{"id":298,"date":"2015-01-17T17:55:05","date_gmt":"2015-01-17T20:55:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=298"},"modified":"2015-01-17T17:55:05","modified_gmt":"2015-01-17T20:55:05","slug":"charlie-o-debate-continua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=298","title":{"rendered":"CHARLIE \u2013 O DEBATE CONTINUA"},"content":{"rendered":"<p>O rep\u00fadio un\u00e2nime que se expressou contra o assassinato de jornalistas do <em>Charlie Hebdo<\/em> n\u00e3o impede que a controv\u00e9rsia sobre as posi\u00e7\u00f5es do jornal continue fervendo.<\/p>\n<p>A hipocrisia que re\u00fane Netanyhau, Abbas, Merkel, ditadores africanos e presidentes eleitos na grande manifesta\u00e7\u00e3o de domingo n\u00e3o pode deixar de ser notada. E, certamente, a apropria\u00e7\u00e3o, pela extrema direita europeia, dos acontecimentos n\u00e3o pode ser deixada de lado.<\/p>\n<p>Essa apropria\u00e7\u00e3o \u00e9, certamente, o lado mais tr\u00e1gico disso tudo. Marine Le Pen, seu <em>papa<\/em> e consortes espalhados pelo continente est\u00e3o mais raivosos que nunca, agitando contra a imigra\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a de mu\u00e7ulmanos na Europa. Convenientemente esquecidos que a maioria deles veio para fazer os trabalhos que os europeus n\u00e3o queriam mais quando estavam em pleno boom econ\u00f4mico. E que esses imigrantes s\u00e3o, em sua grande maioria, provenientes de pa\u00edses que sofreram os males da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, a posi\u00e7\u00e3o do <em>Charlie Hebdo<\/em> repousa em uma tradi\u00e7\u00e3o francesa que, ela mesma est\u00e1 amea\u00e7ada. A iconoclastia \u00e9 um componente important\u00edssimo da cultura francesa, e se expressa no exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o. Legisla\u00e7\u00e3o mais recente tenta por limites a isso. E a auto-censura do \u201cpoliticamente correto\u201d n\u00e3o \u00e9 um fator desprez\u00edvel.<\/p>\n<p>Abaixo, links para artigos v\u00e1rios que debatem aspectos desses problemas:<\/p>\n<p>ALIAN\u00c7A INTERNACIONAL DE EDITORES INDEPENDENTES APOIA O CHARLIE HEBDO. <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/publishingperspectives.com\/2015\/01\/international-alliance-independent-publishers-charlie-hebdo\/');\"  href=\"http:\/\/publishingperspectives.com\/2015\/01\/international-alliance-independent-publishers-charlie-hebdo\/\" target=\"_blank\">Aqui <\/a>e <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.alliance-editeurs.org\/IMG\/pdf\/le_monde_des_idees_blesse_the_world_of_ideas_is_wounded.pdf');\"  href=\"http:\/\/www.alliance-editeurs.org\/IMG\/pdf\/le_monde_des_idees_blesse_the_world_of_ideas_is_wounded.pdf\" target=\"_blank\">Aqui<\/a>.<\/p>\n<p>NA FEIRA DE LIVROS DE DOHA, ESCRITORES E EDITORES DEBATEM O \u201cJE SUIS CHARLIE\u201d. <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/publishingperspectives.com\/2015\/01\/considering-alternate-views-je-suis-charlie\/');\"  href=\"http:\/\/publishingperspectives.com\/2015\/01\/considering-alternate-views-je-suis-charlie\/\" target=\"_blank\">Aqui<\/a>.<\/p>\n<p>E, para lembrar dois casos antigos, o NY Times publicou hoje, dia 14 de janeiro, o obitu\u00e1rio de Al Bendich, que foi advogado de defesa de dois casos important\u00edssimos relacionados com a liberdade de express\u00e3o nos EUA. O Julgamento de Ferlinghetti por haver publicado o poema <em>Howl<\/em>, de Allen Ginsberg, e o de Leny Bruce, um comediante de San Francisco acusado de dizer obscenidades no espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Os dois julgamentos s\u00e3o considerados como marcos na defesa dos direitos civis nos EUA, e em particular do direito de liberdade de express\u00e3o. <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.nytimes.com\/2015\/01\/14\/us\/al-bendich-defender-of-howl-and-lenny-bruces-comedy-is-dead-at-85.html?emc=edit_th_20150114&amp;nl=todaysheadlines&amp;nlid=34745874&amp;_r=0%20');\"  href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2015\/01\/14\/us\/al-bendich-defender-of-howl-and-lenny-bruces-comedy-is-dead-at-85.html?emc=edit_th_20150114&amp;nl=todaysheadlines&amp;nlid=34745874&amp;_r=0%20\" target=\"_blank\">Aqui<\/a>.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/alias.estadao.com.br\/noticias\/geral,os-testiculos-de-sine,1621046');\"  href=\"http:\/\/alias.estadao.com.br\/noticias\/geral,os-testiculos-de-sine,1621046\" target=\"_blank\">S\u00e9rgio Augusto<\/a>, no Portal do Estad\u00e3o na tarde de s\u00e1bado (deve sair na edi\u00e7\u00e3o impressa de domingo), conta o epis\u00f3dio do cartonista e humorista Sin\u00e9, que brigou com o Charlie Hebdo.<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/sine.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/sine.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-299 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/sine.jpg?resize=563%2C531\" alt=\"sine\" width=\"563\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/sine.jpg?w=563 563w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/sine.jpg?resize=300%2C283 300w\" sizes=\"(max-width: 563px) 100vw, 563px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p>E meu amigo Jos\u00e9 Bessa, que morou v\u00e1rios anos em Paris, produz mais um artigo \u00f3timo no seu <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1125');\"  href=\"http:\/\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1125\" target=\"_blank\">TaquiPrati<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"TituloMateriaPrincipal\">E CHARLIE \u00c9 O QU\u00ca, AFINAL?<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<\/div>\n<div class=\"TituloTopo\">18\/01\/2015 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/charlie%202.jpg?resize=400%2C261\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"261\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Depois do assassinato de jornalistas do<i>Charlie Hebdo<\/i>, uma guerra discursiva explodiu na m\u00eddia e nas redes sociais com disparos de palavras que felizmente n\u00e3o matam um prato de feij\u00e3o, s\u00f3 trucidam, \u00e0s vezes, a sintaxe e a raz\u00e3o. De um lado, o ex\u00e9rcito &#8220;Eu-sou-Charlie&#8221; e, de outro, &#8220;Eu n\u00e3o-sou-Charlie&#8221;, ambos comandados por insignes &#8220;generais&#8221;.<\/div>\n<div>Nesta guerra incruenta, a quest\u00e3o central, no entanto, n\u00e3o \u00e9 <i>to be or not to be<\/i>, mas o que cada lado entende por Charlie. <i>That is the question.<\/i> A pergunta que o psicanalista Contardo Calligaris fez em sua coluna na Folha de SP \u00e9 pertinente:<\/div>\n<div>&#8211; Sou Charlie. E Charlie \u00e9 o qu\u00ea?<\/div>\n<div>Charlie Hebdo \u00e9 um jornal com charges &#8220;<i>perigosas, criminosas e de p\u00e9ssimo gosto<\/i>&#8220;, responde a mil\u00edcia anticharlista, comandada pelo te\u00f3logo Leonardo Boff, que postou artigo &#8220;<i>Je ne suis pas Charlie&#8221;<\/i>, de autoria do jornalista Rafo Saldanha, mas atribu\u00eddo inicialmente ao pr\u00f3prio Boff e depois ao padre Antonio Piber e cujo conte\u00fado foi de qualquer forma comentado e referendado pelos tr\u00eas.<\/div>\n<div>Leitor ass\u00edduo e entusiasmado que fui por muitos anos do <i>Charlie Hebdo,<\/i> me autonomeio correspondente de guerra para enviar not\u00edcias do <i>front <\/i>de batalha e cobrir os ataques feitos pelos dois ex\u00e9rcitos.<\/div>\n<div>A sant\u00edssima trindade Boff-Piber-Saldanha, respons\u00e1vel pela difus\u00e3o do citado artigo, embora criminalize as charges, lamenta o atentado que &#8220;<i>poderia ter sido evitado&#8221;, <\/i>se logo &#8220;<i>no primeiro excesso&#8221; <\/i>a justi\u00e7a francesa tivesse punido o jornal. &#8220;<i>Mas isso \u00e9 censura, algu\u00e9m argumentar\u00e1. E eu direi, sim, \u00e9 censura&#8221;, <\/i>confirma o trio justificando que &#8220;<i>nem toda censura \u00e9 ruim<\/i>&#8220;.<\/div>\n<div>Existe, portanto, a possibilidade de termos um <i>Index Librorum Prohibitorum<\/i> do bem &#8211; segundo a avalia\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 nele figurou. Essa no\u00e7\u00e3o de &#8220;<i>censura boa&#8221; <\/i>capaz de proteger vidas acabou dando muni\u00e7\u00e3o aos atiradores de ral\u00e9 situados nas trincheiras dos blogs e do facebook, que atacaram com rajadas de adjetivos desqualificativos o <em>Charliezorum Hebdomadorum.<\/em><\/div>\n<div><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Humor crist\u00e3o<\/span><\/b><\/div>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/charlie-hebdo-et-moi-yerim-909-body-image-1421090518.jpeg?resize=300%2C381\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"381\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Um sargento da tropa anticharlista, Jonathan Nemer, que se apresenta como &#8220;<i>humorista crist\u00e3o<\/i>&#8221; &#8211; seja l\u00e1 que diabo isso signifique &#8211; critica os desenhos da revista &#8220;<i>que ridicularizam a f\u00e9 de diversas religi\u00f5es, incluindo o cristianismo<\/i>&#8220;. Alguns soldados rasos apoiados na declara\u00e7\u00e3o do Papa Francisco &#8211; <i>&#8220;se xingar minha m\u00e3e, espere um soco<\/i>&#8221; &#8211; denominaram as charges de &#8220;<i>provoca\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel<\/i>&#8221; e de &#8220;<i>grave incompet\u00eancia&#8221;<\/i> dos cartunistas que &#8220;<i>fizeram por merecer&#8221;. <\/i>Acusaram Charlie de &#8220;<i>islam\u00f3fobo especializado em blasf\u00eamias&#8221;<\/i>.<\/div>\n<div>Esses &#8211; digamos assim &#8211; argumentos, foram desmontados por Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, Contardo Calligaris, Greg\u00f3rio Duvivier e Miguel do Ros\u00e1rio entre outros.<\/div>\n<div>Para Ver\u00edssimo, a alega\u00e7\u00e3o de que &#8220;<i>os cartunistas foram longe demais \u00e9 o mesmo racioc\u00ednio de quem diz que mulher estuprada estava pedindo<\/i>&#8220;. Ele define &#8220;blasf\u00eamia&#8221; como uma afronta ao sagrado. &#8220;<i>Assim, a verdadeira discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre o que as pessoas consideram blasf\u00eamia, mas sobre o que consideram sagrado. Quem n\u00e3o cr\u00ea em nenhum deus n\u00e3o pode, por defini\u00e7\u00e3o, ser um blasfemo<\/i>&#8220;.<\/div>\n<div>O mesmo tipo de armamento foi usado por Contardo Calligaris (Por que eu sou Charlie?) para rejeitar a acusa\u00e7\u00e3o de islamofobia, ele prefere a classifica\u00e7\u00e3o de cretinofobia.<\/div>\n<div>&#8211; &#8220;Charlie Hebdo \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o cretinof\u00f3bica, porque acha cretino qualquer um que adira a uma cren\u00e7a sem a capacidade de rir dela e de si mesmo enquanto crente. Por isso seria exato dizer que para Charlie Hebdo nada \u00e9 sagrado. Nada \u00e9 sagrado para todos, SALVO o princ\u00edpio de que nada deve ser sagrado para todos. O que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa&#8221;.<\/div>\n<div>Para Greg\u00f3rio Duvivier, o que define o humor \u00e9 justamente a brincadeira com o sagrado. J\u00e1 que tudo \u00e9 sagrado para algu\u00e9m no mundo &#8211; a maconha, a vaca, a santa de madeira, o Daime, Jesus e Maom\u00e9 &#8211; tudo merece respeito e falta de respeito.<\/div>\n<div>Portanto, <i>&#8220;os chargistas que mesmo amea\u00e7ados n\u00e3o baixaram o tom, n\u00e3o devem ser tratados como pivetes malcriados que fizeram por merecer, mas como artistas brilhantes que morreram pela nossa liberdade. Nosso dever \u00e9 continuar lutando por ela, sem fazer concess\u00f5es nem perder aquele ingrediente essencial: a falta de respeito pelo \u00f3dio<\/i>&#8220;.<\/div>\n<div><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/les-dessinateurs-bearnais-rendent-hommage-aux-victimes-de-ch_1080626_490x490p.jpeg?resize=248%2C267\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"267\" align=\"left\" data-recalc-dims=\"1\" \/>\u00c9 isso. O seman\u00e1rio <i>Charlie Hebdo <\/i>\u00e9 um pequeno jornal alternativo franc\u00eas que, no melhor esp\u00edrito an\u00e1rquico e irreverente de maio de 1968, sempre sacaneou o poder e as institui\u00e7\u00f5es que tem or\u00e7amento e hierarquia: estado, igrejas, m\u00eddia, bancos, academias, partidos pol\u00edticos, for\u00e7as armadas, pol\u00edcia. Nem eles pr\u00f3prios escapam, riem de si mesmos. Wolinski declarou que depois de morto e incinerado, queria que suas cinzas fossem jogadas na privada de sua casa para que ele, de um lugar privilegiado, pudesse contemplar o fiof\u00f3 da amada.<\/div>\n<div><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Humor corrosivo<\/span><\/b><\/div>\n<div>Pornogr\u00e1fico, desabusado e cr\u00edtico, libert\u00e1rio e libertino, seu humor \u00e1cido e corrosivo, seu esp\u00edrito sat\u00edrico e gozador, seu atrevimento, sua insol\u00eancia e agressividade, algumas vezes &#8211; confesso &#8211; me escandalizaram. Lembro de uma capa em que aparece Marine Le Pen, deputada racista de\u00a0extrema-direita, de quatro, sendo enrabada. Na outra, se jura que todo racista tem pinto pequeno. Tive de esconder de minha m\u00e3e o exemplar que exibia na capa foto da gruta de Lourdes, na qual um soldado uniformizado debochava da Virgem Maria, que estaria menstruada. Passou dos limites?<\/div>\n<div>&#8211; Existe limite para o humor? &#8211; pergunta Duvivier, que imediatamente d\u00e1 a resposta:<\/div>\n<div><i>&#8220;O limite est\u00e1 no objeto do riso. Rir de quem est\u00e1 por baixo \u00e9 covarde, rir de quem est\u00e1 por cima \u00e9 corajoso. Deve-se rir do opressor, e n\u00e3o do oprimido&#8221;.<\/i><\/div>\n<div>Num belo artigo em que justifica &#8220;porque sou Charlie&#8221;, Miguel do Ros\u00e1rio nos informa que <i>&#8220;as artes francesas sempre se notabilizaram pelo esc\u00e2ndalo, pelos excessos, pelo enfrentamento atrevido a toda forma de autoridade, no Estado, na Igreja, nas conven\u00e7\u00f5es sociais&#8221;. <\/i>No entanto, os\u00a0<i>&#8220;leigos&#8221; <\/i>em cultura francesa classificam de <i>xenofobia <\/i>e<i> islamofobia, <\/i>as charges porque elas s\u00e3o agressivas<i>. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 verdade <\/i>&#8211; escreve Miguel &#8211;\u00a0<i>os desenhos de Charlie s\u00e3o herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica francesa voltada para a escatologia, o excesso, o esc\u00e2ndalo&#8221;<\/i>.<\/div>\n<div>Ele cita trechos de Rabelais, mas podia ampliar a longa lista<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taquiprati.com.br\/images\/Charlie%20Hebdo%20racistes%20petites%20bites(1).jpg?resize=300%2C379\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"379\" align=\"right\" data-recalc-dims=\"1\" \/> com Voltaire, Marat, Sade e tantos outros, al\u00e9m da forte tradi\u00e7\u00e3o anticlerical. Lembra ainda que na Fran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 crime blasfemar, zombar das religi\u00f5es e de seus s\u00edmbolos. Os excessos punidos por lei s\u00e3o a difama\u00e7\u00e3o contra pessoas, o racismo, o antissemitismo, a incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia ou ao \u00f3dio, o que levou algumas vezes o pr\u00f3prio Charlie Hebdo a ser condenado pelos tribunais. O &#8220;normal&#8221; \u00e9 quem se sentir ofendido recorrer ao tribunal e n\u00e3o ao soco, \u00e0s bombas ou \u00e0 censura.<\/div>\n<div>Portanto, quando algu\u00e9m afirma &#8220;eu sou Charlie&#8221; n\u00e3o est\u00e1 necessariamente assinando embaixo de todas as charges. Est\u00e1 se solidarizando com jornalistas assassinados, est\u00e1 defendendo a liberdade de express\u00e3o em qualquer parte do mundo.<\/div>\n<div>Charlie s\u00e3o os dois mil mortos nos \u00faltimos dias na Nig\u00e9ria em atentados terroristas cometidos por extremistas. Charlie \u00e9 Amarildo morto pela pol\u00edcia carioca. Charlie s\u00e3o os milhares de membros da minoria tamil massacrados no Sri Lanka, os mu\u00e7ulmanas trucidados pelo Emirado Isl\u00e2mico, os negros eliminados pela pol\u00edcia dos Estados Unidos, os presos de Guant\u00e1namo, os palestinos, os judeus, os povos ind\u00edgenas violentados pela invas\u00e3o de suas terras, com seus l\u00edderes assassinados.<\/div>\n<p>Embora algumas charges do Charlie Hebdo tenham me escandalizado, n\u00e3o gostaria de viver numa sociedade em que elas fossem proibidas. Por isso, eu j\u00e1 fui Boff, quando ele, censurado e perseguido pelo Vaticano, constava no <i>Index<\/i>. Hoje, chu\u00ed Charlie.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rep\u00fadio un\u00e2nime que se expressou contra o assassinato de jornalistas do Charlie Hebdo n\u00e3o impede que a controv\u00e9rsia sobre as posi\u00e7\u00f5es do jornal continue fervendo. 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