{"id":60,"date":"2014-09-01T00:38:31","date_gmt":"2014-09-01T03:38:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=60"},"modified":"2014-09-01T12:37:34","modified_gmt":"2014-09-01T15:37:34","slug":"uma-historinha-exemplar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=60","title":{"rendered":"Uma historinha exemplar"},"content":{"rendered":"<p>Alfredo Nascimento \u00e9 um pol\u00edtico nascido no Rio Grande do Norte e imigrado para o Amazonas, onde estudou e se formou em Letras e Matem\u00e1tica. Pr\u00f3ximo de um conhecido pol\u00edtico amazonense, Amazonino Mendes, foi por ele nomeado interventor na Prefeitura da Capital, depois se elegeu prefeito da cidade e, dois anos depois, vice-governador na chapa do Amazonino Mendes. Em 2006, elegeu-se Senador pelo Amazonas. Nestas elei\u00e7\u00f5es concorre a um mandato de Deputado Federal.<\/p>\n<p>A vida pol\u00edtica de Alfredo Nascimento \u00e9 recheada de den\u00fancias, mudan\u00e7as de partidos e alian\u00e7as variadas. Nisso, o parlamentar n\u00e3o difere de tantos outros.<\/p>\n<p>Em seu mandato para o Senado, por exemplo, elegeu-se pelo PR, mas seu suplente foi Jo\u00e3o Pedro, do PT. Seu mandato terminar\u00e1 em janeiro de 2015. S\u00f3 para lembrar, o PR era a agremia\u00e7\u00e3o do falecido Vice-Presidente do Lula, Jos\u00e9 Alencar. Atualmente, ele \u00e9 presidente do PR.<\/p>\n<p>N\u00e3o o conhe\u00e7o pessoalmente, mas quem o conhece diz que \u00e9 pessoa simp\u00e1tica, muito envolvente.<\/p>\n<p>Em 2010, saiu do Minist\u00e9rio dos Transportes para se candidatar ao governo do Amazonas (foi derrotado), e \u00e9 esse o eixo da historinha que quero contar.<\/p>\n<p>Enquanto esteve no minist\u00e9rio, Alfredo Nascimento tentou sempre conseguir meios para reconstruir a Estrada Porto-Velho Manaus.<\/p>\n<p>Essa estrada \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Corre paralela ao Rio Madeira, que \u00e9 o escoadouro natural para a produ\u00e7\u00e3o do norte de Rond\u00f4nia e do Acre, al\u00e9m de ser uma das regi\u00f5es mais importantes do Amazonas.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Euclides da Cunha, por exemplo, j\u00e1 dizia no come\u00e7o do S\u00e9culo XX que rodovias na regi\u00e3o amaz\u00f4nica s\u00f3 teriam import\u00e2ncia na liga\u00e7\u00e3o entre as calhas dos rios afluentes do Amazonas. Ou seja, no sentido transversal da regi\u00e3o, e n\u00e3o no sentido diagonal.<\/p>\n<div id=\"attachment_61\" style=\"width: 236px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/br319-bom.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/br319-bom.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-61\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-61\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/br319-bom.jpg?resize=226%2C226\" alt=\"Tra\u00e7ado da BR-319. A calha do Rio Madeira \u00e9 paralela, \u00e0 direita.\" width=\"226\" height=\"226\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-61\" class=\"wp-caption-text\">Tra\u00e7ado da BR-319. A calha do Rio Madeira \u00e9 paralela, \u00e0 direita.<\/p><\/div>\n<p>Quando os militares (foi a engenharia do Ex\u00e9rcito que construiu a rodovia) empreenderam a constru\u00e7\u00e3o, dentro do chamado PIN (Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional), encontraram uma regi\u00e3o com grandes surpresas geol\u00f3gicas. Achavam que enfrentariam uma regi\u00e3o de \u201cterra firme\u201d, que \u00e9 como chamamos, no Amazonas, as \u00e1reas para al\u00e9m da v\u00e1rzea das calhas dos rios. A regi\u00e3o da floresta propriamente dita. A principal argumenta\u00e7\u00e3o era a de que a hidrovia exigia quatro dias de navega\u00e7\u00e3o, contrapondo-se a isso os dois dias, no m\u00e1ximo, necess\u00e1rios para que caminh\u00f5es cruzassem os quase 900 quil\u00f4metros da rodovia. Como se v\u00ea, um \u201cgrande\u201d argumento.<\/p>\n<p>A surpresa foi encontrar muitos trechos com uma instabilidade n\u00e3o prevista, terrenos com muita mobilidade. O terreno n\u00e3o era \u201cfirme\u201d como pensavam. Al\u00e9m do mais, era necess\u00e1rio atravessar centenas de igarap\u00e9s, rios e bra\u00e7os de \u00e1gua. Desculpem-me os ge\u00f3logos que porventura lerem isto aqui, mas n\u00e3o conhe\u00e7o os termos t\u00e9cnicos precisos. Essa instabilidade, al\u00e9m da pressa e de erros t\u00e9cnicos de constru\u00e7\u00e3o, deixou a estrada extremamente fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Hoje ela est\u00e1 assim:<\/p>\n<div id=\"attachment_62\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/BR319-carro.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/BR319-carro.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-62\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-62\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/BR319-carro.jpg?resize=300%2C180\" alt=\"Atoladeiros, a constante tentativa da floresta retomar o leito da estrada.\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/BR319-carro.jpg?resize=300%2C180 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/BR319-carro.jpg?w=500 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-62\" class=\"wp-caption-text\">Atoladeiros, a constante tentativa da floresta retomar o leito da estrada.<\/p><\/div>\n<p>Marina Silva, enquanto Ministra do Meio-Ambiente do Lula, se op\u00f4s frontalmente \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da estrada. Palmas para a ministra. Marina dizia que era contra, que seria mais barato para o governo financiar passagens a\u00e9reas para os manauaras que quisessem visitar Porto Velho, e que n\u00e3o admitia de modo nenhum a constru\u00e7\u00e3o da rodovia. Principista, ganhava palmas dos ecologistas, claro.<\/p>\n<p>O EIA-RIMA original foi revisto e aperfei\u00e7oado, e efetivamente colocava as dificuldades para a reconstru\u00e7\u00e3o e listava as exig\u00eancias ambientais para que o licenciamento fosse feito. A ministra se mantinha simplesmente na posi\u00e7\u00e3o de que a rodovia n\u00e3o podia ser feita. Ponto. Par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Palmas?<\/p>\n<p>Alfredo Nascimento insistia, e fez da constru\u00e7\u00e3o da estrada um dos pontos centrais de sua campanha para governador. Todos sabem no Amazonas que o Lula gostava do Alfredo Nascimento e queria eleg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Pois bem, os conflitos dentro da administra\u00e7\u00e3o levaram, como sabemos, \u00e0 demiss\u00e3o de Marina. Os conflitos e o fato dela perceber que jamais seria a indicada por Lula para suced\u00ea-lo. A incapacidade de Marina Silva administrar conflitos e resolver os problemas ficava cada vez mais evidente. Os licenciamentos n\u00e3o resolvidos se emperravam \u2013 ou melhor \u2013 eram engavetados no gabinete da ministra. N\u00e3o descartemos no epis\u00f3dio da demiss\u00e3o, portanto, a frustra\u00e7\u00e3o e os ci\u00fames pela j\u00e1 pressentida indica\u00e7\u00e3o de Dilma Roussef como candidata \u00e0 sucess\u00e3o do Lula.<\/p>\n<p>Carlos Minc, ent\u00e3o, \u00e9 nomeado Ministro do Meio-Ambiente e, evidentemente, enfrenta a tempestade de questionamentos. A imprensa sabia que um dos pontos de conflito (n\u00e3o o \u00fanico, certamente), era a quest\u00e3o da Porto Velho-Manaus.<\/p>\n<p>O que fez o novo ministro?<\/p>\n<p>Respondeu que sim, que a estrada podia ser constru\u00edda.<\/p>\n<p>Desde que o projeto inclu\u00edsse todas as exig\u00eancias de preserva\u00e7\u00e3o apresentadas no EIA-RIMA, que inclu\u00edam severas restri\u00e7\u00f5es para acessos vicinais, que fatalmente se tornariam vias de escoamento de madeiras, aumentando o desmatamento.<\/p>\n<p>Os requerimentos t\u00e9cnicos por si s\u00f3 s\u00e3o complicad\u00edssimos (mas as empreiteiras gostam disso: mais exig\u00eancias, mais custo). No entanto, o aumento de custo e a an\u00e1lise do financiamento enterram o projeto. Para atender as exig\u00eancias ambientais, a estrada de quase 900 quil\u00f4metros ficaria quase t\u00e3o cara, por quil\u00f4metro constru\u00eddo, quando a Emigrantes, em S. Paulo, que \u00e9 quase toda levantada sobre pilotis.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Minc, entretanto, resolveu um enorme problema pol\u00edtico. Minc certamente conhece os problemas t\u00e9cnicos. Mas agiu como POL\u00cdTICO. Querem construir a estrada? Podem, \u00e9 claro, o MMA autoriza. Desde que o projeto obede\u00e7a \u00e0s exig\u00eancias ambientais.<\/p>\n<p>A estrada jamais foi reconstru\u00edda e n\u00e3o o ser\u00e1 nunca, enquanto forem mantidas essas exig\u00eancias. Alguns trechos locais funcionam bem e est\u00e3o at\u00e9 asfaltados, mas a \u00e1rea problem\u00e1tica continua \u2013 felizmente \u2013 sendo recuperada pela floresta.<\/p>\n<p>A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d da rodovia Porto-Velho Manaus \u00e9 absurda. Nem \u00e9 preciso ser t\u00e9cnico para entender isso. O Rio Madeira \u00e9 plenamente naveg\u00e1vel entre Porto Velho e Manaus (o projeto da estrada, ali\u00e1s, esquece que a travessia do Amazonas \u00e9 feita por balsas). Em vez da estrada, \u00e9 importante melhorar as condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura para que a hidrovia do Madeira seja ainda mais eficiente. Isso est\u00e1 devido ainda pelo governo de coalis\u00e3o encabe\u00e7ado pelo PT, no qual o PR (Nascimento \u00e9 o presidente) faz parte. O uso da hidrovia n\u00e3o \u00e9 apenas potencial. O porto de Itacoatiara, que fica mais pr\u00f3ximo ainda da foz do Madeira e a jusante de Manaus, recebe hoje um enorme volume de carga que desce de Rond\u00f4nia atrav\u00e9s do rio, e dali segue para o resto do pa\u00eds ou para o exterior.<\/p>\n<p>Essa historinha mostra bem as dificuldades de um governo de coalis\u00e3o. Alfredo Nascimento ainda \u00e9 senador eleito (como os parlamentares ruralistas, evang\u00e9licos e todos os demais). Essa composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no Congresso simplesmente reflete as contradi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e n\u00e3o pode ser ignorada. Principismo, governo \u201cdos bons\u201d \u00e9, sempre foi e sempre ser\u00e1, simplesmente, o caminho da destrui\u00e7\u00e3o da democracia, a via do autoritarismo. Mas ainda voltarei sobre esse assunto.<\/p>\n<p>Marina Silva agora quer ser Presidente da Rep\u00fablica. H\u00e1 muito sonha com isso (sonh\u00e1tica?). Abandonou o partido pela qual ficou conhecida \u2013 lembremos, mais uma vez, que Chico Mendes foi fundador do PT, e assassinado pela elite \u2013 e que lhe deu visibilidade. Demonstrou incapacidade radical para resolver problemas. Aparelhou o MMA (com gente honesta ou simplesmente ongueiros que a apoiavam?). N\u00e3o conseguiu administrar conflitos. Simplesmente os exacerbou.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o caio nessa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfredo Nascimento \u00e9 um pol\u00edtico nascido no Rio Grande do Norte e imigrado para o Amazonas, onde estudou e se formou em Letras e Matem\u00e1tica. 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