{"id":314,"date":"2015-02-22T12:08:27","date_gmt":"2015-02-22T15:08:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=314"},"modified":"2015-02-22T12:08:27","modified_gmt":"2015-02-22T15:08:27","slug":"jazz-precisao-e-improvisacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=314","title":{"rendered":"Jazz, precis\u00e3o e improvisa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-315 size-medium\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg?resize=300%2C300\" alt=\"whiplash (face)\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg?resize=300%2C300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/whiplash-face.jpg?w=650 650w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a> Roberto Gervits, que \u00e9 cineasta (dos bons), publicou no dia 21\/2, no Caderno 2 do Estad\u00e3o, uma cr\u00edtica a Whiplash, o filme de Damien Chazelle, que concorre ao Oscar por conta da interpreta\u00e7\u00e3o de J. K. Simmons do professor s\u00e1dico de uma academia de m\u00fasica, moldada na Julliard. Fletcher, o personagem de Simmons, obriga o jovem Andrew (Miles Teller), aluno de bateria, a esfor\u00e7os terr\u00edveis para disputar o lugar na orquestra que ele dirige.<br \/>\nGervitz parte para algumas interpreta\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o aluno e o professor que n\u00e3o vou nem discutir. O que me chamou aten\u00e7\u00e3o no artigo de Gervitz foi esse trecho:<\/p>\n<p><em>\u201cA m\u00fasica \u00e9 tida como a mais abstrata das artes e o jazz, o mais livre dos g\u00eaneros. Salta aos olhos a ignor\u00e2ncia musical de Chazelle, que escolheu o jazz para fazer a apologia da precis\u00e3o, pois \u00e9 justamente nesse g\u00eanero que o improviso \u00e9 considerado o momento m\u00e1ximo, escapando a qualquer partitura e limite. Falo do jazz moderno, que ganha for\u00e7a com Charlie Parker, tantas vezes citado no filme, como o m\u00fasico que caiu em si depois que lhe atiraram um prato na cabe\u00e7a (!!!).<\/em><\/p>\n<p><em>O conceito tecnocrata de perfei\u00e7\u00e3o confunde grande arte com virtuosismo, ignorando a grandeza da performance jazz\u00edstica em que os instrumentistas criam s\u00f3s e conjuntamente, desafiando o que \u00e9 certo e errado e entregando-se ao desconhecido.\u201d<\/em><\/p>\n<p>E vai por a\u00ed, criticando duramente a ideia de perfei\u00e7\u00e3o expressa por Fletcher no filme.<\/p>\n<p>Bom, n\u00e3o sou m\u00fasico, nem cineasta, nem te\u00f3rico de musicologia e muito menos de jazz. S\u00f3 gosto de ouvir. E de ver filmes. E fiquei muito impressionado com <em>Whiplash<\/em>.<\/p>\n<p>Evidentemente os \u201cm\u00e9todos pedag\u00f3gicos\u201d de Fletcher, que est\u00e3o no centro da estrutura dram\u00e1tica do filme, s\u00e3o altamente question\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas acho que Gervitz confundiu a criatividade fundamental do jazz com algo que lhe \u00e9 estranho: incompet\u00eancia t\u00e9cnica para estar \u00e0 altura das necessidades da execu\u00e7\u00e3o e da cria\u00e7\u00e3o. Confundir precis\u00e3o com criatividade n\u00e3o \u00e9 o caso ali. Lembremos sempre: a hist\u00f3ria acontece dentro de uma <strong>escola<\/strong>.<\/p>\n<p>Fazendo uma pequena digress\u00e3o pela literatura. A prolifera\u00e7\u00e3o de porcarias publicadas, autopublicadas e mesmo editadas por a\u00ed, parte da curiosa no\u00e7\u00e3o de que \u201cqualquer um\u201d pode escrever, \u201cfazer literatura\u201d. Pombas, se o escritor n\u00e3o domina as t\u00e9cnicas necess\u00e1rias para enfrentar o g\u00eanero no qual deseja se expressar, o fracasso \u2013 ou, no m\u00ednimo, a mediocridade \u2013 salta aos olhos de qualquer leitor com um m\u00ednimo de contato com a boa literatura. \u00c9 preciso muita t\u00e9cnica para passar impunemente da terceira para a primeira pessoa em uma narrativa, e transformar isso em uma express\u00e3o criadora. \u201cEscrita autom\u00e1tica\u201d \u2013 e que perdoem meus queridos surrealistas que andaram experimentando, e logo abandonaram essa coisa, pode gerar \u201cromances\u201d esp\u00edritas ou \u201cinspirados\u201d, cheios de boas inten\u00e7\u00f5es e totalmente vazios de qualidade liter\u00e1ria, prontos apenas para acalentar a alminha de seus leitores.<\/p>\n<p>Em resumo, \u201cfalar\u201d um idioma n\u00e3o qualifica ningu\u00e9m como criador de literatura no pr\u00f3prio. E soprar mal e porcamente um sax, ou batucar caixinha de f\u00f3sforo em mesa de bar n\u00e3o transforma ningu\u00e9m em m\u00fasico.<\/p>\n<p>Ora, <em>Whiplash<\/em> conta uma hist\u00f3ria que se passa em uma academia de alto n\u00edvel. Ali se est\u00e1 para aprender, entre outras coisas, as <strong>t\u00e9cnicas<\/strong> de cada instrumento. T\u00e9cnicas absolutamente necess\u00e1rias se o m\u00fasico quer improvisar, tocar com os outros. A se\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, ent\u00e3o, simplesmente n\u00e3o permite erros: se o cara perde o tempo, literalmente fode com o trabalho de todos os outros m\u00fasicos.<\/p>\n<p>Outra coisa que me pareceu estranha foi uma certa confus\u00e3o entre a liberdade de cria\u00e7\u00e3o &#8211; e os solos t\u00e3o caracter\u00edsticos do jazz \u2013 com uma certa experimenta\u00e7\u00e3o \u201csem regras\u201d. N\u00e3o me parece ser uma verdade absoluta. As \u201cjam sessions\u201d acontecem em dois contextos. O primeiro, o mais importante, \u00e9 precisamente o processo criativo da performance. Naquele momento os m\u00fasicos se jogam. Mas est\u00e3o sujeitos ao crivo dos colegas que aceitam ou n\u00e3o o que ele faz naquele momento para se integrar \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o no arranjo coletivo. Na hora da apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o arranjo j\u00e1 est\u00e1 bem consolidado. Pode at\u00e9 n\u00e3o estar em uma partitura, mas n\u00e3o \u00e9 a hora de sair do combinado. O segundo tipo de \u201cjam sessiom\u201d \u00e9 quando um conjunto se re\u00fane mais informalmente, \u00e0s vezes com outros m\u00fasicos e, desde que haja uma <strong>qualidade t\u00e9cnica<\/strong> parelha entre esses m\u00fasicos, e se diverte \u2013 e improvisa, sobre trechos conhecidos, standards ou temas daquele grupo, mas conhecidos por todos. S\u00f3 que desse segundo tipo de experi\u00eancia, que realmente pode ser extremamente gratificante, o resultado se esvanece no final da sess\u00e3o. A menos que algum dos integrantes depois use o material para o desenvolvimento da performance do grupo, de modo permanente. Alguns dizem que o verdadeiro jazz \u00e9 s\u00f3 esse. Eu n\u00e3o vejo uma contraposi\u00e7\u00e3o entre a experimenta\u00e7\u00e3o e a performance p\u00fablica de arranjos consolidados.<\/p>\n<p>Certamente, e isso \u00e9 essencial no jazz, existem os momentos de improvisa\u00e7\u00e3o, os solos. Mesmo esses seguem regras, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u201clivres\u201d como se quer pensar. Est\u00e3o dentro do tema e se desenvolvem dentro dos padr\u00f5es mel\u00f3dicos e harm\u00f4nicos desse. Mesmo as \u201ctransgress\u00f5es\u201d, como j\u00e1 ficou abundantemente provado s\u00e3o, na verdade, proje\u00e7\u00f5es harm\u00f4nicas bem constru\u00eddas dentro da estrutura original. Se n\u00e3o, vira simples cacofonia.<\/p>\n<p>Evidentemente existe evolu\u00e7\u00e3o dentro dos grupos. Quem j\u00e1 ouviu \u2013 para ficar tamb\u00e9m em um cl\u00e1ssico \u2013 v\u00e1rios arranjos desenvolvidos pelo Duke Ellington para qualquer uma de suas m\u00fasicas, percebe as mudan\u00e7as. Que acontecem tanto na estrutura dos arranjos quanto na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s diferentes forma\u00e7\u00f5es dos conjuntos ou de seus integrantes.<\/p>\n<p>Qual o diferencial que aparece na apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8211; seja l\u00e1 qual for o arranjo combinado &#8211; o modo de execut\u00e1-lo \u00e9 o que distingue grandes int\u00e9rpretes dos med\u00edocres. O ruim simplesmente erra o tempo, desafina, pula notas, deixa os demais m\u00fasicos pendurados ou correndo atr\u00e1s dele. O med\u00edocre pode tocar certinho, mas vai soprar um sax como um Charlie Parker, ou um Coleman Hawkins (para pegar um mais antigo, e t\u00e3o bom quanto)? Nem vem. Isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Os elementos r\u00edtmicos do conjunto de jazz s\u00e3o essenciais para manter a unidade do grupo, principalmente quando a execu\u00e7\u00e3o tem mudan\u00e7as de tempo. Sem o baterista e o contrabaixista, a coisa fica dif\u00edcil. Principalmente no caso do primeiro, a t\u00e9cnica \u2013 e o treinamento para manter constante a evolu\u00e7\u00e3o da estrutura r\u00edtmica \u2013 a receita desanda. Um membro do grupo de sopros pode at\u00e9 perder um tempo, ou pular uma nota, mas se o baterista erra, lascou-se. E nem sou l\u00e1 grande f\u00e3 desses solos \u00e0s vezes imensos que abrem para os bateristas. Para mim, o trabalho de base \u00e9 mais importante.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-316\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg?resize=300%2C300\" alt=\"willi winton norah\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg?resize=300%2C300 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/willi-winton-norah.jpg?w=460 460w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a> Enquanto escrevia essas mal-tra\u00e7adas \u2013 e talvez mal-informadas \u2013 linhas, ouvia um CD bem interessante: Wyinton Marsalis, Willie Nelson e Norah Jones em uma apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo em homenagem \u00e0 m\u00fasica do Ray Charles, gravada em 2011. Querem uma mistura mais heterog\u00eanea? \u00c9 dif\u00edcil achar: um m\u00fasico \u201ccountry\u201d com voz e guitarra caracter\u00edsticos, uma cantora mais pop e um trompetista da mais pura tradi\u00e7\u00e3o jazz\u00edstica, e seu conjunto. Depois dei uma \u201cgooglada\u201d para ler as cr\u00edticas. Em geral, muito elogiosas. Mas um dos cr\u00edticos reclamava exatamente dessa heterogeneidade. O cr\u00edtico do The Daily Telegraph disse: <em>\u201cperhaps a result of the one-off nature of the project making it hard for the musical personalities to fully gel\u201d<\/em>. Ou seja, o fato de ser uma experi\u00eancia \u00fanica torna dif\u00edcil para essas personalidades musicais se integrarem totalmente\u201d. E olhem que, com certeza, ensaiaram bastante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Gervits, que \u00e9 cineasta (dos bons), publicou no dia 21\/2, no Caderno 2 do Estad\u00e3o, uma cr\u00edtica a Whiplash, o filme de Damien Chazelle, que concorre ao Oscar por conta da interpreta\u00e7\u00e3o de J. K. 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