! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos — alimária do universo,

Eu — pasto universal…

 

Hoje em meu sangue a hipocrisia se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 

Basta, Senhor!  De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

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Uma resposta a CASTRO ALVES CHORA JANAÍNAS E CUNHAS

  1. lizete teles de menezes disse:

    Magnífico. Absolutamente magnífico e oportuno. Parabéns Felipe, espírito livre como o do nosso poeta.

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