ESSA SÃO PAULO COMPLICADA QUE EU AMO

Sou paulistano nascido em Manaus. Optei por viver nessa cidade super complicada. E gosto daqui precisamente por isso. Não é nem um microcosmo. É um micro-macrocosmo desse Brasil que é outra complicação.

Mas,o que seria da vida se acontecesse tudo exatamente como cada um de nós deseja?  Impossível. Meu desejo choca com o seu, com o seu, e com o do outro não é exatamente igual, e por aí vamos.

Vejam só. Saí hoje de casa para votar com a camiseta que não apenas era vermelha, como era uma homenagemà Revolução de Outubro. Já que não se pode sair com camiseta do candidato, resolvi sair de vermelho-revolução (ainda que a de Outubro seja apenas um retrato na parede que, como diria Drummond, dói demais). O porteiro do prédio já foi brincando: – Já sai vestido de petista, seu Felipe! E eu respondo, – Para votar certo, não é mesmo, André? E ele solta uma risadinha (cúmplice, talvez?).

E lá vou eu, meio uniformizado de petista para votar no Colégio São Luís. Os jesuítas, que não são bobos, construiram um enorme complexo na Paulista, com o Colégio, a igreja, um grande edifício comercial, várias lojas, um centro de feiras, espaço para as recepções de casamentos e batizados, of course. E o Colégio, que já não atende os indiozinhos da Piratininga, hoje é centro de formação dos filhos da elite católica paulistana, com algumas bolsas de lambuja, por certo.

Na porta do Colégio, depois que votei e tirei foto com os mesários desci, e lá se aproxima uma senhora que me pede ajuda. Quer saber como se vota só na legenda. (Eu uniformizado). Sim, senhora, em que partido a senhora quer votar. – Já sei o número. É o 45. Mas não sei como se vota. (Eu uniformizado). – Pois não, é assim. Quando a senhora chega lá na cabina, vai aparecer o quadro de votação. A senhora digita 45 e aperta “confirma”. Aí aparece o outro quadro e a senhora vai fazendo a mesma coisa, até chegar na votação para presidente, e quando a senhora digitar o 45 vai aparecer a foto do Aécio e a senhora “confirma”. (Eu uniformizado). Ela sorri e diz: – Ah, então é só isso? (A mulher era mesmo uma sonsa, coitada). Ela me agradece e entra pimpona para votar no Aecim do Aeroporto. (Eu uniformizado). É claro que nem tento modificar o voto dela, que evidentemente é uma nelsonrodrigueana idiota, com total ausência de simancol. Deixo a coitada ir votar em paz, e que faça o proveito que lhe fizer bem com o que ensinei.

Do lado, um pesquisador do Ibope e outro da DataFolha vão catando os “pesquisandos” (será isso mesmo?). Eu, uniformizado, fico por ali. Os caras me encaram, reconhecem meu uniforme e nem me dão bola. Eu doido para ser pesquisado, saco que não vai colar. Afinal, estou uniformizado. Desisto. Sei que ali naquele pedaço o Picolé de Chuchu feito com lama filtrada e o Aecim vão mesmo ganhar.

E em junho do ano passado?

Minha janela dá para o MASP e acompanhamos todas as muvucas da Paulista. Parada Gay, comemorações de futebol, mobilizações de grevistas. Numa das tais grandes mobilizações, umas mil pessoas passam quatro horas berrando lá no vão do MASP: “Dilma vai tomar no cu!” alternando com “Desce pra rua você também”. Êta conteúdo político da porra. Quatro horas ouvindo aquela multidão de idiotas berrando isso é simplesmente foda. Mas, da mesma janela, vi também passar as mobilizações do passe livre e a vitória pelo “não aumento”. E os tumultos inconsequentes dos black blocs.

Nossa amiga Ivana Arruda Leite, tucana desde sempre, marinou nessas eleições. E escreveu, ainda no domingo, no FB: “Os petistas têm que aprender que São Paulo não gosta deles”.

Ledo engano, querida Ivana. Há dois anos os paulistanos elegeram o Haddad, dando uma corrida monumental no Russomano. Sim, nesse mesmo indivíduo que foi o mais votado deputado federal do estado. Como já elegeram a Erundina e a Marta. E como os paulistas elegeram dezenas de prefeitos e deputados.

Ciclovias em S. Paulo - cidadania respeitada, iniciativa do PT.

Ciclovias em S. Paulo – cidadania respeitada, iniciativa do PT.

Isso é São Paulo.

Uma parte, felizmente, não anula a outra. Disputam ferozmente entre si. Ora uma parte de S. Paulo ganha, ora a outra parte precisa de levar um “churrascão diferenciado” nas ventas para aprender que o metrô é para todos.

Esse Russomano,  por exemplo. O cara era um reportezinho assim tipo porta de boate. A mulher teve um problema de saúde e, ao que parece, foi mal atendida no que é reputado como um dos bons hospitais da cidade, lá na Pompeia. Pois o sujeito teve o sangue frio de ir em casa, pegar uma câmara e, em vez de tentar resolver o problema, filmar a agonia da pobre mulher, jogando a câmara na cara de enfermeiras e médicos atarantados.

Ficou famoso pela sua “defesa do consumidor”, expressada na filmagem do sofrimento e morte da própria mulher. Tem um programa de TV no qual faz a “mediação” entre os consumidores e os prestadores de serviço. É um pavoroso pátio de milagres. O Russomano chega lá de câmara na mão (quer dizer, hoje ele não carrega câmara nenhuma, chega com uma enorme e aparatosa equipe) e intimida o comerciante, ou o prestador de serviços. É claro que faz isso com casos em que a resistência do comerciante seria um haraquiri diante das câmaras, e o cara facilmente cede e conserta o erro. E o Russomano abre um sorriso – meio esgar – de justiceiro e joga seu mote: “Está bom para vocês dois? Se está bom para vocês dois, está bom para mim”.

Então, em cima de uma justa situação de desespero de alguém lesado por outro inescrupuloso (ou às vezes, apenas descuidado), o cara quer fazer o mundo inteiro de idiota se autoqualificando como O “defensor do consumidor”.

Isso também é São Paulo.

Como também é São Paulo o Sarau da Cooperifa, lá nos confins da Estrada M’Boi Mirim, que reúne às quartas-feiras dezenas, centenas de pessoas que recitam e escutam seus poemas. Poemas que expressam sua indignação contra a polícia do Alckmin, contra o desmantelo das escolas públicas da periferia que são muito bonitas nas propagandas, assim como os AMAs que só funcionam no horário eleitoral gratuito. Mas esses não apelam para os Russomanos. Berram e lutam. Jorram sua indignação em versos, em raps, em letras de músicas que chocam, mobilizam, alegram e divertem a moçada da perifa.

Sarau da Cooperifa. Cultura, diversão, protesto e sentimentos em S. Paulo.

Sarau da Cooperifa. Cultura, diversão, protesto e sentimentos em S. Paulo.

Isso também é São Paulo.

E poderia continuar relatando dezenas, centenas de contrastes dessa Pauliceia de Mil Dentes, de tantas faces, de rostos ansiosos, de trabalhadores, de bóizinhos filhos da puta, de exposições de qualidade e de espetáculos grotescos de exibição de riqueza, de tudo que se possa imaginar.

E esses espetáculos se repetem Brasil afora. Um país injusto, com classes violentamente divididas, pasto para a especulação e também para a criatividade, para a beleza e pelo gosto de viver.

A bossalidade também faz parte da Pauliceia de Mil Dentes

A bossalidade também faz parte da Pauliceia de Mil Dentes

Certamente queria que minha candidata ganhasse direto no primeiro turno, se não em São Paulo, em todo o Brasil.

Não deu.

Nem por isso desisto de São Paulo, como não desisto também dos meus sonhos de um país melhor, menos injusto (e olhem, menos injusto, já que totalmente justo é realmente uma utopia). Não deixo de criticar o PT, partido que ajudei a fundar, como também não deixo de reconhecer acertos de outras administrações. Mas acho que os governos do PT são melhores para o país, apesar de tudo. E, por conseguinte, que os outros são piores, apesar dos eventuais acertos.

Batalho, critico e faço piadas e gozação. Piadas sobre a insuportável fadinha, sim. E mais ainda sobre o Aecim, do qual se pode dizer “quem conhece não vota mais”. Procuro não ofender (e se faço, quando percebo, peço desculpas). Não brigo com meus amigos por conta de suas opções políticas. Quem me ofende, ou ao que defendo, simplesmente não está à altura da minha amizade, e deles desisto. Olhem, nem brigo com meus amigos que são corintianos, vou lá brigar com o cara só porque ele é tucanão? Nem vem…

Ganhar no primeiro turno era uma esperança, mas seria algo inédito.

Não deu, vamos à luta, camaradas.

Vamos ganhar a esperança dos que marinaram porque acham (e muitas vezes com carradas de razão) que o governo do PT deixou a desejar na área ambiental. Mostrar a eles como a tal “nova política” da Marina não era outra coisa que a cara disfarçada da submissão ao arrocho e à violência. Vamos trazê-los para que lutem por dentro as boas batalhas. Como eu, que luto por dentro batalhas na área da cultura, apesar de já ter também perdido muitas por conta de idiotas que se ocupam disso dentro do PT.

Vamos à luta, porque a alma é grande e o Brasil merece.

Dia 26, é 13! Dilma na cabeça!

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1 Response to ESSA SÃO PAULO COMPLICADA QUE EU AMO

  1. Malu disse:

    Gostei muito. 13 dia 26 de out.

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