{"id":485,"date":"2015-08-07T00:05:42","date_gmt":"2015-08-07T03:05:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=485"},"modified":"2015-08-07T00:09:02","modified_gmt":"2015-08-07T03:09:02","slug":"nosso-momento-torquemada-entre-delacoes-e-abracos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=485","title":{"rendered":"NOSSO &#8220;MOMENTO TORQUEMADA&#8221; ENTRE DELA\u00c7\u00d5ES E ABRA\u00c7OS"},"content":{"rendered":"<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-486\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg?resize=640%2C302\" alt=\"TORQUEMADA E MOROS\" width=\"640\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg?resize=1024%2C483 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg?resize=300%2C142 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/TORQUEMADA-E-MOROS.jpg?w=1155 1155w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias tenho recebido mensagens convocando para um ato de \u201cabra\u00e7ar\u201d o Instituto Lula, na sexta-feira, dia 7.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou.<\/p>\n<p>Poderia ir, fossem outras as circunst\u00e2ncias e outro o modo como foi feita a convoca\u00e7\u00e3o. Chego l\u00e1, mas antes \u00e9 preciso declarar algumas coisas, para deixar evidente meu ponto de partida.<\/p>\n<p>Antes da funda\u00e7\u00e3o do PT, a Ala Vermelha, organiza\u00e7\u00e3o clandestina na qual militava e por conta dessa milit\u00e2ncia fui preso, torturado e exilado, discutiu amplamente a atitude a tomar diante da proposta que come\u00e7ava a ser formulada, de cria\u00e7\u00e3o desse novo partido legal. Houve companheiros que defenderam a ades\u00e3o ao PT como se este fosse o \u201cnovo\u201d partido revolucion\u00e1rio, substituindo as formas que j\u00e1 se manifestavam como anacr\u00f4nicas de atua\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e pol\u00edtica dentro das quais atu\u00e1vamos. Dito seja de passagem que companheiros nossos tiveram um papel important\u00edssimo na articula\u00e7\u00e3o do movimento sindical no ABCD, atrav\u00e9s do \u201cABCD JORNAL\u201d, que garantiu a comunica\u00e7\u00e3o da diretoria do sindicato dos metal\u00fargicos com os oper\u00e1rios, desde antes da greve e da deposi\u00e7\u00e3o da diretoria pela ditadura.<\/p>\n<p>Junto com muitos outros defendi a cria\u00e7\u00e3o do PT como partido eleitoral mais capaz de atuar nas novas circunst\u00e2ncias da redemocratiza\u00e7\u00e3o que o MDB, o saco de gatos que sempre foi e como o PMDB continua sendo. Repito, uma forma mais capaz de atuar eleitoralmente.<\/p>\n<p>Com essa posi\u00e7\u00e3o, trabalhei para conseguir afiliados para o processo de legaliza\u00e7\u00e3o. O PT conseguiu seu registro ainda nos estertores da ditadura, que n\u00e3o conseguiu impedi-lo porque j\u00e1 estava agonizante.<\/p>\n<p>Trabalhei nesse processo \u2013 e nunca ocupei nenhum cargo partid\u00e1rio \u2013 consciente de que n\u00e3o se tratava de nenhum partido \u201cnovo\u201d. Era uma forma de luta pol\u00edtica-eleitoral, dentro do sistema capitalista e sujeito \u00e0s injun\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica legal. Por isso mesmo, jamais tive ilus\u00f5es com o PT. E, por isso mesmo, tamb\u00e9m n\u00e3o tenho do que ficar desiludido.<\/p>\n<p>Nesses anos todos votei principalmente nos candidatos do PT.<\/p>\n<p>Vou continuar votando no PT. Com as exce\u00e7\u00f5es que me parecerem corretas.<\/p>\n<p>E isso por que, ainda que n\u00e3o seja, nunca tenha sido e jamais vir\u00e1 a ser um \u201cpartido novo\u201d, os governos do PT promoveram transforma\u00e7\u00f5es sociais cruciais para a melhoria da vida dos trabalhadores; combateram a mis\u00e9ria e a fome e deram novos rumos \u00e0 pol\u00edtica externa. Jogou o jogo da legalidade e dentro do sistema, e ganhou as quatro \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, querer roubar essas vit\u00f3rias eleitorais tem velho registro na Am\u00e9rica Latina: chama-se GOLPE DE ESTADO.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Se o de 1964 foi uma trag\u00e9dia, esse que se anuncia pode ser at\u00e9 uma farsa, mas pode se transformar em uma farsa sangrenta e destro\u00e7ar a fr\u00e1gil democracia em que vivemos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o estou aqui para fazer invent\u00e1rio nem de acertos nem de erros, que dos dois h\u00e1 para todos os gostos.<\/p>\n<p>S\u00f3 fa\u00e7o quest\u00e3o de ressaltar que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia pura e simples do sistema capitalista. O processo eleitoral gera corrup\u00e7\u00e3o. E, o que muito pior, gera essa ilus\u00e3o moralista, esse udenismo redivivo que acha que ser \u201ccontra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, nunca foi, jamais ser\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata tampouco de ficar na ladainha de saber quem roubou mais ou menos. O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 assim meio como uma tarefa de S\u00edsifo: tem que ser feita continuadamente, mas nunca termina. Os malandros sempre acham maneiras de encontrar as brechas. Devem ser combatidos, processados e condenados, quando prova houver dos crimes cometidos. N\u00e3o vale a \u201cjurisprud\u00eancia barbosista\u201d de que \u201cest\u00e1 na cara\u201d. O que est\u00e1 na cara s\u00e3o olhos, boca e nariz, n\u00e3o car\u00e1ter e muito menos prova de crime.<\/p>\n<p>Os enfrentamentos de classe, as injusti\u00e7as sociais e as desigualdades s\u00e3o as grandes quest\u00f5es enfrentadas por todas as sociedades, e o moralismo n\u00e3o resolve nada disso. N\u00e3o sou crist\u00e3o (devoto de S\u00e3o Luiz Bu\u00f1uel, vivo repetindo: gra\u00e7as a deus, sou ateu!), mas o tal nazareno tinha toda raz\u00e3o quando invectivou quem nunca pecou a atirar a primeira pedra.<\/p>\n<p>Continuo acreditando no ideal de uma sociedade na qual \u201cde cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades\u201d. N\u00e3o existe objetivo social mais amplo e justo que esse. Que eu me nego a chamar de utopia, entre outras tantas raz\u00f5es porque acredito que chegaremos l\u00e1, em algum momento, e tamb\u00e9m porque essa hist\u00f3ria de utopia, inventada pelo hip\u00f3crita do Tom\u00e1s Moro, \u00e9 um conceito de sonhadores que n\u00e3o leva a nada. E de Moro j\u00e1 estou farto h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m devo reconhecer que, nestas alturas, o como chegar nessa sociedade j\u00e1 escapou da capacidade de formula\u00e7\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o. Lutamos bons combates, conseguimos muitas coisas. O marxismo acad\u00eamico atualmente vigente pode explicar um monte de fen\u00f4menos, mas n\u00e3o consegue chegar aos p\u00e9s da imensa necessidade formulada por Marx: \u201cOs fil\u00f3sofos t\u00eam apenas\u00a0<em>interpretado<\/em>\u00a0o mundo de maneiras diferentes; a quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9\u00a0<em>transform\u00e1-lo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 ficar\u00e1 para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, diante de tudo isso, porque n\u00e3o vou ao \u201cabra\u00e7o\u201d do Instituto Lula?<\/p>\n<p>Mesmo que fosse um rep\u00fadio ostensivo ao ato terrorista contra o Instituto, o rep\u00fadio por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 o suficiente. A quest\u00e3o \u00e9: como combater essa aparente avalanche da direita? Certamente n\u00e3o \u00e9 ir abra\u00e7ar Lula e seu Instituto. Falta muito mais.<\/p>\n<p>Falta mais \u2013 como fez falta na nota oficial da executiva do PT \u2013 uma den\u00fancia contundente contra o golpe em marcha; fez falta uma diretiva concreta de combate a essa tentativa de golpe em marcha. E como fez falta tamb\u00e9m a defesa contundente do princ\u00edpio jur\u00eddico de que todas as pessoas s\u00e3o inocentes at\u00e9 serem julgadas.<\/p>\n<p>Vivemos um \u201cmomento Torquemada\u201d. As pessoas s\u00e3o acusadas e n\u00e3o t\u00eam sequer o direito de saber o conte\u00fado da dela\u00e7\u00e3o de quem os acusou. Um momento em que delatar passa a ser virtude, e dela\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa de provas e passa ser verdade absoluta. Um procurador da Rep\u00fablica, que institucionalmente teria que defender a lei, trata delatados como criminosos, como se julgados e condenados j\u00e1 o fossem.\u00a0O primeiro Moro mandou queimar vivo os hereges que n\u00e3o reconheciam a autoridade papal, o segundo emula o Grande Inquisidor com acusa\u00e7\u00f5es baseadas em dela\u00e7\u00f5es secretas e &#8220;premiadas&#8221;.<\/p>\n<p>Recentemente, e a prop\u00f3sito do Moro de plant\u00e3o, andei lembrando muito do romance \u201cVida e Destino\u201d, do Vassili Grossman, que li em ingl\u00eas h\u00e1 alguns anos, e recentemente lan\u00e7ado aqui. As resenhas t\u00eam ressaltado muito os epis\u00f3dios relacionados com a Batalha de Stalingrado. Mas, para mim, foram extremamente marcantes algumas das outras subtramas do romance. Uma delas diz respeito aos interrogat\u00f3rios feitos pela KGB na Lubianka. Um dos personagens, que de certa forma sintetiza todos os dirigentes do PCUS v\u00edtimas do St\u00e1lin, \u00e9 interrogado l\u00e1 dentro. Sem tortura. Ningu\u00e9m encosta um dedo nele. O jogo \u00e9 pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, com os interrogadores manipulando declara\u00e7\u00f5es, pequenos fatos e comportamentos do acusado. Comunista, este se v\u00ea progressivamente encurralado e pratica verdadeira autoimola\u00e7\u00e3o, confessando e delatando as pessoas com as quais compartilhou milit\u00e2ncia, vida e experi\u00eancia. No final, \u201creabilitado\u201d no esfor\u00e7o de guerra, \u00e9 comandante de uma das colunas de blindados que rompe o cerco de Stalingrado e parte para a ofensiva final contra os nazistas.<\/p>\n<p>As mem\u00f3rias da vi\u00fava de Bukh\u00e1rin tamb\u00e9m relatam situa\u00e7\u00e3o parecida. N\u00e3o foi a tortura f\u00edsica que o levou a ter o comportamento p\u00fablico abjeto no julgamento. Foi a destrui\u00e7\u00e3o moral dos interrogat\u00f3rios, horas e horas seguidas, trocando os interrogadores e martelando os mesmos pontos. E o romance \u201cOs Filhos de Arbat\u201d, de Anatoly Rybakov, tamb\u00e9m trata desse mesmo tipo de epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias dos interrogadores de St\u00e1lin h\u00e1 muito foram assimiladas pelos modernos Torquemadas, e os exemplos do Moro de plant\u00e3o s\u00f3 fazem confirmar isso. Com dela\u00e7\u00f5es, interrogat\u00f3rios e amea\u00e7as contra as fam\u00edlias, vai se colocando o estado de direito e a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia no esgoto.<\/p>\n<p>Evidentemente n\u00e3o quero, nem de longe, comparar os empres\u00e1rios corruptos presos pela PF com os dirigentes comunistas. Apenas ressaltar que todos os presos do Dr. Moro S\u00c3O TORTURADOS. E os cretinos aplaudem, como aplaudiram a a\u00e7\u00e3o da KGB em 1935. E n\u00f3s, inertes.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do PT e o Lula ficam patinando na inani\u00e7\u00e3o de querer apaziguar essa direita feroz que parte para a jugular.<\/p>\n<p>Nesse sentido, mas n\u00e3o posso deixar de ressaltar a corre\u00e7\u00e3o da observa\u00e7\u00e3o feira pelo Breno Altman: \u201ca pol\u00edtica aceita quase qualquer coisa, menos a humilha\u00e7\u00e3o de quem decide, por covardia ou erro de c\u00e1lculo, perder sem lutar\u201d.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do PT se comporta de modo similar \u00e0 do PCB nas v\u00e9speras do golpe de 64. D\u00e1 uma de avestruz. Jango caiu na conversa do falastr\u00e3o do Assis Brasil e seu \u201cesquema militar\u201d; Lula e a dire\u00e7\u00e3o do PT apostam em uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular que n\u00e3o souberam nem mesmo preservar, muito menos aprofundar e consolidar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o estou para gestos puramente simb\u00f3licos.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o vou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias tenho recebido mensagens convocando para um ato de \u201cabra\u00e7ar\u201d o Instituto Lula, na sexta-feira, dia 7. N\u00e3o vou. Poderia ir, fossem outras as circunst\u00e2ncias e outro o modo como foi feita a convoca\u00e7\u00e3o. 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