NOEL ROSA AINDA DÁ (MUITO) MOLHO

Noel324O crítico Tárik de Souza escreveu, faz algumas semanas, uma resenha muito elogiosa do recém lançado “Noel Rosa, Preto e Branco”, com a cantora Valéria Lobão e vinte e dois pianistas, que “revezam-se em duetos com a solista, de voz límpida e aguda, também versada em vocalizes e scats” (Carta Capital, número 837).

Na verdade é um CD duplo, e o time de pianistas é excepcional: Adriano Souza, André Mehmari, Carlos Fuchs, Cláudio Andrade, Cliff Korman, Cristóvão Bastos, Duo Gisbranco, Eduardo Farias, Fernando Letzke, Gabriel Geszti, Gilson Peranzetta, Itamar Assiare, João Donato, Leandro Braga, Marcelo Caldi, Marcos Nimrichter, Rafael Martini, Rafael Vernet, Robert Fuchs, Tomás Improta, Vítor Gonçalves.

São onze canções de Noel, com diferentes parceiros, em cada um dos discos. Desde as mais conhecidas, com o Pastorinhas, Prá que mentir, Feitio de Oração, Meu Barracão, Filosofia, Último Desejo, até outras que frequentam menos, ou quase nunca, o cancioneiro contemporâneo, inclusive algumas com gosto de música acaipirada, como Sinhá Ritinha (Noel e Moacyr Pinto), e Minha Viola (Noel) e Não Brinca Não, com Cláudio Andrade. Várias jogam com subtendidos, jogos de palavras ou frases de duplo sentido e uma constante ironia.

Julieta (Noel e Eratóstenes Frazão): “Julieta, nem falar em Romeu tu hoje queres/ borboleta sem asas? Tu preferes que te façam carícias de papel./ Nos teus anseios loucos, delirantes/ em lugar de canções queres brilhantes/em lugar de Romeu, um coronel.”

Ou a gozação do Mulato Bamba (Noel): “O mulato é de fato/ e sabe fazer frente/ a qualquer valente/ mas não quer saber de fita/ nem com mulher bonita/ Sei que ele anda agora borrecido/porque vive perseguido/ sempre, a toda hora/ ele vai-se embora/para se livrar/ do feitiço e do azar/ das morenas de lá// As morenas vão chorar/ vão pedir para ele voltar/ e ele então diz com desdém:/ “quem tudo quer, nada tem”.

Mas, além da bela escolha do repertório, os dois CDs valem pelos arranjos belíssimos e, particularmente, pelo fato da bela voz da cantora ser acompanhada apenas de piano. Os projetos de cantar Noel Rosa, quando acompanhados de apenas um instrumento, este geralmente é o violão, como foi o caso do belíssimo LP (hoje disponível em CD), que Maria Bethânia gravou logo no início da carreira, também só com músicas de Noel, acompanhada por Carlos Castilho (o CD que lançaram há alguns anos traz versões orquestradas das mesmas músicas, além de outras “raridades”. Ainda que a iniciativa tenha validade, muito mais bonitas são as versões só de voz e violão), ou os dois CDs de Cristina Buarque e Henrique Cazes (“A Crise não é Boato” e “A Crise Continua”), nos quais os dois cantam, acompanhados sempre pelo violão de Cazes.

O “Noel Rosa, Preto e Branco”, como disse, é acompanhado apenas por piano. Como diz Carlos Fuchs, um dos pianistas e produtor do CD, “todos os pianistas se servem do mesmo instrumento, que por sua vez utiliza os mesmos microfones e pré-amplificadores para a captação sonora, ou seja, as diferenças tímbricas que ouvimos é justamente uma das grandes riquezas deste programa – o som de cada um”(sic).

E diferenças de estilo, não apenas de timbre. Cada pianista compôs seus próprios arranjos (exceção de Sinhá Ritinha, com arranjo de André Mehmari e piano de Roberto Fuchs), e isso dá aos CDs um gosto particular. A homogeneidade do instrumento que acompanha é amplamente compensada pela diversidade de estilos de arranjo e interpretações. Cabe dizer que os arranjos, embora “lembrem” aqueles mais conhecidos das músicas de Noel, muitas vezes apresentam versões particulares, acrescentando sonoridades que pareciam escondidas. É o “molho” novo nas músicas do Noel.

“Noel Rosa, Preto e Branco” não é um CD fácil de achar. Não descobri em nenhuma loja de São Paulo. Acabei localizando a Valéria Lobão no FaceBook e comprei diretamente dela essa produção do estúdio “Tenda da Raposa”. Os problemas de distribuição de CDs, além dos provocados pela crise do formato, que diminuiu brutalmente o número de lojas especializadas, prejudicam ainda mais as pequenas gravadoras independentes. Tampouco está no iTunes. Enfim, achei nas mãos da Valéria, o que certamente é melhor para ela, mas dificulta a maior divulgação desses belíssimos CDs.

Finalmente, ouvindo as músicas, fiquei lamentando esse problema adicional que é a ausência muito grande de divulgação da música instrumental. Já vai longe o tempo em que grandes conjuntos de instrumentistas tinham sucesso, como o Tamba Trio, o Zimbo Trio – sem falar de outros mais antigos, como o Trio Surdina – e apareciam nos toca-discos e nas paradas de sucesso. Dos pianistas participantes do projeto, a maioria não tem, que eu saiba, discos instrumentais solos ou em conjunto com outros músicos, sem cantores, sem deixar de destacar os belos trabalhos de André Mehmari (inclusive em vários duos) e João Donato.

 

 

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