{"id":691,"date":"2017-01-28T12:07:17","date_gmt":"2017-01-28T15:07:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=691"},"modified":"2017-01-28T12:07:17","modified_gmt":"2017-01-28T15:07:17","slug":"ambiguidades-ou-significados-transformados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=691","title":{"rendered":"AMBIGUIDADES \u2013 OU SIGNIFICADOS TRANSFORMADOS"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-692\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/\u00eddolo.jpg?resize=215%2C290\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"290\" data-recalc-dims=\"1\" \/> <strong>O \u00cddolo<\/strong>, dirigido por Hany Abu-Assad, de quem vimos o belo<strong> Paradise Now,<\/strong> \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o de um diretor que n\u00e3o teme temas pol\u00eamicos. <strong>Paradise Now<\/strong> tratava do recrutamento de dois jovens palestinos como homens-bomba, em um retrato brilhante do que leva aqueles jovens desesperados a sacrificar suas vidas por uma causa.<\/p>\n<p><strong>O \u00cddolo<\/strong> \u00e9 outra coisa. Fui ver o filme por conta do diretor, apesar da sinopse n\u00e3o me atrair nem um pouco. Conta a hist\u00f3ria de Mohammed Assaf, jovem palestino, que vence a segunda temporada da vers\u00e3o \u00e1rabe do programa de \u201cdescoberta de talentos\u201d, o \u00cddolo. O programa, gerado no L\u00edbano, \u00e9 uma franquia que tem a mesma origem desses que passam por aqui, nos quais jovens cantores passam por sele\u00e7\u00f5es sucessivas at\u00e9 a final. Coisa detest\u00e1vel e brega, para meu gosto. O programa joga com as ambi\u00e7\u00f5es dos jovens (\u00e0s vezes nem t\u00e3o jovens assim) de ficarem famosos e ricos com suas vozes.<\/p>\n<p>O filme conta a hist\u00f3ria de Assaf, e termina por ser uma interessante mostra de ambiguidade de formas de luta, e de como at\u00e9 coisas como esse tipo de programas de televis\u00e3o podem ter m\u00faltiplas camadas de significado.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Assaf \u00e9 bem representativa dos sofrimentos pelos quais passaram os palestinos desde a Naqba, a \u201ccat\u00e1strofe\u201d que foi, para eles, o \u00eaxodo for\u00e7ado pelo avan\u00e7o do ex\u00e9rcito israelense na guerra de 1948 (n\u00e3o vou discutir isso aqui). Assaf nasceu em Misrata, na L\u00edbia, filho de pais palestinos, onde viveu at\u00e9 os quatro anos de idade. Seus parentes voltaram para Gaza, onde ele cresceu no campo de refugiados de Khan Younis, em uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia (sua m\u00e3e era professora de matem\u00e1tica). A fam\u00edlia materna era originalmente da aldeia de Bayt Daras, que foi tomada e despopulada pelo ex\u00e9rcito israelense em 1948. A do pai era origin\u00e1ria de Beersheba, conhecida como \u201ccapital do Negev\u201d, hoje tamb\u00e9m ocupada por Israel. Todos, portanto, desterrados e expulsos de seus lares. Segundo a m\u00e3e, Assaf cantava desde crian\u00e7a, com voz muito bonita e forte, como a de um adulto.<\/p>\n<p>O filme narra basicamente a hist\u00f3ria de como Assaf come\u00e7a a cantar, acompanhado de irm\u00e3os e amigos em uma banda improvisada, at\u00e9 seu sucesso na TV. Destaca-se no trecho inicial o desempenho da jovem atriz Hiba Attahllah, como Nour (Luz, em \u00e1rabe), irm\u00e3 de Assaf e um verdadeiro d\u00ednamo que impulsiona sua voca\u00e7\u00e3o, e morre de insufici\u00eancia renal ao n\u00e3o conseguir um rim para transplante nas dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de Gaza. Uma pequena atriz que j\u00e1 gostaria de rever em outro filme.<\/p>\n<p>Essa etapa do filme mostra uma Gaza que j\u00e1 sofria com o bloqueio, e onde as condi\u00e7\u00f5es de vida eram dif\u00edceis. Achei interessante que, ao contr\u00e1rio do que a propaganda deixa entender, os mu\u00e7ulmanos de Gaza desfrutam de muita liberdade pessoal, embora condicionadas pelo machismo \u00e1rabe (mais \u00e1rabe que mu\u00e7ulmano). Aparecem mulheres com e sem hijab circulando, embora se note a tens\u00e3o que j\u00e1 existe entre os grupos mais religiosos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. Assaf \u00e9 elogiado (e remunerado), quando atua como cantor na mesquita, interpretando passagens do Alcor\u00e3o durante as cerim\u00f4nias. Mas um de seus amigos, Omar, que se torna religioso, abandona a banda alegando que a m\u00fasica em geral \u00e9 obra do diabo&#8230; Durante sua carreira, inclusive como cantor em casamentos, Assaf enfrentou problemas com as for\u00e7as paramilitares palestinas de Gaza, tendo sido detido v\u00e1rias vezes, ainda que brevemente (isso n\u00e3o aparece no filme).<\/p>\n<p>Depois da morte de Nour, o filme d\u00e1 um salto de doze anos, e o que se v\u00ea \u00e9 uma Gaza pesadamente destru\u00edda, isolada e cercada. Ainda assim, Assaf estuda na Universidade da Cidade de Gaza, ao mesmo tempo que trabalha como taxista.<\/p>\n<p>O filme conta como ele, estimulado por Amal, uma jovem que tamb\u00e9m tinha problemas renais, decide concorrer no \u201cArab Idol\u201d. Amal o convence, no filme, ao lhe dizer que se sentia feliz ao ouvi-lo cantar, e que era preciso \u201cdar-nos algo de que possamos nos orgulhar no meio de tantos problemas\u201d.<\/p>\n<p>Vemos as dificuldades que ele enfrenta para sair de Gaza, usando um visto falsificado (com ajuda de um contrabandista que anteriormente os havia roubado ao n\u00e3o entregar os instrumentos musicais encomendados) e a hist\u00f3ria rocambolesca (mas real), de como ele conseguiu participar do programa.<\/p>\n<p>Ao chegar no Cairo, para a primeira etapa de sele\u00e7\u00e3o, os passes para participar j\u00e1 estavam esgotados. Ele pula o muro do teatro, e l\u00e1 dentro acaba conhecendo outro palestino que lhe cede o passe, alegando que n\u00e3o tinha chances de ser selecionado mas sabia que ele poderia prosseguir. E \u00e9 o que, previsivelmente, acontece.<\/p>\n<p>Assaf vai passando pelas sucessivas sele\u00e7\u00f5es e chega \u00e0 final, quando canta uma m\u00fasica de car\u00e1ter nacionalista palestino, <strong>Aali al-keffiyeh<\/strong> (&#8220;Levante o Kafi\u00e9\u201d \u2013 o len\u00e7o palestino que Arafat tornou famoso). Aqui a interpreta\u00e7\u00e3o de Assaf, no <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/E6NG3Q-cAfs');\"  href=\"https:\/\/youtu.be\/E6NG3Q-cAfs\" target=\"_blank\">YouTube<\/a>. Palestina,<\/p>\n<p>Sua apresenta\u00e7\u00e3o final, que aparece no filme de forma semidocumental, provocou uma enorme como\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas na Palestina como em todo mundo \u00e1rabe e na di\u00e1spora palestina. O extraordin\u00e1rio foi que, em vista da tens\u00e3o entre o governo da Faixa de Gaza, controlado pelo Hamas, e a Autoridade Palestina, chefiada pela Fatah, a apresenta\u00e7\u00e3o de Assaf foi assistida e comemorada por todas as fac\u00e7\u00f5es palestinas. Logo ele passou a ser conhecido como <em>Assaf Hilm Falastine<\/em>\u00a0(Assaf \u00e9 o sonho da Palestina) e foi nomeado Embaixador da Boa Vontade, pela Ag\u00eancia da ONU que ajuda os refugiados. Mais tarde recebeu um passaporte diplom\u00e1tico da Autoridade Palestina (o que n\u00e3o impede que seja submetido a todas as restri\u00e7\u00f5es e dificuldades impostas por Israel para que entre em Gaza).<\/p>\n<p>O sucesso de Assaf gerou algumas consequ\u00eancias pol\u00edticas importantes, e \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o da unidade entre as diferentes for\u00e7as palestinas. A pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o do Hamas, que o deteve v\u00e1rias vezes tentando dissuadi-lo de cantar fora das mesquitas, acabou por reconhecer seu trabalho como \u201cembaixador da arte palestina\u201d.<\/p>\n<p>O filme, e a hist\u00f3ria de Assaf, me transmitiram uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de ambiguidade. Um programa de televis\u00e3o desse tipo, desenhado para estimular a mais b\u00e1sica e vulgar ambi\u00e7\u00e3o pelo sucesso, acaba \u2013 pelo menos momentaneamente \u2013 se transformando em poderoso ve\u00edculo de constru\u00e7\u00e3o de orgulho e unidade entre o sofrido povo palestino.<\/p>\n<p>Vale a pena ver <strong>O \u00cddolo<\/strong>, por tudo isso, e tamb\u00e9m pela qualidade da dire\u00e7\u00e3o de Hany Abu-Assad e de seus atores.<\/p>\n<p>Um filme belo e emocionante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00cddolo, dirigido por Hany Abu-Assad, de quem vimos o belo Paradise Now, \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o de um diretor que n\u00e3o teme temas pol\u00eamicos. 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