{"id":347,"date":"2015-04-11T13:16:42","date_gmt":"2015-04-11T16:16:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=347"},"modified":"2015-04-11T13:16:42","modified_gmt":"2015-04-11T16:16:42","slug":"baba-foge-de-cadeirante","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=347","title":{"rendered":"BAB\u00c1 FOGE DE CADEIRANTE"},"content":{"rendered":"<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-348\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg?resize=150%2C150\" alt=\"Capturar\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg?zoom=2&amp;resize=150%2C150 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Capturar.jpg?zoom=3&amp;resize=150%2C150 450w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>O tempo, o mores. <\/em>Bab\u00e1, meu amigo Jos\u00e9 Bessa, que foi militante corajoso, enfrentou a pol\u00edcia em passeatas e protestos, e j\u00e1 apanhou a mando de um certo Tiradentes que n\u00e3o \u00e9 o protom\u00e1rtir da independ\u00eancia e sim um brutalh\u00e3o que ocupa caergos em certos governos da regi\u00e3o Norte, \u00e9 flagrado fugindo de um cadeirante.<\/p>\n<p>Vergonha! Vergonha?<\/p>\n<p>Deixem ele contar a hist\u00f3ria, no seu <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1137');\"  href=\"http:\/\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1137\" target=\"_blank\">Taquiprat<\/a>i, abaixo tamb\u00e9m reproduzido para os pregui\u00e7osos.<\/p>\n<div class=\"TituloMateriaPrincipal\">O DIA EM QUE FUGI DE UM CADEIRANTE<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">12\/04\/2015 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>Contar ou n\u00e3o contar? Hesito. Sei que n\u00e3o \u00e9 nada honroso tornar p\u00fablico o que aconteceu a mim e ao meu amigo de f\u00e9, irm\u00e3o, camarada, Roberto Luis, quando fomos atacados em plena luz do dia, num parque em Niter\u00f3i. Ver\u00e1s que um filho teu n\u00e3o foge \u00e0 luta? Eu, hein! Nem pensar! Fugimos em desabalada carreira, perseguidos de perto por um furioso agressor completamente ensandecido. Pensamos com nossas pernas.<\/div>\n<div>Os mais afoitos argumentam que isso \u00e9 motivo para se envergonhar. Mas h\u00e1 controv\u00e9rsias. Afinal, <i>&#8220;apanhar do Governo n\u00e3o \u00e9 desfeita&#8221;<\/i> como ensinou Fabiano, personagem de <i>Vidas Secas<\/i>, depois de levar surra de fac\u00e3o de um soldado. O pr\u00f3prio escritor Graciliano Ramos apanhou muito nos c\u00e1rceres da ditadura Vargas e ostentou as feridas como medalha, n\u00e3o como desonra.<\/div>\n<div>Acontece que no nosso caso o agressor n\u00e3o era &#8220;o governo&#8221;, mas<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/cadeirante1.jpg?resize=336%2C294\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"294\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/> um desgovernado cadeirante. \u00c9. Isso mesmo! Um cadeirante com rodas no lugar das pernas. A humilha\u00e7\u00e3o reside a\u00ed, nas condi\u00e7\u00f5es desiguais que, em tese, nos eram amplamente favor\u00e1veis. Daria para encar\u00e1-lo. \u00c9ramos dois contra um e ainda assim nos pirulitamos, mas n\u00e3o foi por escr\u00fapulos de bater num deficiente. Demos \u00e0s de vila-diogo por instinto de conserva\u00e7\u00e3o, digamos assim, ou se preferir, por medo mesmo.<\/div>\n<div>Por isso, hesito em contar, nem tanto em respeito a Roberto Luis, um po\u00e7o de mansid\u00e3o, que nada tem de fanfarr\u00e3o, mas por mim, que fico com a reputa\u00e7\u00e3o arranhada ao admitir que nos faltou o brio e a coragem do cadeirante que lhe conferiu superioridade sobre n\u00f3s. Portanto, se conto tudo, sem nada omitir, \u00e9 porque confio na indulg\u00eancia do leitor. Foi assim.<\/div>\n<div><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Rota de fuga<\/span><\/b><\/div>\n<div>No s\u00e1bado de aleluia, de manh\u00e3 bem cedinho, sa\u00edmos como de costume para nossa caminhada matinal no arborizado Campo de S\u00e3o Bento, eu e Roberto Luis. Passarinhos cantando, borboletas voando, pombinhos arrulhando, o sol nascendo, poucas pessoas transitando, uma ou outra com o cachorro na coleira. Embora o cen\u00e1rio seja id\u00edlico, todo cuidado \u00e9 pouco, tem muita gente que foi assaltada aqui nessa hora.<\/div>\n<div>De repente, n\u00e3o mais que de repente, eis que surge diante de n\u00f3s um cadeirante, que depois soubemos se chamar Benjamin. Seus olhos faiscantes cuspiam fogo, ele nos amea\u00e7ou e sem mais nem menos avan\u00e7ou, trotando sobre rodas, numa velocidade inacredit\u00e1vel, disposto a tudo.<\/div>\n<div>&#8211; Corre, Bob Lucho! &#8211; gritei ao ver a valentia do meliante.<\/div>\n<div>Quando chamo Roberto Luis de Bob Lucho &#8211; e ele sabe disso &#8211; \u00e9 porque o bicho est\u00e1 pegando. E estava. Sa\u00edmos emparelhados com o cadeirante nos nossos calcanhares, parecia c\u00e3o raivoso. Na persegui\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, enveredamos pela alameda principal, seguimos a trilha do parque pelo meio da vegeta\u00e7\u00e3o, invadimos canteiros de plantas, contornamos as bordas do lago, com o agressor em nosso encal\u00e7o. Gritamos por socorro, na esperan\u00e7a de que o jardineiro ali presente fizesse algo, mas ele, insens\u00edvel, parecia se divertir com nossa desgra\u00e7a.<\/div>\n<div>Exagero se digo que o embate tinha algo de \u00e9pico, com cheiro de Guerra de Tr\u00f3ia no ar? S\u00f3 sei que baixou em mim Aquiles,\u00a0o her\u00f3i grego\u00a0&#8220;<i>dos p\u00e9s ligeiros<\/i>&#8220;,\u00a0eu quase voava, s\u00f3 que numa hist\u00f3ria invertida, pois o perseguidor era Heitor, o troiano.\u00a0O diabo \u00e9 que o bafo deste Heitor no meu tal\u00e3o me lembrava Aquiles, morto com flechada no calcanhar, \u00fanica parte vulner\u00e1vel de seu corpo. Com a respira\u00e7\u00e3o alterada, o cora\u00e7\u00e3o palpitante, em frangalhos e exauridos, s\u00f3 n\u00e3o fomos flechados, porque subimos celeremente as escadas do coreto, deixando o cadeirante l\u00e1 embaixo.<\/div>\n<div><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Duas vidas<\/span><\/b><\/div>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/Neco2.jpg?resize=344%2C312\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"312\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Conv\u00e9m te apresentar os dois personagens principais dessa hist\u00f3ria: Roberto Luis Freire &#8211; o Bob Lucho e Benjamin Fonseca &#8211; o Benje. Ambos mudaram v\u00e1rias vezes de identidade. Cada um, qual guerreiro tupinamb\u00e1, acumulou diversos nomes em fun\u00e7\u00e3o das batalhas travadas ao longo da exist\u00eancia.<\/div>\n<div>Foi como &#8220;Neco&#8221; que Roberto Luis entrou na minha vida. O bom Neco foi abandonado ainda beb\u00ea no port\u00e3o da PUC, onde a m\u00e3e nunca ingressou. Estava assustado, marcado pelos traumas do enjeitamento, quando decidi adot\u00e1-lo. &#8220;Patife&#8221;, o nome que lhe dei como tributo ao finado &#8220;Canalha&#8221;, seu antecessor, n\u00e3o pegou. Ficou sendo &#8220;Bob&#8221; por causas das enormes orelhas que lhe d\u00e3o ar de bobalh\u00e3o. Logo mudou para &#8220;Bob Lucho&#8221; em homenagem a um amigo colombiano chamado Roberto Luis. Foi assim que um apelido &#8211; caso raro &#8211; acabou dando origem a este nome pomposo.<\/div>\n<div>A hist\u00f3ria de &#8220;Benje&#8221; \u00e9 ainda mais sofrida. Seu nome era &#8220;Chaulim&#8221;, quando vadiava pelo Morro do Caval\u00e3o. Foi adotado por um coletor de papel\u00e3o que puxava carro\u00e7a pelas ruas de Niter\u00f3i &#8211; um burro-sem-rabo &#8211; e agora tem barraca de fruta no sop\u00e9 do morro. L\u00e1 encontrou alimento, carinho e um teto &#8211; dormia debaixo da carrocinha. Um dia, em julho de 2012, durante briga com um cachorro em frente ao t\u00fanel, foi atropelado por um carro que quebrou-lhe as patas traseiras.<\/div>\n<div>Ferido, com fissura na coluna, a v\u00edtima foi socorrida por Marluce<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/chaulim%20%20propaganda.jpg?resize=456%2C364\" alt=\"\" width=\"456\" height=\"364\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/> Toscano que a tudo assistiu. Internado num abrigo para c\u00e3es abandonados de Roberta Mello, l\u00e1 ficou tr\u00eas meses, mas segundo o veterin\u00e1rio precisava de cuidados especiais e teria que fazer acupuntura e fisioterapia, num tratamento caro, cujo custeio necessitava da ajuda de outras madrinhas e padrinhos. Foi tecida, ent\u00e3o, uma rede de solidariedade na internet em busca de um lar transit\u00f3rio para o dito cujo que ficara aleijado.<\/div>\n<div>Fazia parte desta rede a advogada Cl\u00e1udia Fonseca, que come\u00e7ou comprando ra\u00e7\u00e3o, fralda e rem\u00e9dio, mas em fevereiro de 2013 resolveu adot\u00e1-lo, trazendo-o para o seu apartamento em Icara\u00ed. Vida nova, nome novo. &#8220;Chaulim&#8221;, agora chamado de &#8220;Benje&#8221;, estava com anemia, carrapato, fazia coco e xixi no ch\u00e3o e arrastava as duas patas e os quartos pela casa, sujando tudo. Um calv\u00e1rio!<\/div>\n<div><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Ben Hur<\/span><\/b><\/div>\n<div>Para ele n\u00e3o se arrastar, Cl\u00e1udia encomendou um aparelho com rodas de uma empresa sediada em Botucatu (SP) &#8211; a VetCar Aparelho de Fisioterapia Veterin\u00e1ria. Trata-se de dispositivo personalizado com rodas, din\u00e2mica e equil\u00edbrio exclusivos, que requer avalia\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, exames, medi\u00e7\u00e3o das pernas, peso, altura, tudo ajustado milimetricamente incluindo o comprimento das barras laterais para que Benje pudesse fazer curvas com tranquilidade. Por isso, na corrida, ele deixa Rubinho Barichello no chinelo.<\/div>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/BENJI(1).jpg?resize=460%2C356\" alt=\"\" width=\"460\" height=\"356\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Com este aparelho em a\u00e7o inox trefilado, encaixe de alum\u00ednio leve, suporte de polietileno macio e rodas emborrachadas &#8211; cria\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia humana &#8211; Benje passeia no parque com Cl\u00e1udia, Jhonys Ribeiro ou Juciara Pinho, auxiliar de enfermagem, que faz com ele exerc\u00edcios di\u00e1rios de fisioterapia. Ela retira o carrinho e ele j\u00e1 ensaia uns passos milagrosamente, depois de fazer acupuntura com Fernanda Calmont para regular o sistema nervoso e urin\u00e1rio e para o t\u00f4nus muscular. Benje goza de um direito que todo brasileiro devia ter, da mesma forma que qualquer ser vivo.<\/div>\n<div>O nosso cadeirante tem sete anos segundo o veterin\u00e1rio Diogo<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/Sem%20t%C3%ADtulo.png?resize=263%2C245\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"245\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/> que calculou a idade atrav\u00e9s de exame de denti\u00e7\u00e3o. Sobreviveu porque o Brasil n\u00e3o \u00e9 feito s\u00f3 de eduardos cunhas, renans calheiros e cerver\u00f3s.<\/div>\n<div>O Ben-Hur dos cachorros, sofrido, \u00e9 gente fin\u00edssima. Apoiado pela ternura humana, \u00e9 exemplo de resist\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o. Na realidade, o &#8220;ataque&#8221; que sofremos n\u00e3o foi gratuito. Como todo cachorro de rua, ele territorializou todos os espa\u00e7os e quem pagou o pato foi Bob, o &#8220;invasor&#8221;. Dizem, por\u00e9m, as m\u00e1s l\u00ednguas &#8211; e eu aqui registro em tom de fofoca &#8211; que Benje e Bob \u00a0disputam o cora\u00e7\u00e3o de &#8220;Madona&#8221;, uma bela loura\u00e7a Golden Retriever, inacess\u00edvel ao bico dos dois que tentam seduzi-la quando a encontram nos passeios matinais.<\/div>\n<div>O ataque, portanto, pode ter sido uma crise de ci\u00fames<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/golden-retriever-6.jpg?resize=332%2C254\" alt=\"\" width=\"332\" height=\"254\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/> shakespeariana, digna de um Otelo. O ci\u00fame \u00e9 uma merda, mas <i>&#8220;cachorro tamb\u00e9m \u00e9 um ser humano&#8221;<\/i>, como disse o ex-ministro Ant\u00f4nio Magri em surto de sabedoria involunt\u00e1ria. Talvez tanto a do\u00e7ura do Bob quanto a valentia do Benje se espelhem numa humanidade que a gente perde diariamente diante da barb\u00e1rie cotidiana, como o assassinato do menino no Complexo do Alem\u00e3o, dos negros mortos por policiais nos Estados Unidos e da constante invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas.<\/div>\n<p>Pronto. Contei. Advirto que o que foi aqui relatado &#8220;\u00e9 tudo verdade&#8221;, como no Festival de Cinema, embora, como diz Eduardo Coutinho, entre a hist\u00f3ria vivida e a hist\u00f3ria relatada h\u00e1 sempre uma relativa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8230;.<\/p>\n<p><em>Dixit.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo, o mores. 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