{"id":91,"date":"2014-09-13T20:38:20","date_gmt":"2014-09-13T23:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=91"},"modified":"2014-09-13T20:43:30","modified_gmt":"2014-09-13T23:43:30","slug":"jose-bessa-em-sua-melhor-forma-no-taqui-pra-ti","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=91","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Bessa em sua melhor forma no Taqui Pra Ti"},"content":{"rendered":"<p>Emocionante, o relato do Bessa introduzindo o texto de seu amigo Eduardo Nakamura, matem\u00e1tico, ambientalista e fot\u00f3grafo, sobre seu pai.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-26\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=640%2C113\" alt=\"Taquiprati\" width=\"640\" height=\"113\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?w=779 779w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=300%2C53 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=500%2C88 500w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1105');\"  href=\"http:\/\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1105\" target=\"_blank\">MEU PAI \u00c9 UMA FOTOGRAFIA<\/a><br \/>\nJos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<br \/>\n14\/09\/2014 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas<br \/>\n<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/nakamura.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/nakamura.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-92\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/nakamura.jpg?resize=213%2C300\" alt=\"nakamura\" width=\"213\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/nakamura.jpg?resize=213%2C300 213w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/nakamura.jpg?w=712 712w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p>Father &#8211; It&#8217;s not time to make a change\/Just relax,take it easy\/ You&#8217;re stil young.<br \/>\nSon &#8211; Now there&#8217;s a way and I know \/ that I have to go away \/ I know I have to go.<br \/>\n(Cat Stevens &#8211; Father &amp; Son)<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o pai x filho, tensa e amorosa, \u00e9 tema recorrente da literatura, da psicologia e at\u00e9 do cancioneiro popular. Cat Stevens comp\u00f4s Father &amp; Son que reproduz di\u00e1logo do eterno conflito entre um jovem e seu pai e canta a ruptura do &#8220;cord\u00e3o umbilical&#8221; dolorosa para ambos. A voz do cantor ingl\u00eas, grave e controlada quando interpreta o pai, se transforma em aguda e vibrante quando quem canta \u00e9 o filho. Tenho ainda hoje o disco de vinil Tea for the Tillerman quase perfurado de tanto rodar. Existe bela vers\u00e3o em portugu\u00eas de Renato Teixeira com seu filho Chico.<\/p>\n<p>Na literatura espanhola, h\u00e1 o conhecido poema de Jorge Manrique, uma elegia funer\u00e1ria escrita em 1476 quando seu pai Rodrigo morreu: Coplas por la muerte de su padre. Discorre sobre a vida, o sucesso, a riqueza e o descanso final, concluindo no canto XXXVIII com o pai agonizante, mas que aceita heroicamente o seu destino: &#8220;E consinto eu em morrer, com vontade prazerosa, clara e pura, que querer homem viver, quando Deus quer que morra, \u00e9 loucura&#8221;.<br \/>\nAgora, em Manaus, Eduardo Freire Nakamura, que n\u00e3o pertence ao campo da literatura, escreve sobre a morte do pai. Ele \u00e9 engenheiro, doutor em ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o, professor das disciplinas An\u00e1lise de Algoritmos e C\u00e1lculo Num\u00e9rico na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), al\u00e9m de pesquisador em v\u00e1rios projetos, entre os quais um na \u00e1rea de conserva\u00e7\u00e3o e monitoramento ambiental, que usou sensores sem fio em armadilhas fotogr\u00e1ficas destinadas a monitorar e catalogar esp\u00e9cies animais na floresta amaz\u00f4nica.<br \/>\nEduardo compartilhou com seu pai George Nakamura, nipo-americano, a paix\u00e3o pela fotografia. Exorcizou sua dor e seu amor, escrevendo. Nem sempre a qualidade liter\u00e1ria de um texto corresponde \u00e0 intensidade da nossa agonia ou do nosso afeto. Quando isso acontece, como \u00e9 o caso, vale a penar compartilh\u00e1-lo. S\u00f3 um amor t\u00e3o profundo e o dom\u00ednio acabado da palavra podem gerar uma escrita como a que vai abaixo.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>TEXTO DE EDUARDO<\/strong><\/p>\n<p><em>Em minhas aulas de matem\u00e1tica discreta, costumo citar a rela\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u00a0p<\/em><em>ai-filho\u00a0como um exemplo de rela\u00e7\u00e3o de\u00a0um-para-muitos:\u00a0um pai para um ou mais filhos. Refletindo agora, vejo que n\u00e3o podia estar mais errado.<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, em sua ess\u00eancia, um pai possui um ou mais filhos. Sim, em sua ess\u00eancia, o amor oferecido pelo pai aos filhos \u00e9 o mesmo. Contudo, a apresenta\u00e7\u00e3o deste amor e sua internaliza\u00e7\u00e3o dependem da individualidade do par relacionado. A rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas \u00e9 experi\u00eancia particular e \u00fanica. Esse relacionamento depende da personalidade e da hist\u00f3ria a cada um.<\/em><\/p>\n<p><em>Embora o relacionamento pai-filho seja \u201cmatematicamente\u201d de um-para-muitos, ele \u00e9, na ess\u00eancia humana, um relacionamento de um-para-um. Um \u00fanico pai para um \u00fanico filho, ou um pai para cada filho. As mesmas experi\u00eancias, o mesmo afeto, o carinho id\u00eantico dado a dois filhos distintos, constituem experi\u00eancias singulares e \u00fanicas. Portanto, meu pai \u00e9 o pai de meus irm\u00e3os e, ao mesmo tempo, o meu pai n\u00e3o \u00e9 o pai dos meus irm\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o quem \u00e9 \u201co Meu Pai\u201d?<\/em><\/p>\n<p><em>O Meu Pai \u00e9 o George\u00a0<strong>para<\/strong>\u00a0o Eduardo, o George\u00a0<strong>pelo<\/strong>\u00a0Eduardo.<\/em><\/p>\n<p><em>Tivemos 38 anos e seis meses juntos de hist\u00f3ria. Para ele, essa hist\u00f3ria teve in\u00edcio aos 47 anos. Antes disso, sua vida j\u00e1 n\u00e3o cabia em 47 anos. Uma vida fant\u00e1stica, menino pobre, agricultor, confinado em campo de concentra\u00e7\u00e3o, soldado paraquedista, desenhista, seminarista, padre, cozinheiro, professor, tradutor, empres\u00e1rio, marido, pai de meu irm\u00e3o mais velho\u2026 uma pequena amostra destes 47 anos que antecederam meu nascimento.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas como posso descrever o Meu Pai? N\u00e3o o George Nakamura, mas o Meu Pai, aquele que nasceu junto comigo em 13 de fevereiro de 1976? Qualquer descri\u00e7\u00e3o seria imperfeita e incompleta. Mas para efeitos did\u00e1ticos vou lan\u00e7ar m\u00e3o de uma met\u00e1fora que, mesmo limitada, espero ilustrar um pouco do \u201cMeu Pai&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 uma fotografia, mas n\u00e3o uma fotografia qualquer.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 a fotografia que todo fot\u00f3grafo sonha em tirar. N\u00e3o uma foto cujo foco \u00e9 a t\u00e9cnica ou a est\u00e9tica, mas daquelas fotos que contam, ou melhor, proclamam ricas hist\u00f3rias no mais alto volume.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 daquelas fotos espont\u00e2neas que vemos com o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o com os olhos. Daquelas fotos que nos fazem rir, chorar, que nos fazem sentir, que nos fazem saber que estamos vivos, que nos mostram que somos humanos.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 daquelas fotos que revisitamos indefinidamente sem nunca cansar, que a cada visita descobrimos algo novo, vivemos algo novo. Daquelas fotos que de alguma forma mudam a nossa vida. Daquelas fotos que depois de contempla-las nos tornamos outra pessoa, nos tornamos mais s\u00e1bios ou mais ignorantes, mais fortes ou mais fr\u00e1geis, mais conscientes ou mais irracionais, mais crian\u00e7a ou mais adultos. Enfim, mais humanos.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 daquelas fotos que permanecem gravadas eternamente em nossas mentes, mesmo ap\u00f3s fechar os olhos. Daquelas fotos para se ver em todos os tamanhos, em todas as paredes. Daquelas fotos que abra\u00e7amos e suspiramos. Daquelas fotos preto-e-branco que as cores brotam instantaneamente em nossas retinas. Foto est\u00e1tica, mas t\u00e3o din\u00e2mica que atravessa os tempos mantendo-se sempre atual. Daquelas fotos que revolucionam, que inspiram novos fot\u00f3grafos, que geram discuss\u00f5es, estudos e teorias.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 daquelas fotos cantadas e recitadas. Daquelas fotos com cores da Primavera, texturas do C\u00e9u, sabores da Terra, calor do Sol, som do Mar e cheiro de Casa.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Pai \u00e9 uma foto que ao v\u00ea-la, nos obriga a buscar, n\u00e3o a perfei\u00e7\u00e3o, mas o nosso melhor. Neste sentido, uma foto exigente a ponto de nos causar inquieta\u00e7\u00e3o em momentos de fraqueza. Ao mesmo tempo, uma foto que incentiva e acredita no potencial de quem a est\u00e1 contemplando.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu pai \u00e9 uma foto com alma. Uma alma que cresceu dia ap\u00f3s dia. Que aos 85 anos tornou-se t\u00e3o grande que n\u00e3o coube no seu corpo e extrapolou os limites impostos por este corpo, uma moldura castigada pelo tempo, mas que nunca diminui a beleza da imagem enquadrada.<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, esta foto passou 38 anos em minha parede, me modificou e me moldou todos os dias. Sou feliz e agradecido pelos anos que tive esta foto em minha casa. N\u00e3o est\u00e1 mais na minha parede, mas impressa em meu cora\u00e7\u00e3o, com carinho e amor, aben\u00e7oando minha vida e de minha fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n<p><em>Tenho certeza que todos que o conhecemos temos essa foto em nossos cora\u00e7\u00f5es. Que continuemos ent\u00e3o honrando esta fotografia com quem tivemos a gra\u00e7a de conhecer e conviver.<\/em><\/p>\n<p><em>Uma fotografia que fez deste, um mundo melhor.<\/em><\/p>\n<p><em>Eduardo Nakamura.<\/em><\/p>\n<p>P.S.- Para entender a saga dos japoneses nos Estados Unidos, \u00e9 recomend\u00e1vel a leitura do romance da nipo-americana Julie Otsuka &#8211; O BUDA NO S\u00d3T\u00c3O. N\u00e3o li ainda, mas neste s\u00e1bado (13\/09) h\u00e1 uma resenha de Alcir P\u00e9cora na Folha de S\u00e3o Paulo que \u00e9 um convite irrecus\u00e1vel \u00e0 leitura. Segundo P\u00e9cora, que leu para n\u00f3s, o livro conta as duras condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos japoneses nos Estados Unidos e o conv\u00edvio subalterno com os gringos, que se acirrou com a Segunda Guerra, quando os imigrantes e seus filhos passaram a ser vistos com desconfian\u00e7a, histeria e paranoia. \u00c9 quando o presidente Roosevelt criou os campos de concentra\u00e7\u00e3o, aos quais se refere Eduardo Nakamura, onde s\u00e3o confinados norte-americanos de origem japonesa. Uma mancha a mais na hist\u00f3ria da Mem\u00e9rica.<\/p>\n<p>Aqui, os links para as vers\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li>Do Renato Teixeira com o filho: <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/1kqWomtO7_c');\"  href=\"http:\/\/youtu.be\/1kqWomtO7_c\">http:\/\/youtu.be\/1kqWomtO7_c<\/a><\/li>\n<li>O original do Cat Stevens, com legendas: <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/i3AQG09E0WA');\"  href=\"http:\/\/youtu.be\/i3AQG09E0WA\">http:\/\/youtu.be\/i3AQG09E0WA<\/a><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emocionante, o relato do Bessa introduzindo o texto de seu amigo Eduardo Nakamura, matem\u00e1tico, ambientalista e fot\u00f3grafo, sobre seu pai. &nbsp; MEU PAI \u00c9 UMA FOTOGRAFIA Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire 14\/09\/2014 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas Father &#8211; It&#8217;s not time &hellip; <a href=\"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=91\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[43],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4Lc9A-1t","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/91"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=91"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/91\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/91\/revisions\/95"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=91"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=91"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=91"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}