{"id":304,"date":"2015-01-24T16:09:53","date_gmt":"2015-01-24T19:09:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=304"},"modified":"2015-01-24T16:09:53","modified_gmt":"2015-01-24T19:09:53","slug":"o-alcorao-e-mais-embaixo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=304","title":{"rendered":"O ALCOR\u00c3O \u00c9 MAIS EMBAIXO"},"content":{"rendered":"<p>Bessa, na veia, atrav\u00e9s do fil\u00f3sofo franco-islamista Abdennour Bidar.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Capturar.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Capturar.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-305\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Capturar.jpg?resize=640%2C339\" alt=\"Capturar\" width=\"640\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Capturar.jpg?w=775 775w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Capturar.jpg?resize=300%2C159 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"TituloMateriaPrincipal\">MEU QUERIDO MU\u00c7ULMANO OU O ALCOR\u00c3O \u00c9 MAIS EMBAIXO<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">25\/01\/2015 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/abdennour.jpg?resize=300%2C232\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"232\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/>No domingo passado abordamos aqui o atentado ao jornal <i>Charlie Hebdo<\/i>, na Fran\u00e7a, o que provocou intensa discuss\u00e3o. Um amigo franc\u00eas me explicou que quem quiser entender essa hist\u00f3ria e a rela\u00e7\u00e3o do mundo mu\u00e7ulmano com o Ocidente, deve procurar ler o fil\u00f3sofo Abdennour Bidar, 44 anos, professor nas Grandes Escolas de Paris, que escreveu v\u00e1rios livros sobre filosofia da religi\u00e3o, entre os quais &#8220;<i>O Isl\u00e3 sem submiss\u00e3o<\/i>&#8221; que discute o existencialismo mu\u00e7ulmano e &#8220;<i>O Isl\u00e3 diante da morte de Deus&#8221;<\/i>, que reflete sobre a alternativa, para ele superada, entre a f\u00e9 em Deus e o ate\u00edsmo, onde destaca a necessidade de se inventar um novo sentido para a vida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os mu\u00e7ulmanos dizem que esse fil\u00f3sofo \u00e9 franc\u00eas. Franceses juram que ele \u00e9 estrangeiro por causa do nome Abdennour &#8211; que em \u00e1rabe significa <i>servidor da luz. <\/i>\u00a0Passou toda sua inf\u00e2ncia na Fran\u00e7a dividido entre os dois mundos: na sexta-feira era mu\u00e7ulmano e no s\u00e1bado convivia com seu av\u00f4 franc\u00eas, que era ateu e nunca mencionava o Isl\u00e3, conforme ele mesmo conta no seu livro &#8220;<i>Self Isl\u00e3, Hist\u00f3ria de um Isl\u00e3 pessoal&#8221;<\/i>. Publicou recentemente no jornal da Tunisia\u00a0<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.huffpostmaghreb.com\/abdennour-bidar\/lettre-ouverte-au-monde-m_1_b_6443610.html');\"  href=\"http:\/\/www.huffpostmaghreb.com\/abdennour-bidar\/lettre-ouverte-au-monde-m_1_b_6443610.html\" target=\"_blank\"><i>Huffington Post Maghreb<\/i><\/a> uma carta aberta dirigida aos mu\u00e7ulmanos, que me foi remetida pelo citado amigo franc\u00eas. N\u00e3o resisti. O prazer de ler o texto foi t\u00e3o grande que decidi traduzi-lo para compartilh\u00e1-lo aqui com os leitores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A vers\u00e3o impressa traz apenas trechos da carta que est\u00e1 sendo publicada integralmente no Di\u00e1rio On Line e neste site Taquiprati.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Querido mundo mu\u00e7ulmano,<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Sou um dos teus filhos desgarrados que te olha de fora e de longe &#8211; aqui deste pa\u00eds, a Fran\u00e7a, onde tantos dos teus filhos vivem atualmente. \u00a0Contemplo-te com meus olhos implac\u00e1veis de fil\u00f3sofo que se nutriu, desde a inf\u00e2ncia, do sufismo (ta\u00e7awwuf) e tamb\u00e9m da mentalidade ocidental. Daqui te observ<\/em><em>o, a partir da minha condi\u00e7\u00e3o de barzakh &#8211; uma esp\u00e9cie de istmo entre os dois mares do Oriente e do Ocidente.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>E o que \u00e9 que eu vejo? O que \u00e9 que posso ver melhor do que os outros, justamente por te olhar de longe, recuado, com distanciamento? Vejo-te reduzido a um estado de mis\u00e9ria e sofrimento, o que me faz infinitamente triste, tornando ainda mais implac\u00e1vel a minha avalia\u00e7\u00e3o de fil\u00f3sofo. E isto porque eu te vejo parindo um monstro que tem a pretens\u00e3o de se autonomear Estado Isl\u00e2mico, mas que outros preferem denominar de dem\u00f4nio: DAESH. \u00a0O pior, no entanto, \u00e9 que eu te vejo perdido &#8211; perdendo\u00a0 teu tempo e tua honorabilidade &#8211;\u00a0 ao n\u00e3o reconhecer que o monstro nasceu de tuas entranhas, de teus desnorteamentos, de tuas contradi\u00e7\u00f5es, do teu eterno descompasso entre o passado e o presente, de tua permanente incapacidade para encontrar um lugar na civiliza\u00e7\u00e3o humana.<\/em><\/div>\n<div><em>Como reages diante de semelhante monstro? Com um invari\u00e1vel discurso repetitivo, tu exclamas: &#8220;Esse a\u00ed n\u00e3o sou eu, isso n\u00e3o \u00e9 o Isl\u00e3&#8221;. Negas que os crimes desse monstro tenham sido cometidos em teu nome (hashtag#NotInMy Name). Ficas indignado ante tamanha desumanidade, te insurges contra a usurpa\u00e7\u00e3o de tua identidade pelo monstro e, certamente, tens raz\u00e3o de faz\u00ea-lo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u00c9 indispens\u00e1vel que requeiras diante do mundo inteiro, em alto e bom som, que o Isl\u00e3 denuncie a barb\u00e1rie. Mas isso \u00e9 ainda insuficiente. N\u00e3o basta se refugiar numa rea\u00e7\u00e3o de autodefesa sem assumir tamb\u00e9m, principalmente, o compromisso da autocr\u00edtica. Num momento hist\u00f3rico como esse, tu te limitas a te indignar e perdes a ocasi\u00e3o excepcionalmente prop\u00edcia para te questionar. E como sempre, tu acusas em vez de assumir tua pr\u00f3pria responsabilidade: &#8220;Parem, voc\u00eas ocidentais e todos aqueles que s\u00e3o inimigos do Isl\u00e3, de nos associar a esse monstro. O terrorismo n\u00e3o tem nada a ver com o Isl\u00e3, com o verdadeiro Isl\u00e3, o bom Isl\u00e3 n\u00e3o significa guerra, mas paz&#8221;.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Escuto e compreendo esse grito de revolta que aflora em ti, oh meu querido mundo mu\u00e7ulmano. Sim, tens raz\u00e3o. Como toda e qualquer revela\u00e7\u00e3o sagrada do mundo o Isl\u00e3 criou, ao longo de sua hist\u00f3ria, os ideais de Beleza, Justi\u00e7a, Consci\u00eancia, Bondade, e iluminou resplendosamente o ser humano no caminho dos mist\u00e9rios da exist\u00eancia&#8230; Aqui no Ocidente, eu advogo, em cada um dos meus livros, para que essa sabedoria do Isl\u00e3 e de todas as religi\u00f5es n\u00e3o seja esquecida e muito menos desprezada.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>No entanto, do lugar distante em que me encontro, vejo ainda outra coisa &#8211; que tu n\u00e3o sabes ou n\u00e3o queres ver. E isso me leva a pensar a quest\u00e3o que \u00e9 central: por que esse monstro roubou o teu rosto, porque esse monstro ign\u00f3bil foi escolher logo o teu rosto e n\u00e3o outro? Por que se apropriou da m\u00e1scara do Isl\u00e3 e n\u00e3o outra? \u00c9 porque, na realidade, por tr\u00e1s desta imagem do monstro se esconde um enorme problema, que tu n\u00e3o est\u00e1s disposto a encarar de frente. No entanto, \u00e9 preciso que tenhas coragem para isso.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Esse problema reside nas ra\u00edzes do mal. De onde vem os crimes do pretenso &#8220;Estado Isl\u00e2mico&#8221;? Vou te dizer, meu amigo. Isso n\u00e3o vai te agradar, mas \u00e9 meu dever de fil\u00f3sofo te advertir. As ra\u00edzes desse mal que deforma tua face est\u00e3o em ti mesmo, o monstro foi gerado no teu pr\u00f3prio ventre, o c\u00e2ncer reside em teu pr\u00f3prio corpo. E tuas entranhas doentias continuar\u00e3o a parir, no futuro, novos monstros piores ainda que esse aqui, enquanto durar tua recusa em encarar essa verdade de frente, enquanto persistir a tua demora em admitir e a atacar, enfim, o mal pela raiz.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/ab%20livre%201.jpg?resize=490%2C792\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"792\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Quando afirmo isso, at\u00e9 mesmo os intelectuais ocidentais tem dificuldade em aceitar: \u00e9 que a maioria deles j\u00e1 esqueceu qual \u00e9 o poder de uma religi\u00e3o &#8211; para o bem e para o mal, na vida e na morte &#8211; de tal forma que eles me contestam: &#8220;N\u00e3o, o problema do mundo mu\u00e7ulmano n\u00e3o \u00e9 o Isl\u00e3, nem a religi\u00e3o, mas a pol\u00edtica, a hist\u00f3ria, a economia, etc&#8221;. Vivem em sociedades t\u00e3o laicizadas que nem sequer lembram mais que a religi\u00e3o pode ser o cora\u00e7\u00e3o do motor de uma civiliza\u00e7\u00e3o humana. E que o futuro da humanidade depende n\u00e3o apenas de amanh\u00e3 solucionar a crise econ\u00f4mica e financeira, mas sobretudo, de forma muito mais profunda, de equacionar a crise espiritual sem precedentes que atormenta toda a humanidade. Ser\u00e1 que n\u00f3s saberemos nos juntar em escala planet\u00e1ria para enfrentar este desafio fundamental? A natureza espiritual da esp\u00e9cie humana tem horror ao vazio e se n\u00e3o encontra nada de novo para preench\u00ea-lo, ela o far\u00e1 amanh\u00e3 com religi\u00f5es cada vez mais desligadas do presente e da mesma forma que o Isl\u00e3 passar\u00e3o, ent\u00e3o, a produzir monstros.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Vejo em ti, oh mundo mu\u00e7ulmano, for\u00e7as imensur\u00e1veis prestes a se erguer para contribuir com o esfor\u00e7o mundial de inventar uma vida espiritual para o s\u00e9culo XXI. Encontro em ti, apesar da gravidade da tua doen\u00e7a, apesar da extens\u00e3o das trevas do obscurantismo na qual querem te submergir integralmente, uma multid\u00e3o extraordin\u00e1ria de mulheres e homens que est\u00e3o dispostos a reformar o Isl\u00e3, a reinventar sua natureza ultrapassando suas configura\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, para dessa forma participar da renova\u00e7\u00e3o completa da rela\u00e7\u00e3o que at\u00e9 ent\u00e3o a humanidade mantinha com os seus deuses! \u00c9 a todos esses, mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos que, juntos, sonham com uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual, a quem eu destino meus livros. Para lhes dar, com minhas palavras de fil\u00f3sofo, confian\u00e7a na conquista de suas esperan\u00e7as.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Encontramos na comunidade de mu\u00e7ulmanos &#8211; a Oumma &#8211; mulheres e homens evolu\u00eddos que carregam a vis\u00e3o do futuro espiritual do ser humano. Mas ainda n\u00e3o s\u00e3o bastante numerosos e suas vozes n\u00e3o s\u00e3o suficientemente fortes. Todos eles, cuja lucidez e coragem eu sa\u00fado, perceberam com clareza que \u00e9 o estado geral de doen\u00e7a enraizada do mundo mu\u00e7ulmano que explica o nascimento de monstros terroristas sob os nomes de AlQaida, Al Nostra, AQMI ou &#8220;Estado Isl\u00e2mico&#8221;. Eles compreenderam que n\u00e3o s\u00e3o esses os sintomas mais graves e mais vis\u00edveis de um enorme corpo enfermo, cujas doen\u00e7as cr\u00f4nicas s\u00e3o as seguintes:<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Impot\u00eancia para criar democracias dur\u00e1veis nas quais, ante os dogmas da religi\u00e3o, a liberdade de pensamento seja reconhecida como direito moral e pol\u00edtico;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Enclausuramento moral e social em uma religi\u00e3o dogm\u00e1tica, engessada, e \u00e0s vezes totalit\u00e1ria;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Dificuldades cr\u00f4nicas para melhorar a condi\u00e7\u00e3o da mulher em busca de igualdade, responsabilidade e liberdade;<\/em><\/div>\n<div><em>Incapacidade para separar de forma clara o poder pol\u00edtico do controle autorit\u00e1rio da religi\u00e3o;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Incompet\u00eancia para implantar o respeito, a toler\u00e2ncia e o reconhecimento verdadeiro diante da diversidade de cren\u00e7as e das minorias religiosas.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Ser\u00e1 que tudo isto \u00e9 culpa do Ocidente? Quanto tempo valioso, quantos anos cruciais tu vais continuar perdendo, oh querido mundo mu\u00e7ulmano, com tua acusa\u00e7\u00e3o tacanha na qual nem tu mesmo acreditas mais e atr\u00e1s da qual tu te escondes para continuar mentindo a ti mesmo? Se te critico com tanta aspereza, n\u00e3o \u00e9 porque sou um fil\u00f3sofo &#8220;ocidental&#8221;, mas porque sou um dos teus filhos com consci\u00eancia de tudo aquilo que perdeste da tua extinta grandeza, transcorrida h\u00e1 tanto tempo que acabou se tornando um mito. Esse \u00e9 o momento de te revelar que, a partir sobretudo do s\u00e9culo XVIII, tu foste incapaz de responder aos desafios do Ocidente.<\/em><\/div>\n<div><em><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/ab%20livre%202.jpg?resize=290%2C470\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"470\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Ou oito ou oitenta. Ou te refugiaste de forma imatura e letal no passado, retrocedendo ao wahhabismo\u00a0intolerante, obscurantista e ultraconservador, que continua a devastar quase tudo que existe dentro de tuas fronteiras &#8211; um wahhabismo que tu disseminas a partir dos teus lugares sagrados situados na Ar\u00e1bia Saudita, como um c\u00e2ncer que corr\u00f3i o teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o! Ou ent\u00e3o tu te espelhaste no que existe pior do Ocidente, estimulando, como ele o fez, os nacionalismos e um modernismo que n\u00e3o passa de uma caricatura da modernidade. Estou falando tanto do del\u00edrio de consumo desenfreado quanto desse desenvolvimento tecnol\u00f3gico incompat\u00edvel com a tradi\u00e7\u00e3o religiosa que faz das tuas &#8220;elites&#8221; podres de rica do Golfo apenas v\u00edtimas c\u00famplices dessa doen\u00e7a, agora mundial, que \u00e9 o culto ao deus dinheiro.<\/em><\/div>\n<div><em>O que \u00e9 que hoje tu tens de admir\u00e1vel, meu amigo? O que \u00e9 que existe em ti capaz de despertar o respeito e a admira\u00e7\u00e3o de outros povos e de outras civiliza\u00e7\u00f5es do planeta? Onde est\u00e3o os teus s\u00e1bios? Tens ainda sabedoria para oferecer ao mundo? Em qual lugar encontramos teus grandes homens? Quem s\u00e3o os teus Mandela, os teus Gandhi, os teus Aung San Suu Kyi?<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Onde encontramos teus not\u00e1veis pensadores e teus intelectuais, cujos livros deviam ser lidos no mundo inteiro, como nos tempos dos matem\u00e1ticos e dos fil\u00f3sofos \u00e1rabes ou persas que eram refer\u00eancia numa \u00e1rea que ia da \u00cdndia at\u00e9 a Espanha? Na realidade, por tr\u00e1s dessa certeza que sempre exibes a respeito de ti mesmo, te tornaste t\u00e3o fraco e t\u00e3o impotente, que j\u00e1 n\u00e3o sabes mais quem \u00e9s e nem para onde queres ir, o que te deixa tamb\u00e9m infeliz e agressivo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Tu teimas em n\u00e3o escutar aqueles que te convidam a mudar querendo, enfim, te libertar da domina\u00e7\u00e3o que outorgaste \u00e0 religi\u00e3o durante a vida inteira. Optaste por acatar Mohammed como profeta e rei. Escolheste definir o Isl\u00e3 como religi\u00e3o pol\u00edtica, social, moral, reinando de forma tir\u00e2nica sobre o Estado e at\u00e9 sobre a vida civil, invadindo as ruas e os lares e penetrando profundamente at\u00e9 mesmo em cada consci\u00eancia. Decidiste acreditar no dogma de que o Isl\u00e3 significa submiss\u00e3o, quando o pr\u00f3prio Alcor\u00e3o decreta que &#8220;na religi\u00e3o n\u00e3o existe opress\u00e3o&#8221; (La ikraha fi D\u00een). Fizeste deste apelo \u00e0 liberdade o imp\u00e9rio do despotismo. Como uma civiliza\u00e7\u00e3o pode trair a esse ponto seu pr\u00f3prio texto sagrado?Chegou a hora de a civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica instaurar essa liberdade espiritual &#8211; a mais sublime e a mais dif\u00edcil de todas &#8211; no lugar de todas as leis inventadas por gera\u00e7\u00f5es de te\u00f3logos.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>In\u00fameras vozes que tu n\u00e3o queres escutar ressoam hoje na Oumma e se rebelam contra esse esc\u00e2ndalo, denunciando o tabu de uma religi\u00e3o autorit\u00e1ria e dogm\u00e1tica, que s\u00f3 beneficia seus chefes interessados em perpetuar indefinidamente sua domina\u00e7\u00e3o. A ponto de muitos fi\u00e9is internalizarem uma cultura de submiss\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e aos &#8220;mestres da religi\u00e3o&#8221; (imams, muftis, shouyoukhs, etc) e por isso sequer compreendem quando lhes falamos de liberdade espiritual e n\u00e3o admitem que ousemos expressar escolhas pessoais diantes dos &#8220;pilares&#8221; do Isl\u00e3.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Para eles, tudo isso constitui uma &#8220;linha vermelha&#8221;, algo t\u00e3o sagrado que n\u00e3o tem coragem de admitir o direito de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia de questionar e criticar. Em muitas fam\u00edlias e em muitas sociedades mu\u00e7ulmanas se confunde espiritualidade e subservi\u00eancia, o que est\u00e1 naturalizado em suas consci\u00eancias desde a mais tenra idade. L\u00e1, a pobreza da educa\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 tal que tudo aquilo que se refere direta ou indiretamente \u00e0 religi\u00e3o continua sendo algo sobre o qual jamais se discute.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/ab%20livre%203.jpg?resize=252%2C361\" alt=\"\" width=\"252\" height=\"361\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Ora, isso, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 imposto pelo terrorismo de alguns loucos ou por esquadr\u00f5es de fan\u00e1ticos recrutados pelo Estado Isl\u00e2mico. N\u00e3o. Esse problema \u00e9 infinitamente mais profundo e infinitamente mais complexo. Mas quem percebe isso e est\u00e1 disposto a falar? Quem quer escutar? Sil\u00eancio sobre o assunto no mundo mu\u00e7ulmano. J\u00e1 as m\u00eddias ocidentais abrigam uma legi\u00e3o de especialistas do terrorismo que diariamente contribuem para agravar a miopia geral.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>N\u00e3o te ilude, meu querido mu\u00e7ulmano, acreditando e espalhando a cren\u00e7a de que quando o terrorismo isl\u00e2mico for derrotado, o Isl\u00e3 ter\u00e1 resolvido seus problemas. \u00a0Pois tudo o que acabo de evocar aqui &#8211; uma religi\u00e3o tir\u00e2nica, dogm\u00e1tica, formalista, machista, conservadora, retr\u00f3grada, que l\u00ea a B\u00edblia ao p\u00e9 da letra &#8211; \u00e9 muitas vezes, nem sempre, mas quase sempre, o Isl\u00e3 habitual, o Isl\u00e3 cotidiano, que sofre e faz sofrer muitas consci\u00eancias, o Isl\u00e3 arcaico e do passado, o Isl\u00e3 deformado por todos aqueles que o usam politicamente, o Isl\u00e3 que no final, ainda e sempre, acaba sufocando as primaveras \u00e1rabes e a voz de todos esses jovens que clamam por mudan\u00e7as.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Quando vais, afinal, fazer a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, meu querido mu\u00e7ulmano? Essa revolu\u00e7\u00e3o que nas sociedades e nas consci\u00eancias ir\u00e1 sintonizar definitivamente religi\u00e3o com liberdade, uma revolu\u00e7\u00e3o sem retorno que reconhecer\u00e1 a religi\u00e3o como um fato social \u00e0 semelhan\u00e7a de tantos outros no mundo e cujos privil\u00e9gios exorbitantes n\u00e3o gozam mais de qualquer legitimidade.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u00c9 evidente que em teu imenso territ\u00f3rio encontramos pequenas ilhas de liberdade espiritual: fam\u00edlias que transmitem um Isl\u00e3 de toler\u00e2ncia, de op\u00e7\u00e3o pessoal, de aprofundamento espiritual; espa\u00e7os sociais onde a cadeia da pris\u00e3o religiosa est\u00e1 aberta ou semi-aberta; lugares onde o Isl\u00e3 ainda proporciona o melhor de si mesmo, isto \u00e9, uma cultura da partilha, da dignidade, da busca do saber, e uma espiritualidade \u00e0 procura do territ\u00f3rio \u00a0sagrado onde se reencontram o ser humano e essa subst\u00e2ncia \u00faltima que chamamos All\u00e2h.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Vivem na Terra do Isl\u00e3 e em todas as comunidades mu\u00e7ulmanas do mundo seres fortes e livres, mas que continuam condenados a viver sua liberdade sem garantia, sem reconhecimento de seus direitos essenciais, correndo riscos e perigos diante do forte controle social e mais especificamente do policiamento religioso. Jamais, em qualquer momento, o direito de dizer &#8220;eu escolhi o meu Isl\u00e3&#8221;, ou &#8220;eu tenho minha rela\u00e7\u00e3o pessoal com o Isl\u00e3&#8221; foi reconhecido pelo &#8220;Isl\u00e3 oficial&#8221; dos dignat\u00e1rios. Esses \u00faltimos, ao contr\u00e1rio, se apressam em prescrever por decreto que &#8220;a doutrina do Isl\u00e3 \u00e9 uma s\u00f3&#8221; e que &#8220;a obedi\u00eancia aos fundamentos do Isl\u00e3 \u00e9 o \u00fanico caminho correto&#8221; (sir\u00e2tou-l-moustaq\u00eem).<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Tal recusa ao direito \u00e0 liberdade diante da religi\u00e3o \u00e9 uma das ra\u00edzes do mal que tu sofres, oh meu caro mundo mu\u00e7ulmano, um dos ventres obscuros onde crescem os monstros que alimentaste nos \u00faltimos anos, sob o olhar aterrorizado do mundo. Essa religi\u00e3o inflex\u00edvel imp\u00f5e a sociedades inteiras uma viol\u00eancia insuport\u00e1vel. Ela encarcera muitas de tuas filhas e de teus filhos na masmorra de um Bem e de um Mal, de um l\u00edcito (hal\u00e2l) e de um il\u00edcito (har\u00e2m) sobre o qual ningu\u00e9m tem direito de opinar, mas ao qual todos se submetem. \u00a0Ela aprisiona vontades, condiciona mentes, impede ou frustra qualquer escolha pessoal de vida. Nos muitos dom\u00ednios sob tua jurisdi\u00e7\u00e3o, tu associas ainda religi\u00e3o com viol\u00eancia &#8211; contra mulheres, contra &#8220;infi\u00e9is&#8221;, contra minorias crist\u00e3s ou qualquer outra, contra pensadores e esp\u00edritos livres, contra rebeldes, de tal maneira que a religi\u00e3o associada \u00e0 viol\u00eancia acaba confundindo os mais desequilibrados e os mais fr\u00e1geis de teus filhos na monstruosidade do jihad.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Portanto, n\u00e3o te espantes, n\u00e3o finge que foste surpreendido &#8211; eu te pe\u00e7o &#8211; quando dem\u00f4nios como o pretenso Estado Isl\u00e2mico roubam a tua identidade, uma vez que monstros e dem\u00f4nio s\u00f3 roubam rostos j\u00e1 deformados por caretas. <\/em><\/div>\n<div><em>E se queres saber como n\u00e3o parir mais tais monstros, eu vou te dizer: \u00e9 bastante simples e muito dif\u00edcil ao mesmo tempo. \u00c9 preciso que comeces a reformar toda a educa\u00e7\u00e3o que d\u00e1s \u00e0s tuas crian\u00e7as, que reformes tuas escolas e todo o sistema educativo, al\u00e9m de cada um dos lugares do saber e do poder. Que tais reformas sejam direcionadas segundo os princ\u00edpios universais (embora n\u00e3o sejas o \u00fanico a transgred\u00ed-los ou a persistir na ignor\u00e2ncia): a liberdade de pensamento, a democracia, a toler\u00e2ncia, o direito de express\u00e3o para todas as diversas vis\u00f5es do mundo, para todas as cren\u00e7as, a igualdade dos sexos e a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres de toda tutela masculina, a reflex\u00e3o e a cultura cr\u00edtica do religioso nas universidades, na literatura e na m\u00eddia. Tu n\u00e3o podes mais recuar, n\u00e3o podes mais fazer por menos. N\u00e3o podes mais deixar de fazer uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual absolutamente completa. Essa \u00e9 a \u00fanica forma que tens para impedir a gera\u00e7\u00e3o de monstros e se tu hesitares, logo ser\u00e1s devorado por seu poder de destrui\u00e7\u00e3o. Quando concluires essa tarefa colossal &#8211; em lugar de te refugiares na m\u00e1 f\u00e9 e na cegueira volunt\u00e1ria, a\u00ed ent\u00e3o nenhum monstro abjeto poder\u00e1 te roubar a face.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Querido mundo mu\u00e7ulmano, sou apenas um fil\u00f3sofo e para variar alguns dir\u00e3o que todo fil\u00f3sofo \u00e9 herege. No entanto, a \u00fanica coisa que busco \u00e9 contribuir para restaurar de novo o resplendor das luzes &#8211; o nome com que me batizaste \u00e9 que me autoriza a faz\u00ea-lo, Abdennour, &#8220;Servidor da Luz&#8221;. \u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Eu n\u00e3o seria t\u00e3o implac\u00e1vel aqui nessa carta se eu n\u00e3o acreditasse em ti. Como diz o prov\u00e9rbio franc\u00eas: &#8220;quem ama muito, corrige muito&#8221;. Por outro lado, todos aqueles que passam a m\u00e3o na tua cabe\u00e7a &#8211; que encontram sempre desculpas para te justificar, que querem fazer de ti um coitadinho, ou que n\u00e3o identificam tua responsabilidade nos acontecimentos &#8211; todos eles, em realidade, n\u00e3o est\u00e3o te prestando qualquer ajuda. Acredito em ti, creio na tua contribui\u00e7\u00e3o para fazer do nosso Planeta um universo ao mesmo tempo mais humano e mais espiritualizado. Sal\u00e2m. Que a paz esteja contigo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>P.S. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 R. Bessa Freire<\/div>\n<div>Agrade\u00e7o a indica\u00e7\u00e3o do texto a Andr\u00e9 Cauty, ex-professor de matem\u00e1tica no Sahara Argelino e professor de epistemologia e hist\u00f3ria das ci\u00eancias na Universidade de Bordeaux; a Anne Marie Milon Oliveira, professora da UERJ e a meus amigos luteranos do COMIN, especialmente a Hans Trein, agrade\u00e7o a interlocu\u00e7\u00e3o e a troca de figurinhas.<\/div>\n<p><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bessa, na veia, atrav\u00e9s do fil\u00f3sofo franco-islamista Abdennour Bidar. &nbsp; MEU QUERIDO MU\u00c7ULMANO OU O ALCOR\u00c3O \u00c9 MAIS EMBAIXO Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire 25\/01\/2015 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas &nbsp; No domingo passado abordamos aqui o atentado ao jornal Charlie Hebdo, &hellip; <a href=\"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=304\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[133],"tags":[154,156,155],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4Lc9A-4U","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/304"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=304"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/304\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":307,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/304\/revisions\/307"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}