{"id":220,"date":"2014-10-26T22:52:47","date_gmt":"2014-10-27T01:52:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=220"},"modified":"2014-10-26T22:53:14","modified_gmt":"2014-10-27T01:53:14","slug":"indios-e-o-tratamento-deles-na-campanha-desafios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.zagaia.blog.br\/?p=220","title":{"rendered":"INDIOS, MEIO-AMBIENTE E CULTURA E O TRATAMENTO DELES NA CAMPANHA: DESAFIOS"},"content":{"rendered":"<p>Meu amigo Bessa, que marinou no primeiro turno, publicou antes da elei\u00e7\u00e3o mais uma de suas colunas nas quais o dito latino \u00e9 aplicado com justi\u00e7a e precis\u00e3o:<em> ridendo castigat mores.<\/em><\/p>\n<p>E, antes de transcrever a coluna, alguns primeir\u00edssimos coment\u00e1rios meus depois de votar, roer as unhas na apura\u00e7\u00e3o e comemorar, com amigos, a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Algumas pautas foram ignoradas ou maltratadas na campanha. Meio-ambiente, \u00edndios e cultura.<\/p>\n<p>S\u00e3o assuntos que, se n\u00e3o forem tratados com seriedade no pr\u00f3ximo governo, podem trazer consequ\u00eancias ruins para a administra\u00e7\u00e3o Dilma, para o PT e, principalmente para o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nem vou me deter muito aqui nos dois primeiros temas, que o Bessa trata com mais compet\u00eancia que eu, e que minha filha Galiana, ecologista militante, fica de olho para que eu n\u00e3o escorregue no assunto.<\/p>\n<p>Mas aproveito duas palavrinhas sobre a quest\u00e3o da cultura.<\/p>\n<p>A primeira observa\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre o uso e abuso de artistas (e &#8220;famosos&#8221; em geral, como jogadores de futebol e outras personalidades) nas campanhas. At\u00e9 entendo que isso tenha seu efeito na atra\u00e7\u00e3o de determinados segmentos de eleitores. At\u00e9 a\u00ed, tudo bem.<\/p>\n<p>Mas fico preocupado, e triste, quando se outorga a essas personalidades uma import\u00e2ncia digamos, conceitual, na quest\u00e3o cultural. E, principalmente, quando se tenta ligar esses personagens a determinadas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Acho que todos podem se manifestar como cidad\u00e3os, e se as pessoas ganham certa notortiedade por conta de suas profiss\u00f5es, tudo ok.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se pode misturar as esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quinta-feira fui assistir a um fant\u00e1stico espet\u00e1culo do Trio Corrente com Paquito D&#8217;Rivera, o m\u00fasico cubano. Ora, o Paquito \u00e9 ferozmente anti-castrista. Disse, em entrevista, que seu colega Chucho Valdez &#8211; que, com ele e Arturo Sandoval constitu\u00edam o lend\u00e1rio Trio Irakere &#8211; n\u00e3o tinha culh\u00f5es para ser contra Fidel. Paquito e Sandoval j\u00e1 sa\u00edram de Cuba faz tempo. Chucho, ali\u00e1s, vive na Espanha, mas n\u00e3o rompeu com o regime.<\/p>\n<p>E, para mim, duas coisas s\u00e3o claras: todos s\u00e3o m\u00fasicos geniais e curto o trabalho deles pelo que fazem, n\u00e3o pelas atitudes pol\u00edticas que tomam. E recuso &#8211; como alguns cuban\u00f3filos &#8211; a qualificar Paquito e Sandoval de &#8220;gusanos&#8221; e acus\u00e1-los de n\u00e3o serem patri\u00f3ticos. Nada disso. Como cidad\u00e3os, podem expressar suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sem que isso afete o que penso ou deixo de pensar da m\u00fasica deles.<\/p>\n<p>O mesmo posso dizer de alguns casos brasileiros. Por exemplo, considero o Chico Buarque um grande compositor em sua fase inicial. Acho que \u00e9 um romancista med\u00edocre e supervalorizado.\u00a0E n\u00e3o mudo minhas opini\u00e3o sobre sua obra pelo fato dele ter apoiado a mesma candidata que apoiei e fiz campanha nessas elei\u00e7\u00f5es, a vitoriosa Dilma Roussef.<\/p>\n<p>Votei nos candidatos do PT nessas elei\u00e7\u00f5es apesar de s\u00e9rias restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edtica cultural dos dois governos do Lula, e de problemas que considero n\u00e3o resolvidos neste primeiro mandato da Dilma. Escreverei mais adiante com mais vagas sobre o assunto. Mas, com todas minhas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edtica cultura, votei no Lula e na Dilma por conta da posi\u00e7\u00e3o que mostram, na pr\u00e1tica, sobre as grandes quest\u00f5es sociais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Votei porque n\u00e3o voto simplesmente pelos meus interesses. Voto pelo que considero melhor para o pa\u00eds, sempre cr\u00edtico e militante.<\/p>\n<p>E, sem mais delongas, \u00e0 cr\u00f4nica do Bessa. (Bab\u00e1, desculpe pelos meus pitacos pr\u00e9vios).<\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/downloads\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg');\"  href=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-26\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=640%2C113\" alt=\"Taquiprati\" width=\"640\" height=\"113\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?w=779 779w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=300%2C53 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.zagaia.blog.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Taquiprati.jpg?resize=500%2C88 500w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n<p><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1111');\"  href=\"http:\/\/www.taquiprati.com.br\/cronica.php?ident=1111\" target=\"_blank\">A M\u00c3E DE PEZ\u00c3O, DILM\u00c9CIO E OS \u00cdNDIOS<\/a><br \/>\nJos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<br \/>\n26\/10\/2014 &#8211; Di\u00e1rio do Amazonas<\/p>\n<p>Depois do \u00faltimo debate chocho, pergunto sem querer xingar: ser\u00e1 que A\u00e9cio tem m\u00e3e? E Dilma tem m\u00e3e? Eles t\u00eam m\u00e3e? Viva, quero dizer. Sei l\u00e1! S\u00f3 sei que quem tem m\u00e3e vivinha da silva \u00e9 o Pez\u00e3o, governador do Rio (PMDB vixe!) que quer se reeleger, tanto que apoia os dois candidatos a presidente. N\u00e3o emprestou, por\u00e9m, a nenhum dos dois sua m\u00e3e, capaz de decidir a elei\u00e7\u00e3o. Dona Ercy de Souza, 84 anos, mulher simples do interior, curso prim\u00e1rio incompleto, vestida modestamente, foi a estrela da propaganda eleitoral na tv e no r\u00e1dio. Falou sobre os valores com os quais criou o filho:<\/p>\n<p>&#8220;Humilde, humildade, sempre pisar no ch\u00e3o. Humildade \u00e9 tudo na vida, sempre falo para ele. Nunca deixar nada subir \u00e0 cabe\u00e7a porque tudo passa. Voc\u00ea tem que ser sempre o que voc\u00ea \u00e9. Meu filho, cuida das pessoas como eu cuidei de ti&#8221;.<\/p>\n<p>Este depoimento, repetido \u00e0 exaust\u00e3o no hor\u00e1rio eleitoral, me deixa arrepiadinho (passa a m\u00e3o no meu bra\u00e7o, leitora, espia s\u00f3 os cabelinhos todos em p\u00e9). Com voz mansa, boca ligeiramente torta e o chiado do sul fluminense &#8211; humildche, humildadche &#8211; ela nos traz uma verdade para esse mundo de mentira. Eu sei, eu sei, a ingenuidade n\u00e3o \u00e9 boa conselheira, a marquetagem \u00e9 sempre falsa, mas o depoimento \u00e9 uma coisa, o uso dele \u00e9 outra. A marquetagem v\u00ea em mam\u00e3e Pezona uma m\u00e1quina de votos; para n\u00f3s, ela tem outra dimens\u00e3o, \u00e9 m\u00e3e de verdade, como a da gente: fofinha, luminosa, s\u00e1bia. Linda!<\/p>\n<p>No primeiro turno, convencido e entusiasmado, votei em Tarcisio (PSOL) para governador. Agora, sem op\u00e7\u00e3o, ia anular, mas dona Ercy me convenceu a votar nela &#8211; humildche. Quem saiu de um \u00fatero desse calibre n\u00e3o pode ser cem por cento efed\u00eap\u00ea, ainda mais enfrentando o trio da sujeira &#8211; Crivela (vixe), Garotinho (vixe) e Lindinho (vixe). \u00c9 mais f\u00e1cil fazer oposi\u00e7\u00e3o a um vixe do que a tr\u00eas vixe-vixe-vixe. Crivella, al\u00e9m disso, amea\u00e7a os povos do terreiro e Lindinho \u00e9 declaradamente contra os \u00edndios.<\/p>\n<p>Remembrancer<\/p>\n<p>&#8211; Porra, Bab\u00e1, n\u00e3o enche o saco, n\u00e3o faz ponte, o que \u00e9 que a m\u00e3e do Big Foot tem a ver com os \u00edndios? &#8211; pergunta Chach\u00e1, uma amiga desbocada de Manaus que n\u00e3o gosta da tem\u00e1tica ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, menina, concordo, quem escreve ou d\u00e1 aulas deve puxar e n\u00e3o encher o saco dos outros. No semestre passado, caminhava eu pelo corredor da universidade e ouvi sem querer a conversa de duas alunas \u00e0 minha frente. Uma delas perguntou com quem a outra teria aula.<\/p>\n<p>&#8211; Com aquele chato monotem\u00e1tico que s\u00f3 fala de \u00edndio, \u00edndio, \u00edndio.<\/p>\n<p>O chato era eu. Quando me viu, empalideceu com receio de repres\u00e1lia, improv\u00e1vel ali\u00e1s, pois ela tem raz\u00e3o. Sou professor h\u00e1 meio s\u00e9culo, j\u00e1 ministrei disciplinas que at\u00e9 o capiroto duvida. Daria aula de qu\u00edmica inorg\u00e2nica se pudesse acrescentar um t\u00f3pico: &#8220;a classifica\u00e7\u00e3o Guarani do f\u00f3sforo, cloro e oxig\u00eanio&#8221;. Ministraria a disciplina Estruturas no Curso de Engenharia se o professor dela, Gilberto Moraes, me orientasse e se a ementa contemplasse &#8220;a vis\u00e3o dos Tuyuka sobre os orif\u00edcios retangulares em vigas de concreto armado na constru\u00e7\u00e3o das modernas malocas&#8221;.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira \u00e9 treinada &#8211; eu diria adestrada e amestrada &#8211; para apagar os \u00edndios do seu horizonte e invisibiliz\u00e1-los. Quem anda na contram\u00e3o \u00e9, portanto, um chato, mas esse talvez seja nosso destino, como diz Peter Burke em &#8220;O mundo como Teatro: estudos de antropologia hist\u00f3rica&#8221;. Historiadores s\u00e3o guardi\u00e3es de fatos inc\u00f4modos, de esqueletos no arm\u00e1rio da mem\u00f3ria social, como aquele funcion\u00e1rio na Inglaterra denominado de remembrancer (recordador), na verdade um coletor de impostos, cujo trabalho consistia em recordar \u00e0s pessoas aquilo que elas gostariam de esquecer.<br \/>\nNum poema em que define o perfil do historiador, Carlos Drummond diz que ele &#8220;veio para contar o que n\u00e3o faz jus a ser glorificado&#8221;, por isso &#8220;\u00e9 importuno, sabe-se importuno e insiste, rancoroso, fiel&#8221;. Rancoroso n\u00e3o no sentido de vingativo, mas com conota\u00e7\u00e3o positiva de ferido, ofendido, dolorido.<\/p>\n<p>O erro de Churchill<\/p>\n<p>Quando insisto na import\u00e2ncia das culturas e l\u00ednguas ind\u00edgenas para o pa\u00eds, tema ausente at\u00e9 nas perguntas dos indecisos no debate desta sexta, h\u00e1 quem fique incomodado. Mas a quest\u00e3o ind\u00edgena e a ambiental n\u00e3o foram contempladas nesta campanha. Levantamento realizado pela Folha de SP mostra que apenas 12% do espa\u00e7o dos programas no hor\u00e1rio eleitoral discutiram propostas, nenhuma delas sobre \u00edndios. Podiam substituir um minutinho dos xingamentos para falar ao Brasil sobre a situa\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 aqui h\u00e1 mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, parece que finalmente n\u00e3o cometeram o erro de Churchill na Segunda Guerra Mundial. Vicente Reis, colunista do Jornal do Comm\u00e9rcio de Manaus, assinava na \u00e9poca artigos inflamados com conselhos aos generais americanos e ingleses. Um dia ousou escrever: \u201cSe Winston Churchill, primeiro ministro brit\u00e2nico, tivesse seguido as minhas recomenda\u00e7\u00f5es da semana passada, Londres n\u00e3o teria sido bombardeada pelos alem\u00e3es\u201d.<\/p>\n<p>Bem feito! Quem manda o Churchill n\u00e3o ler, na \u00e9poca, o jornal de maior tiragem de Manaus! Dilma e A\u00e9cio n\u00e3o cometeram tal erro. Na \u00faltima hora, embora ausente da propaganda eleitoral, os \u00edndios mereceram duas postagens nas redes sociais. Uma de A\u00e9cio propondo a &#8220;amplia\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo com as comunidades ind\u00edgenas para criar uma agenda de prioridades&#8221;. Ou seja, algo t\u00e3o gen\u00e9rico formulado por quem n\u00e3o tem o que dizer e quer enrolar, dando pequena satisfa\u00e7\u00e3o aos eleitores de Marina.<\/p>\n<p>A outra postagem foi uma Carta aos Povos Ind\u00edgenas do Brasil, de Dilma, garantindo pelo menos que &#8220;nada em nossa Constitui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 alterado com rela\u00e7\u00e3o aos direitos dos povos ind\u00edgenas&#8221;. Vamos cobrar. No entanto, ela justifica o engavetamento dos processos de demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas em seu governo por se tratar de &#8220;desafios na esfera jur\u00eddica&#8221;. Sabemos que se trata de uma quest\u00e3o pol\u00edtica. A tal &#8220;base aliada&#8221; engessa Dilma, que repete na sua Carta o que a senadora K\u00e1tia Abreu, para quem ela pediu votos, proclama: \u00edndio n\u00e3o precisa de terra, mas de assist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Amigos argumentam que n\u00e3o posso colocar os direitos dos \u00edndios acima dos interesses do Brasil. No pesco\u00e7o franc\u00eas, gaivota! Quando se fala em interesse nacional excluindo os \u00edndios \u00e9 porque tem interesses privados escusos por baixo dos panos. Esse papo a gente ouve desde Thom\u00e9 de Souza, Mem de S\u00e1 e Duarte da Costa. O interesse nacional implica l\u00ednguas e culturas ind\u00edgenas. A obriga\u00e7\u00e3o constitucional do Estado \u00e9 garantir esses direitos, n\u00e3o apenas para reparar injusti\u00e7as contra &#8220;coitadinhos&#8221;, mas para incorporar seus saberes e experi\u00eancias na constru\u00e7\u00e3o do Brasil moderno.<\/p>\n<p>O ex-BBB Serginho, com foto no Instagram, diz que n\u00e3o fala com \u00edndio: &#8220;Tenho fobia de \u00edndio e de palha\u00e7o&#8221;. Esse pobre coitado \u00e9 fruto do adestramento que lamentavelmente foi refor\u00e7ado nesta campanha eleitoral, alimentado por omiss\u00e3o de marqueteiros e parafern\u00e1lia partid\u00e1ria. Nos debates, Dilma e A\u00e9cio nem sempre falaram como estadistas, mas em defesa de interesses empresariais privados. Os dois, embora se comportem como tal, n\u00e3o s\u00e3o ex-BBB. Deviam aprender com dona Ercy: humildsche. Domingo, Dilma 13 para presidente, sem entusiasmo. Para governador, voto com Dona Ercy, mas com uma pulga atr\u00e1s da orelha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu amigo Bessa, que marinou no primeiro turno, publicou antes da elei\u00e7\u00e3o mais uma de suas colunas nas quais o dito latino \u00e9 aplicado com justi\u00e7a e precis\u00e3o: ridendo castigat mores. 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