{"id":677,"date":"2017-01-11T18:54:44","date_gmt":"2017-01-11T21:54:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=677"},"modified":"2017-01-11T19:01:12","modified_gmt":"2017-01-11T22:01:12","slug":"outros-cantos-e-o-passadopresente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=677","title":{"rendered":"\u201cOUTROS CANTOS\u201d E O PASSADO\/PRESENTE"},"content":{"rendered":"<p>Rec\u00e9m terminei a leitura de \u201cOutros Cantos\u201d, de Maria Val\u00e9ria Rezende. \u00c9 um livro curto, com apenas 152 p\u00e1ginas. Publicado pela Alfaguara, relata uma viagem dupla: Maria, educadora de base, viaja em um \u00f4nibus caqu\u00e9tico para um encontro de educadores, onde far\u00e1 uma palestra. Durante a viagem, relembra sua primeira ida ao sert\u00e3o nordestino, quando foi ao povoado Olho d\u2019\u00c1gua, com a cobertura prec\u00e1ria de ser professora do Mobral, como integrante de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, cuja tarefa \u201ctornando-se parte do povo com o peixe na \u00e1gua\u201d e despertar a consci\u00eancia social daquela popula\u00e7\u00e3o, criando condi\u00e7\u00f5es para a vinda futura de outro contingente de revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-679\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_0057.jpg?resize=192%2C300\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_0057.jpg?resize=192%2C300 192w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_0057.jpg?w=307 307w\" sizes=\"(max-width: 192px) 100vw, 192px\" data-recalc-dims=\"1\" \/> \u00a0 \u00a0 \u00a0As duas \u201crealidades\u201d v\u00e3o se intercalando durante a viagem, com a mem\u00f3ria fazendo alguns saltos interessantes. Logo no in\u00edcio:<br \/>\n\u201cO \u00f4nibus parou arquejando, e eu adivinhei que ele vinha sentar-se ao meu lado, apesar de tantas cadeiras vazias. Ele veio, grande, maci\u00e7o, cheirando a couro curtido, suor e tabaco. O odor flui da minha mem\u00f3ria, decerto, porque este ao meu lado veste-se como um caub\u00f3i de rodeio e cheira a \u00e1gua-de-col\u00f4nia barata\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, a mem\u00f3ria da narradora parece determinada a fazer este tipo de truques. Os passageiros da viagem no presente remetem a lembran\u00e7as do passado que fluem com muita autonomia, relatando a experi\u00eancia da ent\u00e3o jovem Maria a caminho de Olho d\u2019\u00c1gua.<\/p>\n<p>O vilarejo, \u201cas poucas casas brancas, de janelas e portas fechadas, agarradas umas \u00e0s outras, mortas de medo do imenso e \u00e1rido espa\u00e7o \u00e0 sua volta\u201d, tem seu nome justificado por se constituir nas proximidades de uma fonte perene de \u00e1gua doce. S\u00f3 que a \u00e1gua tem dono, e \u00e9 paga pelos moradores que se esfalfam para tingir fios de algod\u00e3o e tecer redes. O caminh\u00e3o traz as anilinas e os fios (n\u00e3o s\u00e3o produzidos ali), e leva as redes para fora. Ro\u00e7as esmirradas mal resistem (as macaxeiras e os cactos), \u00e0 espera de mar\u00e7o e das poss\u00edveis chuvas.<\/p>\n<p>Maria consegue efetivamente se integrar na vida do vilarejo, guiada pelas m\u00e3os de F\u00e1tima, cujo marido saiu para conseguir algum dinheiro no Sul e vai mandando, aos peda\u00e7os, as madeiras para a constru\u00e7\u00e3o de um tear que pode melhorar os rendimentos da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Come\u00e7a por participar do trabalho de tingir os fios com as anilinas. Trabalho duro, ao qual se acostuma com dificuldades. Na casinha que lhe tocou (n\u00e3o se sabe se por ser de alguma institui\u00e7ao ou simplesmente por estar vazia, instala sua rede e seus preten\u00e7\u00f5es,\u00a0inclusive uma caixa, escondida no fundo falso na mochila, onde guarda suas recorda\u00e7\u00f5es, inclusive um livrinho vermelho do presidente Mao, com a capa convenientemente tingida de azul, e um Evangelho. Al\u00e9m dos pequenos souvenirs recolhidos em dois n\u00edveis: o de um misteriosos rapaz que se modifica a cada apari\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo Harley, montado em uma moto que justifica o apelido, e depois em outras situa\u00e7\u00f5es e pa\u00edses pelas quais a educadora trafega: Arg\u00e9lia, M\u00e9xico, at\u00e9 uma apari\u00e7\u00e3o como misterioso vaqueiro nas proximidades de Olho d`\u00c1gua.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias contadas sob a luz das estrelas (para economizar o \u00f3leo das lamparinas), as festas religiosas da cidade e o trabalho, muito trabalho, trabalho duro, fazem que Maria se integre na comunidade, descobrindo pouco a pouco as facetas ocultas da vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas a promessa de um vereador que havia se comprometido a conseguir o material did\u00e1tico e o contrato miser\u00e1vel como educadora do Mobral (que ainda assim representaria uma renda superior \u00e0quela conseguida com o pesado trabalho de tingir os fios e tecer as redes), tarda a ser cumprida. F\u00e1tima, sua mentora e amiga na comunidade, a ensina que a paci\u00eancia \u00e9 virtude de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando o material did\u00e1tico e o contrato aparecem, a balb\u00fardia se instala. A tarefa de Maria seria de alfabetizar jovens, e n\u00e3o crian\u00e7as, e muito menos fazer trabalho de jardim de inf\u00e2ncia. Mais uma vez F\u00e1tima lhe d\u00e1 o caminho. As m\u00e3es querem desasnar as crian\u00e7as para lhes dar uma chance, e quanto mais jovens come\u00e7arem, melhor. Assim, Maria dedica as manh\u00e3s \u00e0s crian\u00e7as, que aceita desde que a fam\u00edlia se comprometa a enviar um jovem, ou adulto, paras as aulas noturnas.<\/p>\n<p>No entanto, o uso do m\u00e9todos Paulo Freire, com as palavras chaves, parece n\u00e3o fazer o menor efeito. Para aquela gente, o dado da opress\u00e3o parece ser o estado natural das coisas, e Maria come\u00e7a a desanimar.<\/p>\n<p>Em um momento, pouco depois, chegam os rumores de que o Ex\u00e9rcito j\u00e1 est\u00e1 ali por perto, prendendo esses estranhos que circulam pela regi\u00e3o. A pr\u00f3pria comunidade, ent\u00e3o, obriga Maria a fugir, escondida no meio dos fios, sob uma rede tecida por F\u00e1tima, o primeiro resultado do tear finalmente montado com as pe\u00e7as enviadas pelo marido.<\/p>\n<p>Na viagem atual, a educadora Maria vai testemunhando as mudan\u00e7as e as diferen\u00e7as entre seu sert\u00e3o da mem\u00f3ria e o que lhe aparece pela frente. Jovens com camisetas de estrelas estrangeiras, tocando m\u00fasicas que n\u00e3o tem mais nada que ver; adultos que voltam para suas terras, porque haviam conseguido, ainda com o trabalho no Sul, conseguir recursos n\u00e3o apenas para voltar, mas at\u00e9 para &#8220;montar seus negocinho&#8221;.<\/p>\n<p>Sim, o sert\u00e3o mudou.<\/p>\n<p>Mas Maria havia ficado com aquele travo de ter que fugir da primeira vez, e fugir com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o havia conseguido &#8220;despertar a consci\u00eancia&#8221; do povo.<\/p>\n<p>Como boa romancista, Maria Val\u00e9ria n\u00e3o tira conclus\u00f5es e nem &#8220;fecha&#8221; seu romance.<\/p>\n<p>Mas este leitor pensa sobre o que leu.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que seu trabalho no Olho d`\u00c1gua foi realmente em v\u00e3o? O que fez que aquele povo percebesse que a presen\u00e7a daquela estranha que havia se integrado t\u00e3o bem na vida da comunidade fosse vista como amea\u00e7a pelo Ex\u00e9rcito, que estava por ali prendendo as pessoas que se enquadravam naquele perfil?<\/p>\n<p>Ultimamente tenho pensado muito em algumas quest\u00f5es da resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Na mitologia de uma boa parte da esquerda, e alimentada inclusive pelas Comiss\u00f5es da Verdade, e at\u00e9 pela imprensa, temos o desfile dos her\u00f3is que foram assassinados e torturados pela ditadura.<\/p>\n<p>Foram her\u00f3is sim, no mesmo sentido que os primitivos crist\u00e3os foram m\u00e1rtires, morrendo por n\u00e3o renegar sua f\u00e9. Uma esp\u00e9cie de hero\u00edsmo passivo, onde essa qualifica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por sinon\u00edmia com v\u00edtima. V\u00edtima = her\u00f3i.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Maria, relatada pela Maria Val\u00e9ria Resende, reflete, ou expressa, experi\u00eancias de centenas ou milhares de outros militantes que, no campo ou na cidade, em f\u00e1bricas, em associa\u00e7\u00f5es de bairro, em atividades de apoio, como jornais de sindicatos e de bairros, em centros culturais e outras atividades cong\u00eaneres, faziam esse trabalho mi\u00fado, aparentemente frustrante, tal como o de Maria.<\/p>\n<p>O romance de Maria Val\u00e9ria Resende, muito bem estruturado e com um tom po\u00e9tico de grande beleza, trata de um exemplo desses esfor\u00e7os an\u00f4nimos e, repito, aparentemente frustrantes, de tanta gente que queria fazer a revolu\u00e7\u00e3o, e que contribuiram de fato para a cria\u00e7\u00e3o de uma mentalidade e sentimento de luta pela democracia, e assim levaram \u00e0 derrota da ditadura &#8211; infelizmente n\u00e3o completa, como vemos hoje..<\/p>\n<p>Essas hist\u00f3rias precisam ser recuperadas, tanto a partir de relatos concretos e levantamentos socio-antropol\u00f3gicos mais consistentes, como tamb\u00e9m na fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Romances como o da Maria Val\u00e9ria, e tamb\u00e9m a colet\u00e2nea de contos do livro &#8220;Felizes Poucos&#8221;, da Maria Jos\u00e9 Silveira, v\u00e3o aos poucos recuperando isso tudo.<\/p>\n<p>Mas precisamos de muito mais, nestes momentos em que grandes amea\u00e7as se vislumbram no horizonte do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rec\u00e9m terminei a leitura de \u201cOutros Cantos\u201d, de Maria Val\u00e9ria Rezende. \u00c9 um livro curto, com apenas 152 p\u00e1ginas. 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