CHARLIE – O DEBATE CONTINUA

O repúdio unânime que se expressou contra o assassinato de jornalistas do Charlie Hebdo não impede que a controvérsia sobre as posições do jornal continue fervendo.

A hipocrisia que reúne Netanyhau, Abbas, Merkel, ditadores africanos e presidentes eleitos na grande manifestação de domingo não pode deixar de ser notada. E, certamente, a apropriação, pela extrema direita europeia, dos acontecimentos não pode ser deixada de lado.

Essa apropriação é, certamente, o lado mais trágico disso tudo. Marine Le Pen, seu papa e consortes espalhados pelo continente estão mais raivosos que nunca, agitando contra a imigração e a presença de muçulmanos na Europa. Convenientemente esquecidos que a maioria deles veio para fazer os trabalhos que os europeus não queriam mais quando estavam em pleno boom econômico. E que esses imigrantes são, em sua grande maioria, provenientes de países que sofreram os males da colonização.

Como já disse, a posição do Charlie Hebdo repousa em uma tradição francesa que, ela mesma está ameaçada. A iconoclastia é um componente importantíssimo da cultura francesa, e se expressa no exercício da liberdade de expressão. Legislação mais recente tenta por limites a isso. E a auto-censura do “politicamente correto” não é um fator desprezível.

Abaixo, links para artigos vários que debatem aspectos desses problemas:

ALIANÇA INTERNACIONAL DE EDITORES INDEPENDENTES APOIA O CHARLIE HEBDO. Aqui e Aqui.

NA FEIRA DE LIVROS DE DOHA, ESCRITORES E EDITORES DEBATEM O “JE SUIS CHARLIE”. Aqui.

E, para lembrar dois casos antigos, o NY Times publicou hoje, dia 14 de janeiro, o obituário de Al Bendich, que foi advogado de defesa de dois casos importantíssimos relacionados com a liberdade de expressão nos EUA. O Julgamento de Ferlinghetti por haver publicado o poema Howl, de Allen Ginsberg, e o de Leny Bruce, um comediante de San Francisco acusado de dizer obscenidades no espetáculo.

Os dois julgamentos são considerados como marcos na defesa dos direitos civis nos EUA, e em particular do direito de liberdade de expressão. Aqui.

Sérgio Augusto, no Portal do Estadão na tarde de sábado (deve sair na edição impressa de domingo), conta o episódio do cartonista e humorista Siné, que brigou com o Charlie Hebdo.

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E meu amigo José Bessa, que morou vários anos em Paris, produz mais um artigo ótimo no seu TaquiPrati.

 

 

E CHARLIE É O QUÊ, AFINAL?
José Ribamar Bessa Freire
18/01/2015 – Diário do Amazonas

 

Depois do assassinato de jornalistas doCharlie Hebdo, uma guerra discursiva explodiu na mídia e nas redes sociais com disparos de palavras que felizmente não matam um prato de feijão, só trucidam, às vezes, a sintaxe e a razão. De um lado, o exército “Eu-sou-Charlie” e, de outro, “Eu não-sou-Charlie”, ambos comandados por insignes “generais”.
Nesta guerra incruenta, a questão central, no entanto, não é to be or not to be, mas o que cada lado entende por Charlie. That is the question. A pergunta que o psicanalista Contardo Calligaris fez em sua coluna na Folha de SP é pertinente:
– Sou Charlie. E Charlie é o quê?
Charlie Hebdo é um jornal com charges “perigosas, criminosas e de péssimo gosto“, responde a milícia anticharlista, comandada pelo teólogo Leonardo Boff, que postou artigo “Je ne suis pas Charlie”, de autoria do jornalista Rafo Saldanha, mas atribuído inicialmente ao próprio Boff e depois ao padre Antonio Piber e cujo conteúdo foi de qualquer forma comentado e referendado pelos três.
Leitor assíduo e entusiasmado que fui por muitos anos do Charlie Hebdo, me autonomeio correspondente de guerra para enviar notícias do front de batalha e cobrir os ataques feitos pelos dois exércitos.
A santíssima trindade Boff-Piber-Saldanha, responsável pela difusão do citado artigo, embora criminalize as charges, lamenta o atentado que “poderia ter sido evitado”, se logo “no primeiro excesso” a justiça francesa tivesse punido o jornal. “Mas isso é censura, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura”, confirma o trio justificando que “nem toda censura é ruim“.
Existe, portanto, a possibilidade de termos um Index Librorum Prohibitorum do bem – segundo a avaliação de quem já nele figurou. Essa noção de “censura boa” capaz de proteger vidas acabou dando munição aos atiradores de ralé situados nas trincheiras dos blogs e do facebook, que atacaram com rajadas de adjetivos desqualificativos o Charliezorum Hebdomadorum.
Humor cristão
Um sargento da tropa anticharlista, Jonathan Nemer, que se apresenta como “humorista cristão” – seja lá que diabo isso signifique – critica os desenhos da revista “que ridicularizam a fé de diversas religiões, incluindo o cristianismo“. Alguns soldados rasos apoiados na declaração do Papa Francisco – “se xingar minha mãe, espere um soco” – denominaram as charges de “provocação irresponsável” e de “grave incompetência” dos cartunistas que “fizeram por merecer”. Acusaram Charlie de “islamófobo especializado em blasfêmias”.
Esses – digamos assim – argumentos, foram desmontados por Luís Fernando Veríssimo, Contardo Calligaris, Gregório Duvivier e Miguel do Rosário entre outros.
Para Veríssimo, a alegação de que “os cartunistas foram longe demais é o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada estava pedindo“. Ele define “blasfêmia” como uma afronta ao sagrado. “Assim, a verdadeira discussão não é sobre o que as pessoas consideram blasfêmia, mas sobre o que consideram sagrado. Quem não crê em nenhum deus não pode, por definição, ser um blasfemo“.
O mesmo tipo de armamento foi usado por Contardo Calligaris (Por que eu sou Charlie?) para rejeitar a acusação de islamofobia, ele prefere a classificação de cretinofobia.
– “Charlie Hebdo é uma publicação cretinofóbica, porque acha cretino qualquer um que adira a uma crença sem a capacidade de rir dela e de si mesmo enquanto crente. Por isso seria exato dizer que para Charlie Hebdo nada é sagrado. Nada é sagrado para todos, SALVO o princípio de que nada deve ser sagrado para todos. O que não é pouca coisa”.
Para Gregório Duvivier, o que define o humor é justamente a brincadeira com o sagrado. Já que tudo é sagrado para alguém no mundo – a maconha, a vaca, a santa de madeira, o Daime, Jesus e Maomé – tudo merece respeito e falta de respeito.
Portanto, “os chargistas que mesmo ameaçados não baixaram o tom, não devem ser tratados como pivetes malcriados que fizeram por merecer, mas como artistas brilhantes que morreram pela nossa liberdade. Nosso dever é continuar lutando por ela, sem fazer concessões nem perder aquele ingrediente essencial: a falta de respeito pelo ódio“.
É isso. O semanário Charlie Hebdo é um pequeno jornal alternativo francês que, no melhor espírito anárquico e irreverente de maio de 1968, sempre sacaneou o poder e as instituições que tem orçamento e hierarquia: estado, igrejas, mídia, bancos, academias, partidos políticos, forças armadas, polícia. Nem eles próprios escapam, riem de si mesmos. Wolinski declarou que depois de morto e incinerado, queria que suas cinzas fossem jogadas na privada de sua casa para que ele, de um lugar privilegiado, pudesse contemplar o fiofó da amada.
Humor corrosivo
Pornográfico, desabusado e crítico, libertário e libertino, seu humor ácido e corrosivo, seu espírito satírico e gozador, seu atrevimento, sua insolência e agressividade, algumas vezes – confesso – me escandalizaram. Lembro de uma capa em que aparece Marine Le Pen, deputada racista de extrema-direita, de quatro, sendo enrabada. Na outra, se jura que todo racista tem pinto pequeno. Tive de esconder de minha mãe o exemplar que exibia na capa foto da gruta de Lourdes, na qual um soldado uniformizado debochava da Virgem Maria, que estaria menstruada. Passou dos limites?
– Existe limite para o humor? – pergunta Duvivier, que imediatamente dá a resposta:
“O limite está no objeto do riso. Rir de quem está por baixo é covarde, rir de quem está por cima é corajoso. Deve-se rir do opressor, e não do oprimido”.
Num belo artigo em que justifica “porque sou Charlie”, Miguel do Rosário nos informa que “as artes francesas sempre se notabilizaram pelo escândalo, pelos excessos, pelo enfrentamento atrevido a toda forma de autoridade, no Estado, na Igreja, nas convenções sociais”. No entanto, os “leigos” em cultura francesa classificam de xenofobia e islamofobia, as charges porque elas são agressivas. “Mas não é verdade – escreve Miguel – os desenhos de Charlie são herdeiros da tradição estética francesa voltada para a escatologia, o excesso, o escândalo”.
Ele cita trechos de Rabelais, mas podia ampliar a longa lista com Voltaire, Marat, Sade e tantos outros, além da forte tradição anticlerical. Lembra ainda que na França não é crime blasfemar, zombar das religiões e de seus símbolos. Os excessos punidos por lei são a difamação contra pessoas, o racismo, o antissemitismo, a incitação à violência ou ao ódio, o que levou algumas vezes o próprio Charlie Hebdo a ser condenado pelos tribunais. O “normal” é quem se sentir ofendido recorrer ao tribunal e não ao soco, às bombas ou à censura.
Portanto, quando alguém afirma “eu sou Charlie” não está necessariamente assinando embaixo de todas as charges. Está se solidarizando com jornalistas assassinados, está defendendo a liberdade de expressão em qualquer parte do mundo.
Charlie são os dois mil mortos nos últimos dias na Nigéria em atentados terroristas cometidos por extremistas. Charlie é Amarildo morto pela polícia carioca. Charlie são os milhares de membros da minoria tamil massacrados no Sri Lanka, os muçulmanas trucidados pelo Emirado Islâmico, os negros eliminados pela polícia dos Estados Unidos, os presos de Guantánamo, os palestinos, os judeus, os povos indígenas violentados pela invasão de suas terras, com seus líderes assassinados.

Embora algumas charges do Charlie Hebdo tenham me escandalizado, não gostaria de viver numa sociedade em que elas fossem proibidas. Por isso, eu já fui Boff, quando ele, censurado e perseguido pelo Vaticano, constava no Index. Hoje, chuí Charlie.

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