{"id":533,"date":"2015-09-21T12:31:17","date_gmt":"2015-09-21T15:31:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=533"},"modified":"2015-09-21T12:31:17","modified_gmt":"2015-09-21T15:31:17","slug":"franzen-um-autor-de-frente-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=533","title":{"rendered":"Franzen, um autor de frente para o mundo"},"content":{"rendered":"<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/images.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/images.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-534\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/images.jpg?resize=276%2C183\" alt=\"images\" width=\"276\" height=\"183\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a> FSG \u2013 Amazon Kindle R$ 59,00 (577 p\u00e1ginas)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acabei de ler o novo romance de Jonathan Franzen, <em>Purity<\/em>. Como os anteriores, a hist\u00f3ria gira em torno da fam\u00edlia, com personagens que entram e saem desse n\u00facleo. Tamb\u00e9m como os anteriores, o romance se estrutura em blocos com a narrativa centrada em cada um dos personagens.<\/p>\n<p>Purity \u2013 que \u00e9 conhecida como Pip, e as refer\u00eancias ao <em>Great Expectations<\/em> do Dickens saltam de vez em quando \u2013 \u00e9 uma garota, rec\u00e9m sa\u00edda da universidade com uma d\u00edvida estudantil de US $ 130.000. N\u00e3o sabe direito o que fazer. Pior. Sabe que Tyler, o sobrenome que sua m\u00e3e lhe deu, n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro. N\u00e3o sabe quem \u00e9 o pai, informa\u00e7\u00e3o que a m\u00e3e recusa terminantemente a fornecer.<\/p>\n<p>A m\u00e3e parece uma representante deslocada da \u201cFlower Generation\u201d, amalucada, com um subemprego como caixa de supermercado em uma dessas cidadezinhas perto de Oakland, na ba\u00eda de S\u00e3o Francisco. Purity, tamb\u00e9m subempregada no que parece ser uma corretora de \u201cenergia verde\u201d, mora com outros tantos defroqu\u00eas em uma casa que foi propriedade de um deles \u2013 esquizofr\u00eanico \u2013 que est\u00e1 sendo despejado por um banco que a quer retomar por conta da hipoteca n\u00e3o paga.<\/p>\n<p>O romance todo se organiza em torno de Purity, da m\u00e3e \u2013 e a busca do pai. S\u00f3 que outro personagem importante \u00e9 introduzido logo nessa primeira se\u00e7\u00e3o por um casal de alem\u00e3es que supostamente chega l\u00e1 no meio de uma \u201cpesquisa\u201d sobre moradores de casas ocupadas. A mulher, Annagret, convence Purity a preencher um question\u00e1rio se candidatando a um est\u00e1gio remunerado junto a um projeto \u201cSunlight\u201d. Quem dirige \u00e9 Andreas Wolf, da ex-Alemanha do Leste, que aparece no filme como uma esp\u00e9cie de Assange, divulgando documentos para \u201cexp\u00f4-los \u00e0 luz do sol\u201d. Como se ver\u00e1 adiante, h\u00e1 um crime s\u00e9rio envolvido na trama, e o crime e Wolf s\u00e3o catalizadores do desfecho.<\/p>\n<p>As se\u00e7\u00f5es seguintes s\u00e3o narradas do ponto de vista de Andreas \u2013 filho de um alto dirigente da antiga DDR (Deutsche Demokratische Republik &#8211; a \u201cAlemanha Oriental\u201d) e que, por circunst\u00e2ncias v\u00e1rias, acaba aparecendo com um dissidente. Em seguida, em uma se\u00e7\u00e3o cuja voz \u00e9 a de Leila Helou, jornalista investigativa, sabemos que Purity est\u00e1 trabalhando em um site de jornalismo investigativo em Denver, dirigido por Tom Aberant (os nomes que o Franzen escolha s\u00e3o realmente \u00f3timos). Leila, sua amante e jornalista investigativa premiada, investiga um caso de desvio de um m\u00edssil nuclear, a partir de informa\u00e7\u00f5es que foram levadas at\u00e9 eles por Purity. Outras pe\u00e7as do quebra-cabe\u00e7as s\u00e3o dadas por Purity, narrando sua experi\u00eancia como estagi\u00e1ria no \u201cSunlight\u201d, e em seguida a voz passa para Tom, narrando sua vida. Andreas volta, no cap\u00edtulo mais eletrizante do livro, acrescentando mais dados ao puzzle e 0 final outra vez \u00e9 narrado por Purity, de volta a Oakland e \u00e0 sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Essa estrutura complexa, com narrativas aparentemente fechadas em si mesmas \u2013 o que \u00e0s vezes causa alguma confus\u00e3o cronol\u00f3gica na cabe\u00e7a do leitor \u2013 vai compondo o imenso painel, que inclui, al\u00e9m dos temas comuns do Franzen &#8211; fam\u00edlia, rela\u00e7\u00f5es familiares e como essas se inserem na sociedade dos EUA \u2013 um rep\u00fadio contundente a certas manifesta\u00e7\u00f5es da Internet, e particularmente a isso que aparece como \u201cjornalismo\u201d de vazamento de documentos. O bom \u00e9 que a coisa fica demonstrada na pr\u00e1tica, com o excruciante trabalho da Leila para fazer a mat\u00e9ria sobre o m\u00edssil nuclear, que se transforma em belo exemplo do que \u00e9 jornalismo de verdade. Isso \u00e9 complementado por uma parte das elocubra\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Andreas, endeusado pelo intern\u00e9ticos, e que no meio da sua segunda interven\u00e7\u00e3o solta essa:<\/p>\n<p>\u201cA velha Rep\u00fablica [DDR] certamente havia-se superado na vigil\u00e2ncia e nas paradas, mas a ess\u00eancia de seu totalitarismo havia sido mais cotidiana e sutil. Voc\u00ea podia cooperar com o sistema ou se opor a ele, mas algo jamais podia fazer, levasse uma vida segura e agrad\u00e1vel ou estivesse na pris\u00e3o, e era n\u00e3o estar em rela\u00e7\u00e3o com ele. A resposta para cada quest\u00e3o, pequena ou grande, era socialismo. Se voc\u00ea substituir <em>networks<\/em> por socialismo, tem a Internet. Suas plataformas competitivas se uniam na ambi\u00e7\u00e3o de definir cada termo de sua exist\u00eancia.\u201d [&#8230;] \u201cO Novo Regime [a Internet, F.L.] at\u00e9 mesmo reciclou o palavreado da Rep\u00fablica, <em>coletivo, colaborativo<\/em>. Axiom\u00e1tico dos dois era que uma nova esp\u00e9cie de humanidade emergia. Nisso, os apparatchiks de todas as pelagens concordam. Jamais parecia incomod\u00e1-los que as elites dirigentes consistissem em exemplares da brutal e \u00e1vida velha esp\u00e9cie da humanidade\u201d. [&#8230;] \u201cO objetivo da Internet e de suas tecnologias associadas era \u201clibertar\u201d a humanidade das tarefas \u2013 fazer coisas, aprender coisas, lembrar-se de coisas \u2013 que previamente davam significado \u00e0 vida, e dessa maneira constitu\u00edam a vida. Agora parecia que a \u00fanica tarefa que significava algo era a optimiza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de busca\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se preocupem. Esses trechos est\u00e3o totalmente inseridos na hist\u00f3ria, e n\u00e3o se trata de peda\u00e7os simplesmente declarat\u00f3rios. Fazem parte da \u00faltima se\u00e7\u00e3o na voz de Andreas que encadeia fatos, elocubra\u00e7\u00f5es e o fluxo mental de sua deteriora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p>O romance n\u00e3o deixa de ter seus problemas. Achei o final um tanto abrupto, se \u00e9 que se pode dizer isso de um romance desse tamanho. Mas o importante \u00e9 que em <em>Purity<\/em> \u201ca vida anima o todo\u201d, exatamente o contr\u00e1rio do que caracteriza uma literatura decadente, como definida na cita\u00e7\u00e3o do Nietszche que achei outro dia: <em>\u201cComo se caracteriza a decad\u00eancia na literatura? Pelo fato de nela a vida n\u00e3o mais animar o todo. As palavras se tornam predominantes e saltam de dentro da senten\u00e7a da qual fazem parte, as pr\u00f3prias senten\u00e7as ultrapassam seus limites, e obscurecem o sentido de toda a p\u00e1gina, e a p\u00e1gina por sua vez ganha vigor \u00e0 custa do todo \u2013 e o todo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um todo. Mas essa \u00e9 a f\u00f3rmula de todo estilo decadente: h\u00e1 sempre anarquia entre os \u00e1tomos\u201d.(Nietszche contra Wagner).<\/em><\/p>\n<p>Franzen, como v\u00e1rios outros romancistas do norte, como Margaret Atwood, Dennis Lehanne, Don de Lillo, David Foster Wallace, o falecido Doctorow e tantos outros, mostram que o significado da literatura, e especialmente do romance, continua forte e fecundo quando os autores lan\u00e7am seus olhares para o mundo e, atrav\u00e9s de narrativas bem constru\u00eddas \u2013 inclusive com experimenta\u00e7\u00f5es formais \u2013 deixam de olhar apenas para dentro de si e de seu pequeno mundo particular, como anda tanto em voga por estas plagas.<\/p>\n<p>De b\u00f4nus, o cap\u00edtulo narrada por Leila \u00e9 uma aula de jornalismo investigativo: como se corroboram informa\u00e7\u00f5es, e como a partir de uma foto (que j\u00e1 \u00e9 interessante), quem sabe puxar o fio da meada vai descobrindo mais coisas.<\/p>\n<p>Seria \u00f3timo se alguns dos &#8220;jornalistas investigativos&#8221; da Pindorama aprendessem. Mas, como sabemos, muitos se se qualificam como tais porque publicam vazamentos selecionados sem nenhuma apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPurity\u201d \u00e9 um \u00f3timo romance nessa tradi\u00e7\u00e3o, e faz jus \u00e0 trajet\u00f3ria de seu autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FSG \u2013 Amazon Kindle R$ 59,00 (577 p\u00e1ginas) &nbsp; Acabei de ler o novo romance de Jonathan Franzen, Purity. Como os anteriores, a hist\u00f3ria gira em torno da fam\u00edlia, com personagens que entram e saem desse n\u00facleo. 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