{"id":726,"date":"2017-03-10T22:52:25","date_gmt":"2017-03-11T01:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=726"},"modified":"2017-03-12T13:18:22","modified_gmt":"2017-03-12T16:18:22","slug":"herois-e-militantes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=726","title":{"rendered":"HER\u00d3IS E MILITANTES"},"content":{"rendered":"<p>Em final de novembro do ano passado faleceu um de meus amigos mais antigos, que conheci em Bras\u00edlia em 1966, Alvaro Lins Cavalcante Filho. Era meu vizinho de quadra e, para deixar logo algumas coisas claras, tamb\u00e9m filho de um deputado federal, como eu. Ele estudava no CIEM, o Centro Integrado de Ensino M\u00e9dio, escola de aplica\u00e7\u00e3o da UnB, e eu no Elefante Branco, ambos col\u00e9gios p\u00fablicos da Capital. \u00c1lvaro queria ser f\u00edsico; eu, antrop\u00f3logo.<\/p>\n<p>Ele nunca conseguiu ser f\u00edsico, embora eu tenha, no final das contas, terminado o curso de Antropologia, j\u00e1 n\u00e3o na UnB, mas na Universidad de San Marcos, em Lima, no Peru. Naquelas alturas Alvrinho, como era conhecido por todos seus amigos de Bras\u00edlia, j\u00e1 trabalhava como ferramenteiro na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O que nos reuniu, entretanto, n\u00e3o foi o fato de sermos vizinhos, nem filhos de pol\u00edticos. Foi a milit\u00e2ncia no movimento estudantil. E nos encontramos n\u00e3o por sermos vizinhos, e sim apresentados por um amigo comum, Haroldo Saboia, que conhecia o Antonio Neiva Moreira Filho, maranhense como ele, e colega de classe do \u00c1lvaro. Foi uma amizade que durou entre os quatro, at\u00e9 a morte, primeiro do Neiva, h\u00e1 dois anos, e depois do \u00c1lvaro.<\/p>\n<p>Eu vinha de Manaus, onde j\u00e1 militara no PCB, participando das discuss\u00f5es do VI Congresso e muito desgostoso com as atitudes e pol\u00edticas do partid\u00e3o, desde o golpe de 64. Naquela altura, atrav\u00e9s de outro amigo, o M\u00e1rcio Souza, j\u00e1 conhecia as discuss\u00f5es de uma dissid\u00eancia do PCdoB, que viria a ser a Ala Vermelha, e estava vinculado com a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As conversas entre os quatro amigos conhecidos em Bras\u00edlia resultaram no ingresso deles na AV do PCdoB, e nessa condi\u00e7\u00e3o milit\u00e1vamos no movimento estudantil em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>De todos n\u00f3s, os \u00c1lvaro sempre foi o mais expansivo, e com maior presen\u00e7a p\u00fablica no ME. Aconteceu que, depois que ingressamos na UnB, em 1967, o Haroldo me apresentou ao Evandro Carlos de Andrade, ent\u00e3o diretor da sucursal do Estad\u00e3o em Bras\u00edlia, onde comecei a trabalhar como rep\u00f3rter setorista.<\/p>\n<p>Era curioso. De manh\u00e3 assist\u00edamos aulas, particip\u00e1vamos de discuss\u00f5es pol\u00edticas, entre n\u00f3s e com companheiros que j\u00e1 sab\u00edamos (ou pelo menos desconfi\u00e1vamos) que fossem militantes de outras organiza\u00e7\u00f5es. Interessante notar que, em grande medida por conta da grande capacidade de lideran\u00e7a do Honestino Guimar\u00e3es, ent\u00e3o presidente do diret\u00f3rio acad\u00eamico, a constru\u00e7\u00e3o de unidade no ME em Bras\u00edlia foi, me parece, bem mais f\u00e1cil que em outras cidades.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes de manh\u00e3, \u00e0s vezes de tarde, principalmente no final da tarde, o ano de 1968 foi movimentad\u00edssimo com as manifesta\u00e7\u00f5es que ocorreram, como a passeata dos Cem Mil no Rio, as passeatas em S. Paulo, Goi\u00e2nia, Bras\u00edlia, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e muitas outras cidades. O pa\u00eds vivia um clima de agita\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia ao golpe se fazia cada vez mais evidente.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, eu trabalhava no jornal e, acreditem, era \u201csetorista\u201d no Itamaraty e nos tr\u00eas minist\u00e9rios militares. Maria Jos\u00e9 Silveira, com quem comecei a namorar nessa \u00e9poca, era \u201csetorista\u201d do JB, sob a batuta do Carlos Castello Branco, tamb\u00e9m cobria os tr\u00eas minist\u00e9rios militares, e j\u00e1 trabalhou ficcionalmente isso em romances e contos. Era, de certa forma, surrealista. Conversando com os militares, que evidentemente aproveitavam para mandar os mais variados recados atrav\u00e9s dos jornalistas, antes ou depois de participar de passeatas, reuni\u00f5es clandestinas, assembleias e agita\u00e7\u00f5es na UnB, voltar para as reda\u00e7\u00f5es, escrever o que consegu\u00edamos apurar \u2013 e que era fruto de muita aten\u00e7\u00e3o por parte dos respectivos chefes de sucursais&#8230; Depois de tudo isso, eventualmente um chope, ou sess\u00f5es de cinema, inclusive no Clube de Cinema da UnB, que funcionava no audit\u00f3rio da Escola Parque, onde vimos muitos e muitos cl\u00e1ssicos (o romance \u201cO Fantasma de Luis Bu\u00f1uel\u201d, da Maria Jos\u00e9, descreve bem esse cen\u00e1rio no primeiro cap\u00edtulo do livro).<\/p>\n<p>Mas, para encurtar. N\u00e3o quero falar aqui da milit\u00e2ncia em Bras\u00edlia, e sim do que aconteceu depois. D\u00e1-se voltas, e a milit\u00e2ncia me levou \u00e0 pris\u00e3o e ao ex\u00edlio, e s\u00f3 voltei a encontrar \u00c1lvaro em 1977, quando voltamos para o Brasil (eu e Maria Jos\u00e9), e fomos morar no Rio de Janeiro. Retomados os contatos com a Ala Vermelha, uma surpresa. O \u00c1lvaro estava na Baixada Fluminense, com identidade falsa, trabalhando como ferramenteiro em uma grande empresa, e j\u00e1 havia recrutados v\u00e1rios oper\u00e1rios. Neiva, conhecido como Sossonho, tamb\u00e9m estava no Rio, envolvido com as articula\u00e7\u00f5es e setores profissionais (era economista).<\/p>\n<div id=\"attachment_727\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-727\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-727 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20161128091927367495e.jpg?resize=300%2C190\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20161128091927367495e.jpg?resize=300%2C190 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20161128091927367495e.jpg?resize=768%2C487 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20161128091927367495e.jpg?resize=1024%2C650 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/20161128091927367495e.jpg?w=1051 1051w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-727\" class=\"wp-caption-text\">A identidade funcional do \u00c1lvaro na TRW, com nome falso.<\/p><\/div>\n<p>De fato, era a aplica\u00e7\u00e3o do chamado Documento dos 16 Pontos, de 1969, no qual a AV iniciava um profundo processo de autocr\u00edtica das concep\u00e7\u00f5es militaristas. Dizia o documento:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cAo inv\u00e9s de nos preocuparmos em modificar nossa fisionomia pol\u00edtica, ligando-nos \u00e0s massas, combatendo a burocracia, formando quadros politica e ideologicamentre capacitados, profundamente enraizados na massa, capazes de enfrentar as vastas e complexas tarefas que a revolu\u00e7\u00e3o brasileira nos imp\u00f5e, simplificamos tudo, adotando uma posi\u00e7\u00e3o que se revelou objetivamente oportunista, pois fora das possibilidades de realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, que se desligava ainda mais das massas b\u00e1sicas, dos problemas por elas enfrentado. Demos uma solu\u00e7\u00e3o altamente simplista: \u2018os melhores quadros do Partido iriam para o foco\u2019. Que partido? Que quadros? Quadros de origem pequeno-burguesa, parcos de conhecimento cient\u00edfico, formados em sua maioria fora do trabalho pol\u00edtico entre as massas\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>De fato, ainda que de modo acidentado desde 1971, a AV havia reorientado o trabalho de seus militantes para frentes de massa. Houve os que ingressaram em f\u00e1bricas e a partir dali tiveram atua\u00e7\u00e3o sindical; os que desenvolveram trabalho em favelas e conjuntos populares. Os jornalistas e outros profissionais, os quadros de origem pequeno-burguesa, passaram a fazer o que sabiam: montar frentes para constru\u00e7\u00e3o de jornais que apoiassem o trabalho sindical e o trabalho nos bairros, ou de apoio operacional e log\u00edstico para esses trabalhos.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro fazia um trabalho muito interessante na Baixada Fluminense. Por um lado, na f\u00e1brica e nas articula\u00e7\u00f5es sindicais. J\u00e1 havia recrutado um grupo expressivo de oper\u00e1rios, alguns de grandes empresas da \u00e1rea. Chegou a organizar um encontro de sindicalistas que trabalhavam na Brown-Bovery no Rio e em S. Paulo. Por outro lado, morando na Vila Kennedy com Vilma Costa, cearense com quem havia casado e com quem j\u00e1 tinha tr\u00eas filhos. O casal desenvolvia tamb\u00e9m um trabalho de bairro, organizando os moradores em torno dos problemas locais: transporte, escola, custo de vida, etc.<\/p>\n<p>Trabalhando juntos com o Alvrinho, desenvolvemos dois projetos significativos. O primeiro foi o CECUT \u2013 Centro Cultural dos Trabalhadores. Era um local de integra\u00e7\u00e3o entre trabalho oper\u00e1rio e trabalho de bairro, com palestras, reuni\u00f5es, festas e outras atividades relacionadas com as duas frentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_728\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-728\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-728\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/antonio-neiva.jpg?resize=300%2C221\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/antonio-neiva.jpg?resize=300%2C221 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/antonio-neiva.jpg?w=380 380w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-728\" class=\"wp-caption-text\">Antonio Neiva, o Sossonho.<\/p><\/div>\n<p>O segundo foi a articula\u00e7\u00e3o, com pessoas vinculadas \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, do \u201cJornal da Baixada\u201d. A publica\u00e7\u00e3o, que tirou seis n\u00fameros, procurava refor\u00e7ar essa liga\u00e7\u00e3o entre o trabalho oper\u00e1rio e sindical. Sossonho, nessas alturas, al\u00e9m de organizar grupos de apoio entre economistas e outros profissionais, j\u00e1 estava envolvido na constru\u00e7\u00e3o do PT.<\/p>\n<p>Esses v\u00e1rios tipos de trabalho, que se repetiam \u00e0s centenas por todo o pa\u00eds, foi construindo paulatinamente um movimento de rep\u00fadio \u00e0 ditadura, com crescentes mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que, em 1974, praticamente todas as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda defenderam o voto nulo nas elei\u00e7\u00f5es. O resultado foi uma vit\u00f3ria acachapante da Arena (\u201cO maior partido pol\u00edtico do Ocidente\u201d, nas palavras do Francelino Pereira). Em 1977, sentindo o cheiro da derrota nas elei\u00e7\u00f5es gerais do ano seguinte, Geisel editou o chamado \u201cPacote de Abril\u201d, com a institui\u00e7\u00e3o dos senadores \u201cbi\u00f4nicos\u201d, das sublegendas e de outras medidas que dificultaram o desempenho da oposi\u00e7\u00e3o. Ainda assim, no ano seguinte, apesar do governo ainda manter maioria no Congresso, o avan\u00e7o das oposi\u00e7\u00f5es foi substancial.<\/p>\n<p>Isso foi decorrente de um processo duplo de ac\u00famulo de for\u00e7as. Por um lado, do ponto de vista institucional, os \u201caut\u00eanticos\u201d do MDB (depois PMDB) aumentavam sua import\u00e2ncia. Por outro lado, esse trabalho nas bases foi criando press\u00e3o, obrigando a ditadura a admitir a reforma partid\u00e1ria (a cria\u00e7\u00e3o do PDT e do PT, que elegeram seus primeiros parlamentares em 1982), e a elei\u00e7\u00e3o direta para governadores. Apesar das grandes restri\u00e7\u00f5es, o aumento da oposi\u00e7\u00e3o era cada vez mais importante, e 1982 foi um momento de virada no processo que terminaria com o final (negociado) da Ditadura.<\/p>\n<p>Cito aqui esses fatos, sem querer entrar em maiores detalhes, por uma simples raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da derrocada das tentativas de luta armada, o desenvolvimento desses trabalhos de base &#8211; a partir dos remanescentes das organiza\u00e7\u00f5es que haviam feito autocr\u00edtica da chamada luta armada, entre as quais a Ala Vermelha &#8211; \u00a0passou a ser um constituinte das movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As greves sindicais, especialmente as do ABC paulista, a partir de 1978, as greves dos canavieiros da Zona da Mata de Pernambuco (da qual participei ativamente), os movimentos contra o custo de vida, pela moradia e tantos outros tiveram seu papel. Em S\u00e3o Paulo, o \u201cABCD Jornal\u201d, tamb\u00e9m uma iniciativa de frente de jornalistas dirigida pela Ala Vermelha, teve um papel fundamental na condu\u00e7\u00e3o das greves depois da interven\u00e7\u00e3o no Sindicato dos Metal\u00fargicos de S. Bernardo e da pris\u00e3o do Lula. E o mesmo se repetiu em outras cidades, com menor repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das mobiliza\u00e7\u00f5es e trabalhos desenvolvidos por esse n\u00famero crescente de militantes \u2013 oriundos, como assinalei, tanto das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda como das chamadas organiza\u00e7\u00f5es de base da Igreja Cat\u00f3lica \u2013 foram criando esse pano de fundo que favorecia as articula\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito institucional.<\/p>\n<p>No entanto, na \u201chist\u00f3ria oficial\u201d da derrubada da ditadura, o que recebeu grande \u00eanfase n\u00e3o foi isso. As movimenta\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito institucional, a partir do PMDB, o \u201cracha\u201d da sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ditadura, com a cria\u00e7\u00e3o (e depois volta ao PMDB) do PP de Tancredo Neves, e as greves sindicais do ABC, apresentadas como fruto espont\u00e2neo do \u201cnovo sindicalismo\u201d \u00e9 que receberam todo o foco e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00c1lvaro foi um exemplo dos militantes que estavam l\u00e1 na base, construindo as condi\u00e7\u00f5es para a derrocada da ditadura. Sempre foi um tipo multifacetado, com in\u00fameros interesses e sempre atento a novas possibilidades de a\u00e7\u00e3o. O resultado disso \u00e9 o grande prest\u00edgio que at\u00e9 hoje desfruta entre todos os que militaram com ele no Rio de Janeiro, seja no movimento sindical, seja no trabalho de bairro, ainda que sua trajet\u00f3ria posterior n\u00e3o tenha tido a linearidade que muitos esperavam.<\/p>\n<p>Sossonho, por sua vez, ativ\u00edssimo nas articula\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o do PT, trabalhando junto com camaradas como Jorge Bittar, ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro, e de sua companheira Sandra Neiva, economista do BNDE, e outros.<\/p>\n<p>De qualquer modo, a recupera\u00e7\u00e3o desse tipo de militante e de seu papel na constru\u00e7\u00e3o de nossa fr\u00e1gil democracia \u00e9 importante. At\u00e9 para entendermos algumas das ra\u00edzes dessas fragilidades de hoje, a oscila\u00e7\u00e3o entre a perspectiva da luta armada e a das mobiliza\u00e7\u00f5es dentro da legalidade institucional s\u00e3o trajet\u00f3rias que precisam ser mais bem avaliadas, compreendidas e respeitadas.<\/p>\n<p>Criou-se, nos \u00faltimos anos, um culto \u00e0s v\u00edtimas da ditadura. Os companheiros assassinados e brutalizados pela repress\u00e3o aparecem como os her\u00f3is da resist\u00eancia, enquanto a avalia\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o dos militantes sobreviventes e pertinazes trabalhadores, que contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, do movimento popular e das grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massa dos anos 80, ficaram obscurecidas.<\/p>\n<p>A mitologia dos her\u00f3is precisa ser revisada e a nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica recente deve, mais que nunca, incluir essas trajet\u00f3rias de milit\u00e2ncia, perseveran\u00e7a e trabalho \u00e1rduo. At\u00e9 para que n\u00e3o se repitam v\u00e1rios dos erros cometidos, como o desmantelamento de muito do que foi feito nesse esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o do movimento de massas em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse sentido que presto minhas homenagens aos camaradas \u00c1lvaro Lins e Antonio Neiva (falecido h\u00e1 dois anos), como dois representantes dessa massa de militantes que teve papel significativo na derrota da ditadura e retomada da democracia em nosso pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em final de novembro do ano passado faleceu um de meus amigos mais antigos, que conheci em Bras\u00edlia em 1966, Alvaro Lins Cavalcante Filho. 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