{"id":770,"date":"2017-08-01T19:58:03","date_gmt":"2017-08-01T22:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=770"},"modified":"2017-08-02T16:39:48","modified_gmt":"2017-08-02T19:39:48","slug":"mauricio-segall","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=770","title":{"rendered":"MAURICIO SEGALL"},"content":{"rendered":"<p>Mais um que se foi.<\/p>\n<p>Ontem, dia 31, morreu Maur\u00edcio Segall, depois de longa enfermidade. Fui ao vel\u00f3rio cedo, no Museu Lasar Segall, assinei o livro de condol\u00eancias e fui embora.\u00a0 Vou a vel\u00f3rios (esse foi o segundo em quinze dias, depois do Marco Aurelio Garcia), mas n\u00e3o fiqco muito tempo por l\u00e1. Presto homenagem ao amigo morto, e n\u00e3o me sinto bem no evento social em que a cerim\u00f4nia se transforma. Nada contra, \u00e9 quest\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Conheci Segall em 1971 quando, depois de preso e torturado na OBAN e de passar pelo DOPS, finalmente fui transferido para o Pres\u00eddio Tiradentes. Hoje demolido, antigo mercado de escravos, o Tiradentes fora o local de pris\u00e3o de Monteiro Lobato, Caio Prado Jr. e muitos outros presos. Eram dois pavilh\u00f5es. O maior guardava ainda presos comuns, muitos dos quais foram dali retirados e assassinados pelo Esquadr\u00e3o de Morte, do famigerado Fleury. No pavilh\u00e3o menor, na cela 6, para onde me mandaram, encontrei, al\u00e9m do Maur\u00edcio, os arquitetos ligados \u00e0 ALN, S\u00e9rgio Ferro, S\u00e9rgio Souza Lima, Carlos Henrique Heck, Rodrigo Lefevre e Julio Barone.<\/p>\n<p>Preso pol\u00edtico, torturado pela equipe do Fleury, Maur\u00edcio Segall chegou a ver Joaquim C\u00e2mara Ferreira, o \u201cVelho\u201d que substituiu Marighella no comando da ALN, nos seus \u00faltimos momentos de vida, arfando prestes a morrer deitado em uma mesa em uma pris\u00e3o clandestina, como relata Jacob Gorender em seu \u201cCombate nas Trevas\u201d.<\/p>\n<p>Estabelecemos uma conviv\u00eancia amistosa e muito produtiva, naquelas circunst\u00e2ncias. Aprendi muito com todos, especialmente com Ferro (que produziu quadros excepcionais nesse per\u00edodo, e que, anos depois, participou de um Jogo de Ideias, juntamente comigo e com Al\u00edpio Freire, e media\u00e7\u00e3o de Claudiney Ferreira, cujo v\u00eddeo pode ser visto <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/YPH35X5VIn0');\"  href=\"https:\/\/youtu.be\/YPH35X5VIn0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> e <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/ReJXdiFhFcA');\"  href=\"https:\/\/youtu.be\/ReJXdiFhFcA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>. Infelizmente n\u00e3o achei v\u00eddeos com o Maur\u00edcio Segall, no caso falando sobre a obra do pai, Lasar Segall, e do Museu que foi fundado gra\u00e7as \u00e0 iniciativa da fam\u00edlia, no caso Maur\u00edcio e seu irm\u00e3o Oscar, principalmente.<\/p>\n<p>No Tiradentes, Maur\u00edcio j\u00e1 mantinha conversas com o irm\u00e3o, que ent\u00e3o era presidente da Caixa Econ\u00f4mica de S. Paulo, personagem profundamente conservador, sobre o modo de viabilizar a doa\u00e7\u00e3o da casa e do acervo familiar do grande Lasar Segall. A preocupa\u00e7\u00e3o era a de que a forma da doa\u00e7\u00e3o impedisse a dispers\u00e3o, a dilapida\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o do Lasar Segall para as artes e a cultura brasileiras.<\/p>\n<p>Maur\u00edcio era o mais velho da cela. Tinha suas idiossincrasias, que administramos sempre atrav\u00e9s do di\u00e1logo. Por exemplo, circulava pelo pavilh\u00e3o uma pequena TV, branco e preto, que ficava um dia em cada cela, em rod\u00edzio. Maur\u00edcio detestava TV, e n\u00e3o queria que suas leituras fossem prejudicadas pelo barulho. A solu\u00e7\u00e3o foi montar uma traquitana que subdividia o fone de ouvido, o \u201cego\u00edsta\u201d, com os fios correndo por toda a cela, at\u00e9 cada um no seu \u201cmoc\u00f3\u201d (o beliche de cada preso), enquanto Maur\u00edcio fechava a cortina do seu e continuava lendo. Ningu\u00e9m era f\u00e3 da TV, mas encar\u00e1vamos aquilo como uma divers\u00e3o na rotina da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Anos depois, j\u00e1 soltos, visitei Maur\u00edcio no museu, e de vez em quando nos encontr\u00e1vamos em v\u00e1rios eventos e atividades do PT.<\/p>\n<div id=\"attachment_771\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-771\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-771\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Mauricio-Segal.jpg?resize=640%2C426\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Mauricio-Segal.jpg?resize=1024%2C682 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Mauricio-Segal.jpg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Mauricio-Segal.jpg?resize=768%2C512 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Mauricio-Segal.jpg?w=1054 1054w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-771\" class=\"wp-caption-text\">Com Maur\u00edcio Segall, no lan\u00e7amento de seu livro &#8220;Poesias ao Acaso&#8221;, no Bar Brahma.<\/p><\/div>\n<p>Muito generoso, ele comemorou um de seus anivers\u00e1rios com uma bela festa em uma gafieira em Pinheiros (n\u00e3o existe mais), onde reuniu familiares, amigos das artes pl\u00e1sticas, do teatro (foi diretor do Theatro S. Pedro) e da milit\u00e2ncia. Reunidos, dan\u00e7ando e desfrutando da generosidade do Maur\u00edcio, todos tiveram uma noite divertida.<\/p>\n<p>Uma vez, em um evento na Cinemateca Brasileira, encontrei o Maur\u00edcio que estava t\u00e3o indignado como eu com o que um conhecido cronista d\u2019O Globo havia escrito. Era uma cr\u00f4nica que comentava o fato de um dos filhos, creio que do Sadam Hussein ou do Kadafi, que controlava a Federa\u00e7\u00e3o de Futebol, haver torturado jogadores que n\u00e3o tiveram o desempenho esperado. O cronista \u2013 que diziam ser boa gente &#8211; comentava jocosamente que essa solu\u00e7\u00e3o de torturar incompetentes podia ser aplicada a nem me lembro que jogador de um time de futebol carioca.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos indignados, e chegamos a pensar em abrir um processo contra o sujeito por apologia \u00e0 tortura. N\u00f3s sab\u00edamos o que era aquilo com que o tal cronista fazia brincadeiras&#8230;<\/p>\n<p>Maur\u00edcio era poeta, e sempre convidava os amigos para os lan\u00e7amentos, n\u00e3o em livrarias. Geralmente eram bares ou locais de boemia, boa bebida e boa comida&#8230; Lembro do que aconteceu em um bar no Largo de Santa Cec\u00edlia e outro no Brahma, evento que ele mandou fotografar e depois enviou c\u00f3pia para cada um, e que reproduzo neste post.<\/p>\n<p>Foi um personagem extremamente coerente e combativo, defendia suas ideias com veem\u00eancia e decis\u00e3o. Mas era tamb\u00e9m uma m\u00e1quina da promo\u00e7\u00e3o da cultura brasileira e, em particular, da paulista. A doa\u00e7\u00e3o memor\u00e1vel da casa e do acervo para constituir o Museu Lasar Segall, numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia benef\u00edcios fiscais para isso, \u00e9 um desses raros exemplos de desprendimento e compreens\u00e3o de que a arte, no caso a feita por seu pai, deveria ter uma apropria\u00e7\u00e3o social, e n\u00e3o simplesmente ser objeto de decora\u00e7\u00e3o e propriedade apreciada por admiradores e colecionadores ricos. Maur\u00edcio Segall foi velado na casa da sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um que se foi. Ontem, dia 31, morreu Maur\u00edcio Segall, depois de longa enfermidade. 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