“O CLÔ, a Argentina e nosotros

 

Os personagens e os originais

Os personagens e os originais

Estreou esta semana o filme O CLÃ, do cineasta argentino Pablo Trapero. Um filme muito bom, ótimos atores, trilha sonora muito bem cuidada.

Mas a importância do filme vai bem mais além.

Primeiro, por se tratar de um caso real.

Tão brutal que dificilmente seria aceito como ficção – diriam que autor do roteiro e diretor estavam exagerando.

O fato é que Arquímedes Puccio, o chefe do clã, ex-agente do SIDE – o serviço de inteligência argentino, um dos centros de coordenação das prisões, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar – e também membro da AAA – Asociación Anticomunista Argentina – grupo terrorista que atuou criando condições para o golpe militar, e da Organización Tacuara (grupo ultranacionalista de direita argentino), recrutou dois de seus filhos para, com ajuda de ex-militares e agentes da repressão, sequestrar ricaços e extorquir dinheiro da família. Só que nenhum dos sequestrados foi devolvido: todos foram assassinados.

O filho mais velho, Alejandro, era ídolo da torcida argentina de rúgbi, e ajudou a atrair dois de seus colegas para a cilada.

Mas o que torna o caso ainda mais estranho, aterrorizadamente peculiar, é que os sequestrados eram mantidos no porão da casa da família (que, além dos dois filhos cúmplices, abrigava ainda a mãe, duas outras filhas e um filho que sentiu o cheiro de chifre queimado e se mandou). As mulheres da família supostamente ignoravam o que acontecia no porão da casa…

O "clã" original...

O “clã” original…

Até aí, é a história de terror.

Mas o filme vai mais além.

Longe de tratar o assunto simplesmente como um thriller, deixa muito claro o contexto político em que o caso se desenvolve. A cena inicial é de um noticiário de TV, no qual Raúl Alfonsín, o presidente eleito na redemocratização, agradece a atuação da Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura, que foi coordenada pelo escritor Ernesto Sábato.

Ao contrário da que funcionou na Pindorama, a Comissão da Verdade argentina reuniu dados para processar e, posteriormente, condenar não apenas os generais ditadores, como também uma grande quantidade dos agentes diretos da repressão, militares e civis.

O filme mostra também como o “caso Puccio” não foi o único. Vários ex-agentes praticaram sequestros e extorsões. E contavam com o “esquecimento” para continuarem lépidos e fagueiros… e ricos.

Mostra também que os agentes da repressão – apesar da Comissão da Verdade – continuavam operando dentro do governo. O clã só foi desbaratado porque o antigo chefe de Puccio o avisou que ele estava ultrapassando os limites e o bandido não se mancou. Ou seja, “havia limites” para a bandidagem.

Na Argentina, porém, tanto a sociedade quanto o judiciário continuam atentos para as ramificações de atuação dos agentes da ditadura. Que continuam ativos, como alguns fatos recentes mostraram.

Entre nós, no entanto, tudo desanda. Os resultados da Comissão da Verdade (conseguidos com décadas de atraso e sem que os milicos e os diplomatas soltassem todos os documentos) têm o lado positivo de mostrar, mas provocam a frustração de não resultar em ações da justiça.

Na Argentina, o filme já bateu todos os recordes de público do cinema portenho. A politização dos argentinos os leva a querer conhecer mais e com mais detalhes os crimes da ditadura. Para, como disse Alfonsín, expurgá-los. Essa é uma luta continuada.

Entre nós, infelizmente, os que mais teriam a aprender sobre os malefícios da ditadura estarão por aí “comemorando” o aniversário do AI-5 com a manifestação pedindo outro golpe de estado.

É preciso reconhecer que, salvo no futebol, onde a corrupção é irmãmente compartilhada, los hermanos nos dão lições cotidianas de mobilização cívica.

Aliás, só para registro: a família do clã era muy cristiana e rezadeira. E o Puccio, quando morreu, morava com um pastor evangélico fundamentalista. Vai ver que cunhista e malafaísta.

Todos muito cristãos e rezadeiros...

Todos muito cristãos e rezadeiros…

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