{"id":287,"date":"2015-01-07T19:14:49","date_gmt":"2015-01-07T22:14:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=287"},"modified":"2015-01-07T19:14:49","modified_gmt":"2015-01-07T22:14:49","slug":"quase-notas-etnograficas-de-uma-internacao-hospital","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=287","title":{"rendered":"QUASE NOTAS ETNOGR\u00c1FICAS DE UMA INTERNA\u00c7\u00c3O HOSPITAL"},"content":{"rendered":"<p>Em outubro do ano passado fiz uma angioplastia para tirar uma obstru\u00e7\u00e3o em uma art\u00e9ria. Isso que fazem agora antes que se tenha um infarto. No Incor. Hospital de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo bem. S\u00f3 que depois comecei a sentir uma dorm\u00eancia e umas fisgadas no local da pun\u00e7\u00e3o. O cl\u00ednico manda fazer uma ultrassonografia, dizendo que, como existem enerva\u00e7\u00e3o por perto da art\u00e9ria femural, pode haver uma irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico do ultrassom termina e diz que estou \u201ccom um probleminha\u201d que deve ser tratado imediatamente. \u00c9 um tal de pseudo aneurisma na art\u00e9ria femural, certamente intercorr\u00eancia da angioplastia.<\/p>\n<p>E me manda ir logo para o PS do Incor, com o exame e uma carta.<\/p>\n<p>Ainda chego no PS esperan\u00e7oso de que algum remedinho resolva o assunto.<\/p>\n<p>Ledo engano.<\/p>\n<p>De ontem para hoje, vou anotando essas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Hospital.<\/b><\/p>\n<p>A primeira coisa, \u00f3bvia, \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 com algum problema o suficientemente s\u00e9rio para exigir uma hospitaliza\u00e7\u00e3o. Mas, cum grano salis&#8230; Aparentemente h\u00e1 meses estou com o que definiram como pseudo-aneurisma na art\u00e9ria femural, aparentemente intercorr\u00eancia comum em quem faz uma angioplastia. Andava, fazia exerc\u00edcios, fazia amor, dirigia, bebia e fumava. Tudo normal. Ok, sei que aneurismas podem se romper subitamente. Mas voc\u00ea est\u00e1 no hospital, onde qualquer emerg\u00eancia \u00e9 tratada na hora, e fica proibido de levantar para mijar. Cagar, ent\u00e3o, s\u00f3 na \u201ccomadre\u201d.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que a coisa pega. Ao ser internado, deixa-se de ser uma pessoa. Passa-se a ser um \u201cpaciente\u201d. E paciente, no caso, significa ser tratado como objeto. A pessoa \u00e9 manipulada, obedece ordens arbitr\u00e1rias, \u00e9 picado por agulhas, prendem sensores pelo corpo. Em uma enfermaria, o barulho \u00e9 incessante, enlouquecedor. Os bipebipe das traquitanas, que n\u00e3o param nunca, a reclama\u00e7\u00e3o de outros impacientes pacientes, tudo contribui para a despersonaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As traquitanas de \u201cmonitorar\u201d os pacientes s\u00e3o outra merda. Em tese, ligam um bando de eletrodos no peito para ver como o cora\u00e7\u00e3o anda. S\u00f3 que a porcaria apita por qualquer coisa insond\u00e1vel. A enfermeira diz que observa desde a mesa do posto. Bem, se monitora de l\u00e1, porque a porcaria fica apitando de c\u00e1? E quando apita forte, em tese sinalizando algum problema, aparece a enfermeira, aberta algum bot\u00e3o e o bipebipe para. Sem explica\u00e7\u00f5es. Uma das faixas aparece sem movimento. Como n\u00e3o estou morto, \u00e9 \u00f3bvio que algum contato n\u00e3o funciona. A enfermeira chega, confere os eletrodos e comenta que \u201ctalvez os pelos do peito estejam atrapalhando o contato\u201d. E n\u00e3o faz nada, claro. Cinco muitos depois o alarme, completa, total e irremediavelmente in\u00fatil dispara de novo. O Ponte Preta estava errado. N\u00e3o \u00e9 a televis\u00e3o a m\u00e1quina de fazer doidos, a verdadeira m\u00e1quina de fazer doidos \u00e9 o tal monitor de hospital, que faz coro com todos ou outros na enfermaria. Tecnologia \u00e9 isso a\u00ed, Dr. House&#8230;<\/p>\n<p>Depois de muita bipebipagem, a enfermeira decide fazer uma tricotomia para o eletrodo fixar melhor. No velho estilo de barbeador descart\u00e1vel, pois o barbeador el\u00e9trico est\u00e1 sem l\u00e2mina. Coisa alkimista&#8230;.<\/p>\n<p>Com a prolifera\u00e7\u00e3o dos celulares, as conversas dos outros, em voz alta, revelam intimidades, medos, preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passa a m\u00e9dica cl\u00ednica. Reclamo do monitoramento in\u00fatil e o bom senso prevalece e ela manda me desligar. Ufa! Banheiro liberado.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica avisa: quem vai decidir o que fazer \u00e9 o \u201cvascular\u201d. Ou seja, algum m\u00e9dico da equipe de cirurgia vascular.<\/p>\n<p>No meio da tarde chega o \u201cvascular\u201d. Pergunto pela demora e ele diz que s\u00f3 fora avisado horas antes. Quando informo que estou aqui desde a v\u00e9spera, balan\u00e7a a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 meu xar\u00e1. Examina, pergunta e me diz que ir\u00e1 conversar com o chefe. Pe\u00e7o-lhe o favor de n\u00e3o me deixar mais um dia esperando.<\/p>\n<p>Ele volta logo, e me diz que optaram pela tentativa de solucionar o problema de forma n\u00e3o invasiva. Far\u00e1 uma bandagem de press\u00e3o sobre o tal pseudo aneurisma para ver se resolve. S\u00f3 que tenho que ficar com a perna sem mexer (adeus banheiro) at\u00e9 sexta-feira.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o funcionar? Podemos tentar uma inje\u00e7\u00e3o de coagulante ou, no limite, d\u00e1-se um corte \u00e9 um ponto no furo do pseudo aneurisma.<\/p>\n<p>Resultado: fico aqui pelo menos at\u00e9 sexta, qui\u00e7\u00e1 mais.<\/p>\n<p>V\u00e3o me transferir para um quarto? Claro. S\u00f3 que para hoje n\u00e3o tem vaga em quarto.<\/p>\n<p>Bem, como estou tomando um monte de anticoagulantes por conta da angioplastia, tenho minhas d\u00favidas de que essa bandagem funcione. Veremos.<\/p>\n<p>Acho que nem Dante imaginou uma merda dessas. E criada para seu \u201cbem\u201d.<\/p>\n<p>Acho que sobreviverei ao bem e ao mal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro do ano passado fiz uma angioplastia para tirar uma obstru\u00e7\u00e3o em uma art\u00e9ria. Isso que fazem agora antes que se tenha um infarto. No Incor. Hospital de refer\u00eancia. Tudo bem. 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