{"id":659,"date":"2016-12-29T11:37:32","date_gmt":"2016-12-29T14:37:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=659"},"modified":"2016-12-29T17:07:23","modified_gmt":"2016-12-29T20:07:23","slug":"o-natal-que-herdamos-e-sua-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=659","title":{"rendered":"O NATAL QUE HERDAMOS E SUA HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>Passado o natal crist\u00e3o, \u00e9 bom lembrar in\u00fameras observa\u00e7\u00f5es que geralmente se repetem ano a ano: festa de fam\u00edlia, comercializa\u00e7\u00e3o \u2013 ao lado da celebra\u00e7\u00e3o religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de cat\u00f3licos praticantes. Os protestantes puritanos chegaram a proibir essa comemora\u00e7\u00e3o, como her\u00e9tica, e mesmo depois da suspens\u00e3o desse tipo de \u00e9dito, o natal \u00e9 uma festa menor nos EUA, por exemplo, que a celebra\u00e7\u00e3o do Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, oura mitologia propriamente estadunidense.<\/p>\n<p>Entretanto, o car\u00e1ter mitol\u00f3gico do natal \u00e9 geralmente pouco lembrado. Como disse meu amigo e professor Rodrigo Montoya (em um post no FB sobre essa festa), \u201cTodo mito es una ficci\u00f3n creada a partir de muchos fragmentos dispersos de realidades que van cambiando con el tempo\u201d. E quero aqui lembrar um pouco as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre o assunto.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de um personagem hist\u00f3rico, o Jesus do Novo Testamento, \u00e9 hoje quase consensual. Existe ainda alguma disputa, mas a maioria dos historiadores concorda que Jesus foi um dos tantos profetas judeus que predicavam durante o reino de Herodes, o Grande, em uma palestina j\u00e1 vassala dos romanos (para informa\u00e7\u00f5es mais amplas sobre os v\u00e1rios tipos de domina\u00e7\u00e3o romana, um livro \u00fatil \u00e9 o da historiadora e arque\u00f3loga brit\u00e2nica Mary Beard: \u201c<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.amazon.com.br\/SPQR-History-Ancient-Mary-Beard-ebook\/dp\/B014T9HKN2\/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1483019541&amp;sr=8-1&amp;keywords=mary+beard');\"  href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/SPQR-History-Ancient-Mary-Beard-ebook\/dp\/B014T9HKN2\/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1483019541&amp;sr=8-1&amp;keywords=mary+beard\" target=\"_blank\">SPQR: A History of Ancient Rome<\/a>\u201d, \u00a0dispon\u00edvel em ingl\u00eas em ebook Kindle por R$ 27,00 \u2013 \u00f3timo livro s\u00edntese).<\/p>\n<p>Jesus provavelmente foi disc\u00edpulo de outro profeta, conhecido como Jo\u00e3o Batista, e que as autoridades consideravam, na \u00e9poca, muito mais subversivo. Mas a cronologia \u00e9 bem complicada. \u00c9 bom lembrar que os chamados evangelhos can\u00f4nicos (reconhecidos pela Igreja Cat\u00f3lica), foram escritos entre os s\u00e9culos I e III da nossa era, e nenhum de seus autores, na verdade an\u00f4nimos, chegou a conhecer pessoalmente o personagem central. Eram parte dos chamados ep\u00edgonos, os herdeiros do profeta, que consolidam e formalizam seus ensinamentos em uma institui\u00e7\u00e3o de poder (como foi o caso), e os transformam em seita ou religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, as refer\u00eancias b\u00edblicas s\u00e3o vagas e imprecisas. Mencionam a viagem do casal Jos\u00e9 e Maria a Bel\u00e9m para um censo, provavelmente durante o reinado de Herodes. Mas qual a data desse censo (uma pr\u00e1tica institu\u00edda pelos romanos), est\u00e1 longe de ser consensual.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, \u00e9 praticamente certo que n\u00e3o teria sido no inverno, que \u00e9 extremamente rigoroso na Palestina e dificultaria muito o deslocamento de pessoas.<\/p>\n<p>De qualquer modo, os primeiros crist\u00e3os n\u00e3o costumavam celebrar o nascimento de Jesus como tal. Muitas comunidades optaram por celebrar a que ficou conhecida como primeira Epifania (revela\u00e7\u00e3o manifestada a partir de algo inesperado). No caso crist\u00e3o, quando Jesus \u201cse revela\u201d como Deus. No caso, a primeira delas \u00e9 a adora\u00e7\u00e3o dos chamados \u201cReis Magos\u201d.<\/p>\n<p>O natal, como festa de celebra\u00e7\u00e3o do nascimento de Jesus, passou a ser considerado s\u00f3 no S\u00e9culo IV da nossa era. A data de 25 de dezembro \u00e9 o solst\u00edcio do inverno no hemisf\u00e9rio norte, o dia em que as noites come\u00e7am a diminuir e o a luz solar se expande pouco a pouco, at\u00e9 o solst\u00edcio do ver\u00e3o, geralmente 24 de junho, onde se inicia o movimento contr\u00e1rio. Isso no hemisf\u00e9rio norte. No sul, onde estamos, as esta\u00e7\u00f5es se invertem: o nosso solst\u00edcio de inverno \u00e9 em junho e o do ver\u00e3o em dezembro.<\/p>\n<p>O solst\u00edcio do inverno celebrava, para os romanos, o nascimento do sol, o deus-sol invicto (<em>natalis invicti Solis).<\/em> Nessa ocasi\u00e3o se davam as celebra\u00e7\u00f5es das saturn\u00e1lias (que inclu\u00edam troca de presentes) e o solst\u00edcio era um festival pag\u00e3o muito popular e considerado. Dito seja que Constantino, o imperador romano que oficializou o cristianismo como religi\u00e3o do Imp\u00e9rio, havia sido sagrado exatamente tendo como patrono o tal deus-sol invicto. O inverno, nas sociedades agr\u00e1rias como as da antiguidade, \u00e9 o momento de encerramento das colheitas, celebra\u00e7\u00f5es, eventualmente dedica\u00e7\u00e3o a trabalhos artesanais dentro de casa, etc.<\/p>\n<div id=\"attachment_660\" style=\"width: 230px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-660\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-660\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/220px-ChristAsSol.jpg?resize=220%2C235\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"235\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-660\" class=\"wp-caption-text\">O Cristo como Sol. Mosaico em tumba no Vaticano.<\/p><\/div>\n<p>Os primeiros crist\u00e3os j\u00e1 haviam desenvolvido o h\u00e1bito de incorporar datas e celebra\u00e7\u00f5es pag\u00e3s em suas festividades. A pr\u00e1tica, denominada de sincretismo, foi amplamente empregada atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, para dar uma capa crist\u00e3 e incorporar cren\u00e7as pag\u00e3s ou de outras religi\u00f5es no calend\u00e1rio crist\u00e3o.<\/p>\n<p>A chamada convers\u00e3o de Constantino aconteceu em 312, depois de sua vit\u00f3ria na batalha da ponte M\u00edlvia, no dia 28 de outubro daquele ano, quando derrotou seu rival Mag\u00eancio, supostamente por haver incorporado a cruz crist\u00e3 ao escudo de seus soldados. Quarenta e oito anos mais tarde, o Papa J\u00falio I, depois de \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o pormenorizada\u201d feita por astr\u00f4nomos, declarou oficialmente a data como a do nascimento de Jesus. Uma \u201ccoincid\u00eancia\u201d fabulosa com a celebra\u00e7\u00e3o do deus-sol patrono de Constantino. N\u00e3o foi a primeira nem a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o de oportunismo que a igreja romana praticou.<!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 de ser notado, particularmente, que a P\u00e1scoa crist\u00e3 coincide com o Pessach judaico (a \u00faltima ceia seria a celebra\u00e7\u00e3o do seder \u2013 a refei\u00e7\u00e3o ritual judaica que abre as comemora\u00e7\u00f5es do Pessach, que celebra justamente o final do ex\u00edlio judeu). Com as diferen\u00e7as entre os calend\u00e1rios romano e judaico \u2013 o primeiro solar e o segundo lunar \u2013 as datas foram se distanciando.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso tamb\u00e9m que a data celebrat\u00f3ria de Jo\u00e3o Batista \u2013 o profeta que teria sido o precursor de Jesus ou, se quiserem, de quem Jesus foi disc\u00edpulo \u2013 passou a ser celebrada exatamente no outro solst\u00edcio (o de ver\u00e3o no hemisf\u00e9rio norte), dia 24 de junho.<\/p>\n<p>Assim, como diz o professor Montoya, de fragmentos dispersos de realidades (e mitos anteriores), forma-se uma nova mitologia.<\/p>\n<div id=\"attachment_661\" style=\"width: 180px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-661\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-661\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/170px-St_Nicholas_Icon_Sinai_13th_century.jpg?resize=170%2C285\" alt=\"\" width=\"170\" height=\"285\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-661\" class=\"wp-caption-text\">S\u00e3o Nicolau, o Bispo. \u00cdcone medieval.<\/p><\/div>\n<p>CELEBRA\u00c7\u00d5ES E O \u201cPAPAI NOEL\u201d.<br \/>\nAlguns dos ritos natalinos tamb\u00e9m est\u00e3o ligados a celebra\u00e7\u00f5es pag\u00e3s. E de v\u00e1rias origens, j\u00e1 que o solst\u00edcio era amplamente comemorado por todo mundo antigo. E nas Am\u00e9ricas tamb\u00e9m. O Inti Raimi, a celebra\u00e7\u00e3o do deus-sol dos Incas, \u00e9 um exemplo. \u00c9 celebrado precisamente no nosso solst\u00edcio de inverno, e com o mesmo significado das celebra\u00e7\u00f5es do hemisf\u00e9rio norte: o \u201crenascimento do sol\u201d \u2013 invicto e eterno \u2013 que inicia novamente seu ciclo de domina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA \u00e1rvore de natal, por exemplo, j\u00e1 fazia parte das celebra\u00e7\u00f5es das saturn\u00e1lias, al\u00e9m de manifesta\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses n\u00f3rdicos. Consta que Lutero incorporou o pinheiro decorado no natal crist\u00e3o, inspirado pela paisagem invernal do c\u00e9u estrelado coroando um pinheiral. As refei\u00e7\u00f5es natalinas, as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas da v\u00e9spera e da manh\u00e3 natalina tamb\u00e9m t\u00eam origem pag\u00e3, e de v\u00e1rias fontes.<\/p>\n<p>As saturn\u00e1lias inclu\u00edam rituais de divertimento e invers\u00e3o dos valores sociais, parecidos com os que posteriormente iriam caracterizar o carnaval. Luciano de Samosata traduz de forma bem clara e concisa as caracter\u00edsticas desse festival:<\/p>\n<table width=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"20\"><strong>\u201c<\/strong><\/td>\n<td><em>Que ningu\u00e9m tenha atividades p\u00fablicas nem privadas durante as festas, salvo no que se refere aos jogos, as divers\u00f5es e ao prazer. Apenas os cozinheiros e pasteleiros podem trabalhar. Que todos tenham igualdade de direitos, os escravos e os livres, os pobres e os ricos. N\u00e3o se permite a ningu\u00e9m enfadar-se, estar de mal humor ou fazer amea\u00e7as. N\u00e3o se permitem as auditorias de contas. A ningu\u00e9m se permite inspecionar ou registrar a roupa durante os dias de festas, nem depor, nem preparar discursos, nem fazer leituras p\u00fablicas, exceto se s\u00e3o jocosas e graciosas, que produzam zombarias e entretenimentos\u201d.<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Durante boa parte da Idade M\u00e9dia as comemora\u00e7\u00f5es natalinas transcorriam tamb\u00e9m com esse esp\u00edrito, misturando rezas e atos lit\u00fargicos com situa\u00e7\u00f5es praticamente orgi\u00e1sticas, mais tarde transferidas para o carnaval.<\/p>\n<p>E uma transforma\u00e7\u00e3o relativamente recente se tornou muito marcante no Ocidente. \u00c9 a do personagem que aqui chamamos de \u201cPapai Noel\u201d, e em ingl\u00eas chamado de \u201cSanta Claus\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_663\" style=\"width: 230px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-663\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-663\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/The_Childrens_friend._Number_III._A_New-Years_present_to_the_little_ones_from_five_to_twelve._Part_III_1821_page_1.jpg?resize=220%2C220\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/The_Childrens_friend._Number_III._A_New-Years_present_to_the_little_ones_from_five_to_twelve._Part_III_1821_page_1.jpg?w=220 220w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/The_Childrens_friend._Number_III._A_New-Years_present_to_the_little_ones_from_five_to_twelve._Part_III_1821_page_1.jpg?resize=150%2C150 150w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-663\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o natalina do s\u00e9culo XIX, mostrando o tren\u00f3 e as renas.<\/p><\/div>\n<p>O tal bom velhinho \u00e9 inspirado na figura do bispo Nicolau de Mira, uma cidade bizantina, que dava condi\u00e7\u00f5es aos filhos de prostitutas de receberem educa\u00e7\u00e3o, afastando-os da \u201cm\u00e1 influ\u00eancia\u201d materna. A partir da\u00ed se expandiu a ideia de que ele deixava pequenos regalos para as crian\u00e7as, em sapatos colocados nos beirais das casas, ou dentro de meias penduradas na janela. E tamb\u00e9m a lenda de que \u00e0s vezes entrava nas casas pelas chamin\u00e9s.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias geradas a partir do bispo, principalmente no Norte da Europa, foram incorporando diferentes tradi\u00e7\u00f5es locais, como deixar comida e bebida para o bom velhinho, a insinua\u00e7\u00e3o dos pais que apenas os que tivessem bom comportamento receberiam os presentes, e da\u00ed por diante. Mais tarde, institui\u00e7\u00f5es de caridade assumiram a distribui\u00e7\u00e3o de chocolate quente paras as crian\u00e7as pobres.<\/p>\n<div id=\"attachment_662\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-662\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-662\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/220px-MerryOldSanta.jpg?resize=217%2C300\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/220px-MerryOldSanta.jpg?resize=217%2C300 217w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/220px-MerryOldSanta.jpg?w=220 220w\" sizes=\"(max-width: 217px) 100vw, 217px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><p id=\"caption-attachment-662\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o do &#8220;Merry Old Santa&#8221;, do S\u00e9culo XIX, onde o personagem j\u00e1 exibe v\u00e1rias de suas caracter\u00edsticas iconogr\u00e1ficos atuais.<\/p><\/div>\n<p>A vers\u00e3o em holand\u00eas de S\u00e3o Nicolau \u00e9 conhecida como <em>Sinterklaas<\/em>, mais tarde americanizada como Santa Claus. A vers\u00e3o latinizada acabou como Papai Noel em portugu\u00eas, P\u00e9re No\u00ebl em franc\u00eas, Pap\u00e1 Navidad em espanhol, todas derivadas do latim <em>natalis<\/em>, nascimento. J\u00e1 em alem\u00e3o perdeu a refer\u00eancia ao bispo e passou a ser Weihnachtsmann, e por a\u00ed seguem as variedades.<\/p>\n<p>As ilustra\u00e7\u00f5es do personagem tamb\u00e9m variaram muito no decorrer dos tempos. S\u00e3o Nicolau era inicialmente retratado com as vestes de seu cargo, e a mitra. \u00c0s vezes a roupa era vermelha. Mas o personagem j\u00e1 apareceu como um duende, magro, com barbas como o deus n\u00f3rdico Wotan (que tamb\u00e9m \u00e9 celebrado no natal).<\/p>\n<p>A sua transforma\u00e7\u00e3o final, como personagem que contribuiu para uma das mais fortes caracteriza\u00e7\u00f5es modernas do natal, a do consumismo desbragado, teve uma grande contribui\u00e7\u00e3o da Coca Cola. As roupas vermelhas e a barba branca vieram de outras tradi\u00e7\u00f5es. Mas a vers\u00e3o atualmente mais conhecida foi definida pela Coca Cola, nos anos 30, a partir de ilustra\u00e7\u00e3o concebida por Haddon Sundblom. O personagem foi inicialmente vinculado \u00e0 \u201cpausa que refresca\u201d para incrementar as vendas de refrigerantes no inverno, e progressivamente adotada em campanhas comerciais cada vez mais amplas.<\/p>\n<p>Assim, as festas pag\u00e3s do solst\u00edcio acabaram virando o natal, primeiro crist\u00e3o, hoje novamente pag\u00e3o: \u00e9 o momento do consumismo. Restam as camadas subjacentes de festa religiosa e festa familiar, mas a percep\u00e7\u00e3o do natal como grande momento do consumo \u00e9, em nossos dias, mais forte que nunca. O que ainda une crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os tamb\u00e9m \u00e9 o lado de festa familiar.<\/p>\n<p>E o pobre bispo que ajudava as crian\u00e7as pobres foi progressivamente se transformando no \u00edcone desse momento pag\u00e3o, acompanhado \u00e0s vezes dos pres\u00e9pios crist\u00e3os e de outros s\u00edmbolos remanescentes do paganismo: o pinheiro adornado, a comilan\u00e7a, a troca de presentes.<\/p>\n<p>De peda\u00e7os de realidade transformadas por in\u00fameras e \u00e0s vezes divergentes fontes e formas de press\u00e3o, eis o mito do natal e a bonomia do \u201cbom velhinho\u201d presentes, hoje, em boa parte do mundo.<\/p>\n<p>Ho, ho, ho!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passado o natal crist\u00e3o, \u00e9 bom lembrar in\u00fameras observa\u00e7\u00f5es que geralmente se repetem ano a ano: festa de fam\u00edlia, comercializa\u00e7\u00e3o \u2013 ao lado da celebra\u00e7\u00e3o religiosa, que se reduz cada vez mais a um grupo de cat\u00f3licos praticantes. 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