{"id":671,"date":"2017-01-08T11:52:55","date_gmt":"2017-01-08T14:52:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=671"},"modified":"2017-01-08T11:52:55","modified_gmt":"2017-01-08T14:52:55","slug":"cidade-linda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=671","title":{"rendered":"CIDADE LINDA?"},"content":{"rendered":"<p>Somos, eu e a Maria Jos\u00e9, apaixonados por S\u00e3o Paulo. Nasci em Manaus e ela \u00e9 goiana. Nos encontramos em Bras\u00edlia, na Universidade e come\u00e7ando a trabalhar como jornalistas. Moramos em S. Paulo \u2013 quando fui preso pela ditadura e ela viveu clandestina em S\u00e3o Bernardo \u2013 e depois passamos quatro anos no Peru. De volta, moramos quase dez anos no Rio de Janeiro. Mas estamos, por decis\u00e3o pr\u00f3pria, morando em S. Paulo desde 1984.<\/p>\n<p>E adoramos a cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o por sua beleza paisag\u00edstica. O Rio \u00e9 imbat\u00edvel nesse quesito (por mais que os cariocas se esforcem, n\u00e3o conseguem estragar de todo a paisagem).<\/p>\n<p>Amamos S\u00e3o Paulo pela sua din\u00e2mica e por sua diversidade. Pelo povo que luta e pelo povo que se diverte. Pela vida cultural. Pelas livrarias. Pela Biblioteca M\u00e1rio de Andrade. Pelo Centro Cultural Vergueiro. Pela Avenida Paulista fechada aos domingos e pelas ciclovias. Pela diversidade do povo que encontramos pelas ruas: todas as cores, todos os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Sofremos com a cidade e sua popula\u00e7\u00e3o. Os congestionamentos. A polui\u00e7\u00e3o. A mis\u00e9ria que se torna vis\u00edvel nas esquinas, a ocupa\u00e7\u00e3o desordenada de ruas e pra\u00e7as.<\/p>\n<p>Evidentemente, gostar\u00edamos de ter uma cidade mais limpa, mais organizada, mais amistosa para com sua popula\u00e7\u00e3o. Mais ordenada em seu crescimento.<\/p>\n<p>Mas sabemos muito bem que essa balb\u00fardia, e at\u00e9 essa incontrol\u00e1vel sujeira que resiste a ex\u00e9rcitos de varredores, garis e m\u00e1quinas de varrer; as picha\u00e7\u00f5es que extravasam o que os jovens, rebeldes sem causa, talvez, deixam pela cidade; o asfalto deformado por caminh\u00f5es e \u00f4nibus que n\u00e3o deixam espa\u00e7o nem mesmo para uma manuten\u00e7\u00e3o correta; tudo isso faz parte da din\u00e2mica da cidade.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo n\u00e3o seria o que \u00e9, esse grande centro de produ\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de riqueza e mis\u00e9ria, de cultura e ignor\u00e2ncia, de consci\u00eancia pol\u00edtica e conservadorismo, do chique e do mau-gosto, se n\u00e3o fosse assim diversa, fragmentada. Se n\u00e3o fosse essa f\u00eanix em permanente morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, onde se observam extremos de despreendimento e ego\u00edsmo, de beleza e fei\u00fara.<\/p>\n<p>Essa Pauliceia desvairada do M\u00e1rio de Andrade, que a Maria Jos\u00e9 retraduziu no seu romance \u201cPauliceia de Mil Dentes\u201d enfrenta, agora, um novo desafio: um alcaide que quer transform\u00e1-la em \u201cCidade Linda\u201d.<\/p>\n<p>O desafio, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 do alcaide. O desafio \u00e9 da cidade. Resistir a essa maquiagem que pretende esconder o que o novo administrador considera feio; e que come\u00e7a com a pirotecnia de se vestir de gari (como se fosse um palha\u00e7o), para fingir que varre durante dez segundos.<\/p>\n<p>Ora, ora, ora.<\/p>\n<div id=\"attachment_672\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-672\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-672 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/regina.jpeg?resize=300%2C225\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/regina.jpeg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/regina.jpeg?resize=768%2C576 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/regina.jpeg?w=984 984w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-672\" class=\"wp-caption-text\">O alcaide e a vers\u00e3o paulistana apavorada do Izzy Osbourne brincando de varrer a Paulista.<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_673\" style=\"width: 179px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-673\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-673\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718-169x300.jpg?resize=169%2C300\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718.jpg?resize=169%2C300 169w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718.jpg?resize=768%2C1365 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718.jpg?resize=576%2C1024 576w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718.jpg?w=1280 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/20170108_113000-e1483886551718.jpg?w=1920 1920w\" sizes=\"(max-width: 169px) 100vw, 169px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-673\" class=\"wp-caption-text\">Que continua suja a vinte metros do espet\u00e1culo. Fiscaliza\u00e7\u00e3o da varri\u00e7\u00e3o parece que n\u00e3o faz parte do Cidade Linda.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas S\u00e3o Paulo resistir\u00e1.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria de Cidade Linda sempre me lembra (por qu\u00ea?) a famosa linha do Hamlet: \u201cH\u00e1 algo de podre no Reino da Dinamarca\u201d.<br \/>\nCidadeSempre haver\u00e1 algo \u2013 muito \u2013 de podre nessa ideia de uma cidade limpinha e cheirosa. Talvez aquela que poderia ser v\u00edtima de uma bomba de n\u00eautrons, com todos mortos e o espa\u00e7o desinfetado.<\/p>\n<p>O Humberto Werneck desafiou seus leitores, no FaceBook, a comentar sobre o assunto. Eu comentei que se tratava de uma pol\u00edtica higienista que queria esconder os pobres. Uma senhora respondeu a meu coment\u00e1rio (ali\u00e1s, sobre a remo\u00e7\u00e3o dos moradores de rua nos arredores da Pra\u00e7a 14Bis), perguntando se eu morava por perto por que ela, com duas filhas, n\u00e3o conseguia descer na parada de \u00f4nibus ali, supostamente com medo daqueles moradores.<\/p>\n<p>Moro perto dali. Confesso que raramente uso \u00f4nibus, mas desci naquele ponto algumas vezes, em particular quando queria comprar alguma coisa no supermercado da pra\u00e7a. E me sinto mais amea\u00e7ado quando passo de autom\u00f3vel por ali. Nessas ocasi\u00f5es eu viro um alvo de verdade.<\/p>\n<p>Mas a observa\u00e7\u00e3o da senhora, evidente apoiadora da limpeza do alcaide, me remeteu diretamente a uma cr\u00f4nica recente do Ver\u00edssimo, no qual ele comentava sobre a quest\u00e3o da empatia (era a prop\u00f3sito do massacre de Manaus).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que essas pessoas n\u00e3o tem a menor empatia para com os pobres. Para eles, estar na rua \u00e9 sin\u00f4nimo de pregui\u00e7a, drogadi\u00e7\u00e3o, alcoolismo. Esquecem simplesmente que vivem em um pa\u00eds com alt\u00edssimos \u00edndices de desigualdade social, mis\u00e9ria e quebra das estruturas tradicionais que apoiavam a exist\u00eancia de tantas fam\u00edlias expulsas do campo, e atra\u00eddas pelo cintilar da metr\u00f3pole.<br \/>\nO ego\u00edsmo dessa gente supera a presen\u00e7a de uma caracter\u00edstica essencial que nos faz humanos: a empatia para com o pr\u00f3ximo. Vai ver que s\u00e3o carolas que n\u00e3o perdem a missa dominical, e certamente foram para as passeatas pedir o golpe.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica do Caetano Veloso se faz mais atual que nunca. Nem tanto pela esquina da Ipiranga com a S\u00e3o Jo\u00e3o, e sim pelo conjunto da letra. N\u00f3s que a cantarolamos, principalmente a primeira estrofe, devemos nos lembrar da letra inteira:<\/p>\n<p>Sampa &#8211; Caetano Veloso<\/p>\n<p><em>Alguma coisa acontece no meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue s\u00f3 quando cruza a Ipiranga e a avenida S\u00e3o Jo\u00e3o<br \/>\n\u00c9 que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi<br \/>\nDa dura poesia concreta de tuas esquinas<br \/>\nDa deseleg\u00e2ncia discreta de tuas meninas<br \/>\nAinda n\u00e3o havia para mim, Rita Lee<br \/>\nA tua mais completa tradu\u00e7\u00e3o<br \/>\nAlguma coisa acontece no meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue s\u00f3 quando cruza a Ipiranga e a avenida S\u00e3o Jo\u00e3o<br \/>\nQuando eu te encarei frente a frente n\u00e3o vi o meu rosto<br \/>\nChamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto<br \/>\n\u00c9 que Narciso acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho<br \/>\nE \u00e0 mente apavora o que ainda n\u00e3o \u00e9 mesmo velho<br \/>\nNada do que n\u00e3o era antes quando n\u00e3o somos Mutantes<br \/>\nE foste um dif\u00edcil come\u00e7o<br \/>\nAfasta o que n\u00e3o conhe\u00e7o<br \/>\nE quem vem de outro sonho feliz de cidade<br \/>\nAprende depressa a chamar-te de realidade<br \/>\nPorque \u00e9s o avesso do avesso do avesso do avesso<br \/>\nDo povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas<br \/>\nDa for\u00e7a da grana que ergue e destr\u00f3i coisas belas<br \/>\nDa feia fuma\u00e7a que sobe, apagando as estrelas<br \/>\nEu vejo surgir teus poetas de campos, espa\u00e7os<br \/>\nTuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva<br \/>\nPan-Am\u00e9ricas de \u00c1fricas ut\u00f3picas, t\u00famulo do samba<br \/>\nMais poss\u00edvel novo quilombo de Zumbi<br \/>\nE os Novos Baianos passeiam na tua garoa<br \/>\nE novos baianos te podem curtir numa boa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos, eu e a Maria Jos\u00e9, apaixonados por S\u00e3o Paulo. 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