{"id":479,"date":"2015-07-26T22:05:35","date_gmt":"2015-07-27T01:05:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=479"},"modified":"2015-07-26T22:05:35","modified_gmt":"2015-07-27T01:05:35","slug":"adeus-camaradas-nostalgia-historia-e-contexto-em-documentario-sobre-a-dissolucao-da-urss","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=479","title":{"rendered":"\u201cAdeus, Camaradas\u201d \u2013 Nostalgia, hist\u00f3ria e contexto em document\u00e1rio sobre a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cSonhei que a democracia era compat\u00edvel com nosso ideal, que as pessoas optariam pelo socialismo se tivessem escolha. Mas n\u00e3o foi assim. Para mim, isso foi uma trag\u00e9dia t\u00e3o grande, que parei de pensar nisso. Mesmo que depois alguns se arrependessem, em 1991 as pessoas rejeitaram nosso socialismo. Fazendo isso, se puseram contra sua educa\u00e7\u00e3o, seus h\u00e1bitos, seus valores, suas lembran\u00e7as, tudo que gostavam. Permaneciam sovi\u00e9ticos e socialistas na alma, mas n\u00e3o suportavam mais que lhes mentissem e enganassem. O ponto de partida de nossa aventura foi a f\u00e9 em um ideal de fraternidade e justi\u00e7a. No caminho, cada um de n\u00f3s evoluiu. Quanto a mim, a coisa mais importante e dolorosa que aprendi, \u00e9 que n\u00e3o se pode impor um ideal, por mais nobre que seja.<\/em><\/p>\n<p><em>Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>Porque afinal nenhum ideal pode prevalecer sobre a liberdade\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Andrei Nekrasov, cineasta (russo? Ex-sovi\u00e9tico? Franco-sovi\u00e9tico?) no final de seu document\u00e1rio <em>Adieu, Camarades!<\/em>, produzido pelo canal europeu Arte e lan\u00e7ado no Brasil pela Vers\u00e1til.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.dvdversatil.com.br\/adeus-camaradas\/');\"  href=\"http:\/\/www.dvdversatil.com.br\/adeus-camaradas\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-480\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/adeus-camaradas.jpg?resize=300%2C412\" alt=\"adeus, camaradas\" width=\"300\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/adeus-camaradas.jpg?w=300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/adeus-camaradas.jpg?resize=218%2C300 218w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a> O document\u00e1rio fez-me lembrar muito dos anos de milit\u00e2ncia, entre as d\u00e9cadas de 60 e 80, por isso mesmo provocou uma certa estranheza, sobre a qual refleti depois.<\/p>\n<p>A chave, realmente, \u00e9 que Nekrasov \u00e9 russo, e estrutura o document\u00e1rio a partir de sua experi\u00eancia, de sua vida como russo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Para ele, inculcado desde a inf\u00e2ncia, sua vida era a vida no socialismo. Socialismo, ponto par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Quanto isso era distante de n\u00f3s, que milit\u00e1vamos contra a ditadura e em busca da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista. Para a grande maioria dentre n\u00f3s, o que havia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 e no Leste europeu \u2013 era uma \u201cexperi\u00eancia\u201d de socialismo real. E muito problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Hav\u00edamos passado, em 1964, pelo rotundo fracasso do PCB, cujas t\u00e1ticas e estrat\u00e9gia n\u00e3o conseguiram dar um m\u00ednimo de resposta \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos golpistas. O \u201cesquema militar\u201d do general Assis Brasil \u2013 chefe do Gabinete Militar do Jango \u2013 era nada mais que vento quente, arroto ilus\u00f3rio. E mesmo os que se colocavam \u00e0 esquerda, como o PCdoB e as Ligas Camponesas do Juli\u00e3o, estavam no fundo atrelados \u00e0s ilus\u00f5es do PCB e n\u00e3o houve nenhuma resist\u00eancia efetiva ao golpe.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca tamb\u00e9m se cristalizava a chamada ruptura sino-sovi\u00e9tica, e Cuba j\u00e1 era o que era: por um lado tentando apoiar guerrilhas e guerras de liberta\u00e7\u00e3o nacional na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina (via Che), e ao mesmo tempo desesperada para escapar do sufoco do bloqueio, ora com os mirabolantes planos da safra de dez milh\u00f5es de toneladas, ora com a busca de qualquer apoio que pintasse no horizonte para n\u00e3o cair totalmente na depend\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A experi\u00eancia da crise dos m\u00edsseis j\u00e1 havia ensinado os cubanos sobre os alcances e os interesses do apoio sovi\u00e9tico \u00e0 ilha. E a guerra do Vietn\u00e3 \u2013 com as guerrilhas paralelas no Camboja e no Laos \u2013 acrescentavam outros ingredientes \u00e0 salada.<\/p>\n<p>Todo o processo descrito no document\u00e1rio de Nekrasov era visto por aqui dentro desse nosso contexto. Foi vivido por n\u00f3s dentro desse contexto. Salvo para os militantes do partid\u00e3o, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o era \u201ca\u201d experi\u00eancia do socialismo. Era o dito \u201csocialismo real\u201d, problem\u00e1tico e, se n\u00e3o destinado ao fracasso, certamente muito longe do imaginado. Ainda que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro fosse unanimemente admirada por todos, a experi\u00eancia do stalinismo j\u00e1 era evidente, embora houvesse tamb\u00e9m rejei\u00e7\u00e3o ao discurso anticomunista das bailarinas que fugiam e \u2013 mesmo com espanto \u2013 \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de um Soljen\u00edtsin.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 1983, na Marco Zero, publicamos <em>A Oposi\u00e7\u00e3o no \u201cSocialismo Real\u201d \u2013 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Hungria, Tcheco-Eslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia: 1953-1980<\/em>, do Fernando Claud\u00edn (traduzido por mim). Claud\u00edn, ex-membro do Comit\u00ea Central do PC Espanhol, havia sido expulso antes que prevalecessem as posi\u00e7\u00f5es do \u201ceurocomunismo\u201d que, no final, levaram Santiago Carrillo a aceitar o Pacto de Moncloa. \u00c9 uma an\u00e1lise panor\u00e2mica de fatos que est\u00e3o vistos no document\u00e1rio de Nekrasov desde a perspectiva de um jovem russo. O livro do Claud\u00edn expressava o que muitos de esquerda pensavam, e bem antes da \u201cperestroika\u201d do Gorbachev:<\/p>\n<p>O \u201csocialismo\u201d da Europa do Leste n\u00e3o era fruto de revolu\u00e7\u00f5es, e sim da imposi\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, em primeiro lugar. Depois, o conceito de \u201cdemocracia popular\u201d, uma frente de transi\u00e7\u00e3o \u2013 aceit\u00e1vel diante das condi\u00e7\u00f5es do final da II Guerra Mundial\u201d \u2013 fora liquidado, e os respectivos partidos comunistas al\u00e7ados ao poder sem os contrastes e alian\u00e7as que eram supostos nessas democracias populares. Muitos dos aspectos econ\u00f4micos do Pacto de Vars\u00f3via tornavam aqueles pa\u00edses, de fato, col\u00f4nias sujeitas a uma divis\u00e3o de trabalho na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>O pior, entretanto, era o que acontecia na pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mesmo com a compreens\u00e3o dos efeitos do bloqueio dos primeiros anos depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e da guerra civil, os m\u00e9todos stalinistas se revelavam como completa nega\u00e7\u00e3o do que fora Outubro. Ainda assim, um livro como \u201c\u00catre Communiste Sous Estaline\u201d, um texto recolhido por Nicolas Werth, escrito por um militante perdido nas imensid\u00f5es da \u00c1sia, mostrava as dificuldades, contradi\u00e7\u00f5es e problemas da constru\u00e7\u00e3o da sociedade sovi\u00e9tica em seus primeiros anos, e como tudo simplesmente era extremamente dif\u00edcil e penoso (Gallimard, 1981).<\/p>\n<p>Ainda assim, o esfor\u00e7o sovi\u00e9tico na derrota do nazismo, os avan\u00e7os no campo t\u00e9cnico-cient\u00edfico e tantas outras fa\u00e7anhas (reais ou aparentes) da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se contrapunham, \u00a0deixando uma compreens\u00e3o contradit\u00f3ria sobre tudo aquilo, sem falar que o conceito de luta de classes, transferido ao panorama internacional, continuava sendo fort\u00edssimo entre quem tinha forma\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n<p>A perestroika e a glasnost, mais tarde, simplesmente deixaram claras as contradi\u00e7\u00f5es, e viu-se que aquilo realmente n\u00e3o era o que se esperara no princ\u00edpio.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio, divido em seis cap\u00edtulos, se estrutura como um di\u00e1logo entre Nekrasov e sua filha, tida com a esposa francesa, e que \u00e9 historiadora. Tatiana dialoga com o pai (sempre em off), comentando, \u00e0s vezes de modo \u00e1cido, o desenrolar dos acontecimentos.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio foi produzido pelo canal europeu ARTE, e os detalhes da produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito interessantes. As entrevistas s\u00e3o feitas nos idiomas originais, legendadas, e incluem personagens de quase todos os pa\u00edses da Europa do Leste \u2013 mas n\u00e3o, significativamente, de todas as \u201cRep\u00fablicas Sovi\u00e9ticas\u201d. Ou seja, o filme se foca na \u00e1rea do Pacto de Vars\u00f3via mais que dentro da pr\u00f3pria URSS.<\/p>\n<p>Os entrevistados representam um corte amplo de personagens direta ou indiretamente envolvidos nos acontecimentos, al\u00e9m de cidad\u00e3os comuns, militantes de direitos humanos, ex-guardas de fronteira, ex-soldados. Tamb\u00e9m s\u00e3o recolhidos excertos de notici\u00e1rios e muitas grava\u00e7\u00f5es feitas clandestinamente na \u00e9poca, inclusive as que mostram manifesta\u00e7\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es de tropas. Grava\u00e7\u00f5es de espet\u00e1culos musicais \u2013 e algumas entrevistas com cantores dissidentes, completam o panorama.<\/p>\n<p>Os \u201cgrandes\u201d personagens n\u00e3o foram entrevistados para o filme, embora apare\u00e7am em grava\u00e7\u00f5es da \u00e9poca: Brejnev, Andropov, Gorbachev, Yeltsin, Ceausescu, V\u00e1clav Havel, Jaruselsky, Honeck e outros do mesmo naipe. Mas s\u00e3o entrevistados alguns de seus auxiliares pr\u00f3ximos ou membros das equipes, como o antigo chefe de seguran\u00e7a pessoal de Gorbachev, General da KGB, que termina manifestando enorme desprezo pelas atitudes pol\u00edticas e pessoais do Gorby.<\/p>\n<p>Um aspecto muito interessante do projeto \u00e9 o do material adicional produzido pelo Centre National de Documentation P\u00e9dagogique (CNDP) franc\u00eas, que colaborou no desenvolvimento de uma plataforma interativa na Internet,\u00a0<em><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.emilangues.education.fr\/actualites\/2012\/adieu-camarades');\"  href=\"http:\/\/www.emilangues.education.fr\/actualites\/2012\/adieu-camarades\" target=\"_blank\">Adieu Camarades!<\/a>,\u00a0<\/em>em associa\u00e7\u00e3o com o canal ARTE. O objetivo do CNDP \u00e9 disponibilizar aos professores conte\u00fados pedag\u00f3gicos de qualidade e gratuitos, dispon\u00edveis para uso em sala de aula e nas resid\u00eancias.<\/p>\n<p>A plataforma interativa se organiza em seis idiomas (franc\u00eas, alem\u00e3o, ingl\u00eas, romeno, noruegu\u00eas e checo), e toma como pretexto uma s\u00e9rie de 26 cart\u00f5es postais enviados desde v\u00e1rios pa\u00edses da Europa do Leste. Seus destinat\u00e1rios s\u00e3o personagens que viveram os momentos narrados no document\u00e1rio, comentam os postais em filmetes e remetem a outros materiais audiovisuais. A mesma abordagem pode ser vista a partir de mapas. Muito interessante. E um bom exemplo de tipo de material que poderia ser produzido pelo MEC\/MinC e televis\u00f5es educativas e p\u00fablicas do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>Adeus, Camaradas<\/em> pode, portanto, ser visto simplesmente como um document\u00e1rio, mas nas m\u00e3os de professores inteligentes e preparados, tamb\u00e9m pode ser um \u00f3timo material de ensino de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A Vers\u00e1til tem divulgado aqui document\u00e1rios importantes, como este, e como o baseado na obra do Darcy Ribeiro, \u201cO Povo Brasileiro\u201d, al\u00e9m do recente \u201cNo Paiz das Amazonas\u201d, recupera\u00e7\u00e3o de filme feito no Amazonas nos anos vinte por Silvino Santos, um dos precursores do cinema brasileiro. Mais recentemente lan\u00e7ou \u201cSartre no Cinema\u201d, al\u00e9m de uma sele\u00e7\u00e3o de filmes que vai muito al\u00e9m do que as grandes distribuidoras mandam para c\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSonhei que a democracia era compat\u00edvel com nosso ideal, que as pessoas optariam pelo socialismo se tivessem escolha. Mas n\u00e3o foi assim. Para mim, isso foi uma trag\u00e9dia t\u00e3o grande, que parei de pensar nisso. 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