{"id":255,"date":"2014-12-14T23:30:59","date_gmt":"2014-12-15T02:30:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=255"},"modified":"2014-12-14T23:30:59","modified_gmt":"2014-12-15T02:30:59","slug":"os-generais-em-seus-labirintos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=255","title":{"rendered":"OS GENERAIS EM SEUS LABIRINTOS"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_256\" style=\"width: 392px\" class=\"wp-caption alignright\"><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/27_picasso2.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/27_picasso2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-256\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-256\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/27_picasso2.jpg?resize=382%2C281\" alt=\"Labirintos s\u00e3o habitados por monstros indesejados.\" width=\"382\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/27_picasso2.jpg?w=382 382w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/27_picasso2.jpg?resize=300%2C220 300w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-256\" class=\"wp-caption-text\">Labirintos s\u00e3o habitados por monstros indesejados.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cParece que el dem\u00f3nio dirige las cosas de mi vida\u201d<\/em><br \/>\nCarta de Bol\u00edvar a Santander, ep\u00edgrafe do romance \u201cEl General en su laberinto\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<p>No romance de Garc\u00eda M\u00e1rquez, um Bol\u00edvar \u00e0 beira da morte rumina o que fez e deixou de fazer, afogado entre suas ilus\u00f5es e seus arrependimentos, orgulho aguilhoado por ter sido for\u00e7ado a renunciar \u00e0 presid\u00eancia da Gran Colombia, e testemunhando o esfacelamento de seu sonho \u2013 libert\u00e1rio e profundamente autorit\u00e1rio ao mesmo tempo \u2013 de uma Am\u00e9rica hisp\u00e2nica unificada, e se perde em seu labirinto.<\/p>\n<p>Os generais brasileiros que participaram do golpe de 1964 e fizeram parte do aparelho repressivo tamb\u00e9m est\u00e3o perdidos nos seus.<\/p>\n<p>S\u00f3 que s\u00e3o bem diferentes dos labirintos de Bol\u00edvar, que se lamentava do fracasso de seu sonho da \u201cP\u00e1tria Grande\u201d. Os labirintos dos generais brasileiros s\u00e3o muito mais sombrios, marcados pela viol\u00eancia, pela manipula\u00e7\u00e3o dos fatos e a tentativa de neg\u00e1-los, tachando-os de \u201cparciais\u201d.<\/p>\n<p>Com a divulga\u00e7\u00e3o do Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, os gorilas de ontem tentam comprometer seus colegas de hoje no longo processo de mentiras, deforma\u00e7\u00f5es e oculta\u00e7\u00f5es que constru\u00edram desde 1954, que resultou no golpe do dia da mentira de 1964 e que, infelizmente, ainda n\u00e3o acabou totalmente. Um labirinto no qual o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade quer fazer o papel de fio de Ariadne para que dele possamos finalmente sair.<\/p>\n<div id=\"attachment_257\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-257\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-257\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg?resize=300%2C200\" alt=\"O Minotauro - pesadelo que assombra generais com medo de serem devorados.\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg?resize=448%2C300 448w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/minotauro-600x401.jpg?resize=600%2C401 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-257\" class=\"wp-caption-text\">O Minotauro &#8211; pesadelo que assombra generais com medo de serem devorados.<\/p><\/div>\n<p>Tal como o Bol\u00edvar do romance, os generais brasileiros n\u00e3o querem sair do labirinto. Bol\u00edvar lamenta os sonhos perdidos. Os milicos brasileiros gostam da escurid\u00e3o e dos recovecos onde foram escondendo cad\u00e1veres, paus de arara, m\u00e1quinas de choque, repress\u00e3o aos movimentos sindicais e populares; viol\u00eancia contra ind\u00edgenas; viol\u00eancias contra a intelig\u00eancia, com a censura, a pris\u00e3o e o ex\u00edlio de artistas, escritores e intelectuais. Labirinto com claraboias que produziam as miragens fant\u00e1sticas do Brasil Grande, que incluiu desde o afogamento de fronteiras para construir Itaipu at\u00e9 o envio de tropas para invadir a Rep\u00fablica Dominicana, na \u00fanica a\u00e7\u00e3o em que soldados brasileiros atuaram como mercen\u00e1rios de uma pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p>Como est\u00e3o perdidos no labirinto e detestam as luzes, os generais dinossauros manipulam mitos.<\/p>\n<p>Qualquer manual de Hist\u00f3ria do Brasil mostra, para os que sabem ler criticamente, como se constroem mitos e se falsifica a hist\u00f3ria. O mito do \u201cPacificador\u201d, por exemplo. Para os militares, o Duque de Caxias, patrono do ex\u00e9rcito, aparece como \u201cPacificador\u201d, por propor anistia aos l\u00edderes das revoltas que esmagou militarmente. Em vez de pacificar, as a\u00e7\u00f5es do Caxias constru\u00edram as bases desse \u201cjeitinho\u201d que tenta sempre resolver \u201cpor cima\u201d as diverg\u00eancias entre as fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes. Sempre e quando as revoltas tiveram ra\u00edzes realmente populares, n\u00e3o houve nenhuma \u201cPacifica\u00e7\u00e3o\u201d. A Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana de 1817 e a Cabanagem s\u00e3o exemplos m\u00e1ximos, ainda no s\u00e9culo XIX, de que a repress\u00e3o aos movimentos populares sempre foi implac\u00e1vel e nada \u201cpacificadora\u201d. O exemplo se repetir\u00e1 entre 1964 e 1985.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A balela da \u201cunidade\u201d das For\u00e7as Armadas, outro mito, convenientemente esquece as sucessivas revoltas militares que existiram a partir de divis\u00f5es presentes <strong>dentro do corpo militar<\/strong>. 1891, 1893, 1922, 1924, 1930, 1932, 1945 foram <strong>tamb\u00e9m<\/strong> express\u00e3o de <strong>divis\u00f5es<\/strong> que cortaram transversalmente o ex\u00e9rcito e a marinha. E 1964 resultou na pris\u00e3o, reforma, expuls\u00e3o, pris\u00f5es e torturas que afetaram mais de 7.000 oficiais, suboficiais e pra\u00e7as das armas. Bela unidade!<\/p>\n<p>Agora o labirinto dos generais lhes provoca um caso s\u00e9rio de amn\u00e9sia seletiva. Querem dizer que o relat\u00f3rio \u00e9 \u201cunilateral\u201d, que n\u00e3o contou a \u201chist\u00f3ria do outro lado\u201d.<\/p>\n<p>Ora, pombas! A vers\u00e3o dos militares <strong>ainda \u00e9<\/strong> a \u201cHist\u00f3ria Oficial\u201d, na qual a ruptura institucional de 1964 \u00e9 apresentada como \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds. A partir dessa vers\u00e3o, todos os que se opuseram ao golpe eram comunistas traidores, inimigos da p\u00e1tria, bandidos assassinos e outros tantos adjetivos.<\/p>\n<p>Na \u201cHist\u00f3ria Oficial\u201d os enfrentamentos tornam as v\u00edtimas militares e policiais em her\u00f3is, e todos os mortos e desaparecidos em traidores e bandidos. Isso sem falar dos que morrem nas \u201ctentativas de fuga\u201d ou se \u201csuicidam\u201d nas masmorras.<\/p>\n<p>A \u201cHist\u00f3ria Oficial\u201d foi documentada, divulgada e inculcada de modo incessante nos anos da ditadura civil-militar.<\/p>\n<p>Nada foi ocultado das a\u00e7\u00f5es, inclusive os erros, dos que lutaram contra a ditadura, nos mais diferentes n\u00edveis.<\/p>\n<p>E, os que foram presos, foram processados, julgados e condenados pela Lei de Seguran\u00e7a Militar e pelos demais instrumentos \u201clegalizados\u201d pela ditadura. E tudo isso \u00e9 p\u00fablico.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 oculto?<\/p>\n<p>O que oculto estava \u2013 e ainda continua oculto em parte \u2013 foram as a\u00e7\u00f5es dos agentes do Estado. E \u00e9 isso que o Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade faz esfor\u00e7o para desvelar, consolidando como documento de Estado, as barbaridades cometidas de modo inclusive extralegal at\u00e9 mesmo para a legisla\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Essa tentativa de qualificar como \u201cparcial\u201d e \u201cunilateral\u201d o Relat\u00f3rio da CNV \u00e9 simplesmente mais uma tentativa de deixar que a antiga \u201cHist\u00f3ria Oficial\u201d continue prevalecendo. Os generais n\u00e3o apenas est\u00e3o perdidos em seus labirintos, como querem que todos os brasileiros permane\u00e7am com eles na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao que parece (como n\u00e3o tenho intimidades com militares, s\u00f3 sei disse por ouvir falar), as gera\u00e7\u00f5es mais novas n\u00e3o compartilham da monomania dos velhos gorilas. Para os oficiais mais jovens, o que vale ressaltar s\u00e3o coisas como o Correio A\u00e9reo Nacional, a participa\u00e7\u00e3o nas Miss\u00f5es de Paz da ONU, que come\u00e7am no Suez, em 1957, t\u00eam grande import\u00e2ncia na \u00c1frica (Guin\u00e9, Angola, Mo\u00e7ambique \u2013 que contaram inclusive com unidades m\u00e9dicas \u2013, Ruanda\/Uganda), na Am\u00e9rica Central \u2013 na desmobiliza\u00e7\u00e3o dos \u201ccontras\u201d \u2013, com observadores na Iugosl\u00e1via, na fronteira \u00cdndia e Paquist\u00e3o, na media\u00e7\u00e3o do conflito Peru-Equador, na remo\u00e7\u00e3o de minas terrestres na Am\u00e9rica Central, na entrega de prisioneiros das FARC ao governo colombiano e a Miss\u00e3o no Haiti, que se desdobra no apoio \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do pobre pa\u00eds depois do terremoto. Est\u00e3o interessados nas a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o das fronteiras, combate ao tr\u00e1fico de drogas e contrabando, particularmente na Amaz\u00f4nia. A Marinha quer ter meios para patrulhar melhor o mar territorial e contribuir para o desenvolvimento de solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas para o uso da energia nuclear e a Aeron\u00e1utica receber\u00e1 os equipamentos para vigil\u00e2ncia e controle do espa\u00e7o a\u00e9reo, fundamental tamb\u00e9m para a avia\u00e7\u00e3o comercial, pra a vigil\u00e2ncia das fronteiras e repress\u00e3o ao contrabando.<\/p>\n<p>Esses militares n\u00e3o querem ser c\u00famplices dessa choldra de gorilas, pandilha decr\u00e9pita que ainda quer assustar arreganhando os dentes podres.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho conhecimento, mas seria muito importante que houvesse uma profunda reformula\u00e7\u00e3o nos curr\u00edculos de forma\u00e7\u00e3o de oficiais e de treinamento das tropas, na busca de vacin\u00e1-los contra as sereias que circulam por a\u00ed.<\/p>\n<p>Sempre h\u00e1 muito que fazer para aperfei\u00e7oar nossa democracia.<\/p>\n<p>Como disse o Del Roio, em recente entrevista no Estad\u00e3o comentando o relat\u00f3rio da CNV, tamb\u00e9m gostaria de viver em um pa\u00eds em que n\u00e3o fosse necess\u00e1rio nem for\u00e7as armadas nem dentistas, mas j\u00e1 que isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pelo menos que as primeiras n\u00e3o se enredem em conspira\u00e7\u00f5es e purguem seu passado, e os segundos usem bem os anest\u00e9sicos.<\/p>\n<p>Eu sou anistiado. Combati contra a ditadura com os meios que me pareceram mais adequados na \u00e9poca. Fui preso, torturado, julgado e condenado pela LSN. Por isso, depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o, fui anistiado.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o da milit\u00e2ncia nenhum diploma de coragem e hero\u00edsmo. Fiz o que minha consci\u00eancia me mandou fazer na \u00e9poca, e disso n\u00e3o me arrependo. Considero que dei minha contribui\u00e7\u00e3o para que o pa\u00eds retomasse o caminho da democracia. Democracia imperfeita e contradit\u00f3ria, na minha opini\u00e3o. Mas dentro da qual se pode avan\u00e7ar sem que o aparelho de Estado esteja ativamente comprometido na repress\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es, pol\u00eamicas e debates.<\/p>\n<p>Eu sou anistiado. Se torturadores e seus mandantes querem ser anistiados, o primeiro passo \u00e9 que seus atos saiam \u00e0 luz e que eles sejam tamb\u00e9m julgados. Pelas leis vigentes e dentro do processo legal que permite o contradit\u00f3rio, e exige provas que n\u00e3o sejam as \u201cobtidas\u201d na tortura. Depois, podem at\u00e9 ser beneficiados por uma anistia.<\/p>\n<p>O exemplo da \u00c1frica do Sul talvez seja o mais construtivo. Para se beneficiar da anistia, os agentes da repress\u00e3o e os defensores do apartheid tiveram, primeiro, que reconhecer o que fizeram. Sem isso, sem papo.<\/p>\n<p>\u00c9 o m\u00ednimo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cParece que el dem\u00f3nio dirige las cosas de mi vida\u201d Carta de Bol\u00edvar a Santander, ep\u00edgrafe do romance \u201cEl General en su laberinto\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. 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