{"id":711,"date":"2017-02-19T23:20:31","date_gmt":"2017-02-20T02:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=711"},"modified":"2017-02-19T23:20:31","modified_gmt":"2017-02-20T02:20:31","slug":"o-ultimo-homem-na-torre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=711","title":{"rendered":"O \u00daLTIMO HOMEM NA TORRE"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-712\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/1242380-250x250-274838.png?resize=250%2C250\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/1242380-250x250-274838.png?w=250 250w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/1242380-250x250-274838.png?resize=150%2C150 150w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" data-recalc-dims=\"1\" \/> Rec\u00e9m terminei a leitura do romance \u201cO \u00daltimo Homem na Torre\u201d (li em ingl\u00eas, mas h\u00e1 edi\u00e7\u00e3o brasileira da Nova Fronteira), de Aravind Adiga. \u00c9 o autor de \u201cTigre Branco\u201d, que ganhou o Booker Prize em 2008.<\/p>\n<p>O romance mostra a rea\u00e7\u00e3o dos moradores da Torre A, da Sociedade Habitacional Vishram, em Mumbai. O edif\u00edcio \u00e9 velho, a manuten\u00e7\u00e3o ruim, o fornecimento de \u00e1gua intermitente, o elevador nem sempre funciona e est\u00e1 na rota de pouso do aeroporto de Mumbai. Mas seus habitantes se orgulham de ser uma comunidade bem integrada, com moradores vindos de v\u00e1rias regi\u00f5es da \u00cdndia e praticantes de v\u00e1rias das muitas religi\u00f5es do pa\u00eds. Em volta, favelas e tamb\u00e9m algumas novas constru\u00e7\u00f5es de espig\u00f5es, em uma cidade que cresce vertiginosamente.<br \/>\nUm belo dia os moradores s\u00e3o surpreendidos pela proposta de um magnata da incorpora\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, Dharmen Sha, que oferece um pre\u00e7o muito acima do valor de mercado para a compra de todo o edif\u00edcio. Sha acredita que essa oferta generosa abrir\u00e1 facilmente o caminho para derrubar o velho pr\u00e9dio e construir um complexo de apartamentos de luxo, seu projeto \u201cShanghai\u201d. E isso efetivamente \u00e9 o que acontece com o pr\u00e9dio vizinho, a Torre B, que rapidamente aceita a proposta.<\/p>\n<p>O edif\u00edcio \u00e9 uma esp\u00e9cie de sociedade cooperativa. Cada um de seus moradores \u00e9 \u201cpropriet\u00e1rio\u201d do apartamento, mas as decis\u00f5es sobre o edif\u00edcio s\u00e3o coletivas e, principalmente, a venda dos apartamentos deve ser uma decis\u00e3o un\u00e2nime dos moradores.<\/p>\n<p>Na Torre A, entretanto, quatro moradores resistem \u00e0 ideia, por diferentes raz\u00f5es. Um casal cuja mulher \u00e9 cega e j\u00e1 se acostumou com a geografia do pr\u00e9dio e teme mudar-se para um lugar desconhecido; uma senhora, conhecida como \u201cEncoura\u00e7ado\u201d, esp\u00e9cie de assistente social e acusada de comunista pelos vizinhos, que teme a especula\u00e7\u00e3o capitalista e acha que a promessa \u00e9 falsa, e Sha n\u00e3o ir\u00e1 pagar todo o prometido. Mas a resist\u00eancia acaba se concentrando em Masterji, professor aposentado de f\u00edsica, estimado e respeitado por todos, vi\u00favo. Masterji d\u00e1 aulas gratuitas de refor\u00e7o para os jovens do pr\u00e9dio, \u00e9 muito amigo do casal e, inicialmente, se op\u00f5e \u00e0 venda em solidariedade a eles.<\/p>\n<p>Uma trama que lembra, de imediato, a do filme \u201cAquarius\u201d, de Kleber Mendon\u00e7a Filho. Que os cr\u00edticos aclamam como um dos melhores filmes de 2016.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia de Masterji seria igual \u00e0 da personagem da Sonia Braga nesse filme.<\/p>\n<p>S\u00f3 que&#8230;<\/p>\n<p>Aravind Adiga \u00e9 um romancista fant\u00e1stico. A radiografia da \u00cdndia em seus livros \u00e9 dilacerante, e a arquitetura, pelo menos dos dois que li (este e \u201cO Tigre Branco\u201d), \u00e9 magistral.<\/p>\n<p>O autor vai tecendo a hist\u00f3ria de \u201cO \u00daltimo Homem na Torre\u201d a partir das caracter\u00edsticas e da vida dos moradores, e tamb\u00e9m a do especulador e de sua \u201cm\u00e3o esquerda\u201d (o encarregado do trabalho sujo), revelando um complexo de rela\u00e7\u00f5es sociais, pessoais e econ\u00f4micas que justificam, ou explicam, as decis\u00f5es de cada um desses moradores. E de como Dharmen Sha consegue vencer, um a um, a resist\u00eancia dos que n\u00e3o querem vender.<br \/>\nMenos de Masterji.<\/p>\n<p>A recusa do velho professor \u2013 que no caminho vai descobrindo algumas verdades sobre si mesmo e sobre a percep\u00e7\u00e3o que dele tinham seus vizinhos e os ex-alunos \u2013 \u00e9 aparentemente a mais fr\u00e1gil. Ele simplesmente n\u00e3o quer nada. S\u00f3 quer continuar no edif\u00edcio e sonha em continuar a \u201cvida comunit\u00e1ria\u201d que, aparentemente, levava os moradores, juntos, a navegar pelas turbul\u00eancias da vida indiana.<\/p>\n<p>As apar\u00eancias enganam e o romancista constr\u00f3i as raz\u00f5es pessoais e psicol\u00f3gicas que levam os moradores a aceitar, recusar e mudar de ideia acerca da proposta de venda.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica mais interessante \u00e9 a que confronta Masterji com seus vizinhos. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o que parte de uma vis\u00e3o semi-id\u00edlica da vida no edif\u00edcio para a constru\u00e7\u00e3o dos conflitos que, latentes, se expressam na posi\u00e7\u00e3o de cada um em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 venda. N\u00e3o se trata t\u00e3o somente de uma contraposi\u00e7\u00e3o entre os gananciosos que cedem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da oferta do especulador e os que simplesmente se aferram sentimentalmente ao edif\u00edcio onde viveram d\u00e9cadas. Essa rela\u00e7\u00e3o entre os vizinhos \u2013 que est\u00e1 completamente ausente do filme de Kleber Mendon\u00e7a \u2013 \u00e9 que constr\u00f3i a trama.<\/p>\n<p>Evidentemente, os meios s\u00e3o distintos. Aravind Adiga escreve um romance, forma na qual o espa\u00e7o e o tempo para a constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica dos personagens \u00e9 constituinte da hist\u00f3ria, e Aquarius \u00e9 um filme, no qual a a\u00e7\u00e3o tem que resolver a trama.<\/p>\n<p>No entanto, o que me chamou aten\u00e7\u00e3o no filme foi precisamente essa aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre todos os moradores. A a\u00e7\u00e3o se concentra na recusa da personagem da Sonia Braga, e n\u00e3o aparecem praticamente em momento algum os poss\u00edveis conflitos dela com seus ex-vizinhos, nesse processo de compra dos demais apartamentos, salvo em um breve di\u00e1logo no qual o filho de um dos ex-moradores diz que ela est\u00e1 sendo ego\u00edsta e impedindo que todos recebam a parcela final da venda. \u00c9 muita simplifica\u00e7\u00e3o para o meu gosto.<\/p>\n<p>Aquarius acabou tendo uma repercuss\u00e3o muito maior, mais em fun\u00e7\u00e3o do momento e da atitude de atores e diretores em um contexto extrafilme do que por suas qualidades intr\u00ednsecas, que se expressam em um discurso cuja forma, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 bem resolvida. A cr\u00edtica e a simpatia pela a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do elenco e equipe t\u00e9cnica \u00e9 que explicitaram o filme como um manifesto contra a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, e extrapolaram essa interpreta\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que resultou no golpe. Mas o filme, enquanto tal, n\u00e3o consegue expressar satisfatoriamente isso. Jogar o cupim na mesa do especulador n\u00e3o resolve o conflito. \u00c9 mais a express\u00e3o de uma vingan\u00e7a \u2013 merecida, ali\u00e1s \u2013 que um desfecho.<\/p>\n<p>\u201cO \u00daltimo Home na Torre\u201d, ao contr\u00e1rio, \u00e9 constru\u00eddo por esse conjunto de rela\u00e7\u00f5es entre os moradores, e s\u00e3o elas que conduzem a trama e definem o desfecho tr\u00e1gico do romance.<\/p>\n<p>Quem viu o filme certamente merece ler o livro do indiano. E Kleber Mendon\u00e7a, se o houvesse lido (foi lan\u00e7ado em 2011), poderia ter melhorado muito seu roteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rec\u00e9m terminei a leitura do romance \u201cO \u00daltimo Homem na Torre\u201d (li em ingl\u00eas, mas h\u00e1 edi\u00e7\u00e3o brasileira da Nova Fronteira), de Aravind Adiga. \u00c9 o autor de \u201cTigre Branco\u201d, que ganhou o Booker Prize em 2008. 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